Meia Laranja

quinta-feira, junho 30, 2016

As relações que não foram boas nem foram más são as piores. As mais difíceis. Quando o dia a dia, a dois, não é suficientemente mau para se desistir, nem suficientemente bom para se continuar, as relações engolem-nos. Entopem-nos. Paralisam-nos. E começam, inexoravelmente, a destruir-nos. Os meios termos são bons, mas nunca para as relações.

A gente foge. (fugir é a saída mais prática, não a mais fácil). E na tentativa da fuga espera encontrar a paz que tanto procura... Mas os dias que não foram bons, nem foram maus continuam a prevalecer sobre as nossas cabeças. Há coisas que por mais que a gente as queira encerrar, a vida arranja sempre uma maneira, na maioria das vezes bastante irónica, de nos colocar de novo, frente a frente com elas. 

Perdoar os outros por aquilo que eles nos fizeram, ou por aquilo que eles não nos fizeram é muito duro... Mas, perdoar-nos, a nós, é mais doloroso. Esquecermos que não fomos suficientes, nem tão pouco perfeitos, é angustiante... Muito mais do que viver com um cancro. É por isso que a gente se afasta. É por isso que a gente foge. Para evitar, sobretudo, continuar a viver a dor que a insuficiência causa.

Geralmente, não perdoamos o outro porque queríamos que ele tivesse sido tão forte como nós fomos. Não perdoamos, mas não deixamos de amar. E não nos perdoamos porque ainda o amamos. E amar, neste caso, é querer ter a certeza de que o outro, para quem não conseguimos ser tudo, encontra a completude que lhe falta. Em alguma coisa. Em alguém. Em si próprio.

É difícil perdoar quando as pessoas não são robustas como nós. Quando não aguentam como nós. Quando não defendem como nós. Quando não atacam como nós. Quando não funcionam como nós. Pelo menos a mim, é-me muito difícil tolerar robustezes diferentes... Ser-se robusto não implica ser-se rígido, mas raras vezes consigo separar uma coisa da outra. A inflexibilidade não é uma virtude, antes pelo contrário, é uma dor de cabeça que torna mais difíceis as relações que já são difíceis.

As relações que não foram boas nem foram más consomem-nos. Esvaziam-nos. E infelizmente, enfraquecem-nos. E por isso, e por tantas outras coisas, eu pergunto-me: querer que o outro encontre, e rápido, a sua completude, a sua meia-laranja, não será por si só uma forma de perdoá-lo? De me perdoar? De nos perdoar a ambos por todas as falhas e por todos os erros? Provavelmente sim. Querer a felicidade do outro, de uma forma urgente, mais urgente do que nossa, é uma forma de perdão. Das mais bonitas. E eventualmente, das mais cobardes também. Mas se entre os dois, um de nós for feliz, ainda que seja com outra pessoa, isso já é mais do que suficiente.

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4 comments

  1. " Querer a felicidade do outro, de uma forma urgente, mais urgente do que nossa, é uma forma de perdão. Das mais bonitas. E eventualmente, das mais cobardes também".

    Sem dúvida, CC.
    Gostaria de ter usado estas palavras há muitos anos, mas a paixão era demasiado forte.
    Palavras tão sábias, as suas.

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    1. Que bom que a paixão era demasiado forte Maria.
      Um beijinho :)

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  2. Tão verdade!
    É tão difícil sair dessas relações nem boas nem más, por isso digo sempre "só se deve amar com paixão, amar só por amar, uns dias mais outros menos, não é nem nunca foi suficiente!" ;)

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    1. Concordo Vera, acho que temos de partir de coração aberto para as relações. Infelizmente nem sempre conseguimos e o resultado depois é muito doloroso.
      Um beijinho grande! Bom fim de semana :)

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