"Não sou capaz de voltar a fazer isto"

quinta-feira, junho 23, 2016

Dizia-me uma "colega" ontem enquanto aguardávamos ambas pela consulta... O "não sou capaz de voltar a fazer isto" refere-se a um momento epifânico que ela teve enquanto estava parada no trânsito, na ponte 25 de Abril. Questionou-se se efectivamente seria capaz de voltar à vida que tinha antes do cancro e a resposta parece óbvia: não. Acho que a tendência da generalidade das pessoas, independentemente de se estar doente ou não, é a de questionar as respectivas escolhas quando se vive um período de sofrimento alargado. Por vezes, a dúvida, e o mal-estar que ela traz consigo, dá cabo de nós, e acaba por derrubar, sem hesitações, o melhor que o nosso organismo tem: as defesas!

Recentemente fui visitar a psicóloga que me acompanhou antes de deixar Lisboa (sim, deixar Lisboa foi um processo difícil para o qual eu recrutei muitos profissionais). A minha mãe diz que eu fui ao médico. Ir ao psicólogo continua a ser um tabu para ela. Apesar de poder usufruir destes serviços gratuitamente, através do hospital, eu decidi ir a um profissional que já me conhecia. Achei que fazia mais sentido. E no fundo, confesso, tinha algumas saudades de conversar com ela. Ela acabou por confirmar o que muita gente me diz, que depois de submetermos o nosso corpo a um grande período de stress, é mais do que normal que as doenças apareçam. E como diz uma amiga minha, e bem, eu tenho a mania que uso as cuecas por cima das calças por isso nunca me deixei ir nessa conversa, mas agora, depois de alguém acreditado tê-lo dito (oh feitiozinho ruim este de nunca crer em nada) começo a acreditar muito nela...

Vivi um ano tão complicado antes de ir para casa que o meu corpo entrou em burn out. É por isso que decidi escrever isto. Não vale a pena gastarem energias à toa, eles vão fazer-vos falta um dia. Uma vez li isto em algum lado, "não se entregue demasiado ao trabalho, um dia, quando você adoecer, quem é que vai cuidar de si? o trabalho ou os seus amigos?" Quem me dera ter tido estas evidências todas o ano passado. Eu desgastei-me. Eu não soube como proteger-me física e psicologicamente. Eu sou a única culpada por não ter cuidado de mim. Não quero afligir-vos com a ideia de que o stress vos vai trazer de brinde um cancro, não é assim tão linear quanto isso, mas quero avisar-vos de que ser feliz é uma forma de ser saudável... e normalmente esquecemo-nos disso. Esquecemo-nos de incluir a felicidade dentro do pacote todo. 

A maioria dos "colegas" que estão a passar pelo mesmo não querem voltar tão cedo às suas rotinas habituais. Querem, obviamente, voltar às suas vidas, mas querem acima de tudo tempo e satisfação. Aprende-se muito com esta doença. Aprende-se que se pode estar tão satisfeito com um dia de sol como com uma promoção. Mas agora pergunto eu: para sermos promovidos quantos dias de sol tivemos de deixar para trás? Eu não sei de vocês, mas sei de mim. Deixei muitos e acreditem, nem foi à procura de uma promoção, antes pelo contrário. Uma vez tive uma conversa muito interessante com uma médica. Ela confidenciou-me: "é um erro trabalhar a vida inteira para construir uma carreira. Uma carreira é uma ilusão. Hoje em dia ninguém faz carreira". É completamente verdade. Hoje em dia ninguém faz carreira. 

Andamos todos perdidos. É aquilo que eu penso. Os piores vícios da sociedade moderna trocaram-nos as voltas. Antigamente pouca gente se preocupava com uma carreira. Preocupavam-se em ter comida na mesa, e quando isso acontecia, era motivo de festa. Hoje em dia, nem sequer temos tempo para comer, quanto mais para estar à mesa. Será isso a felicidade? Eu acredito que não.

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2 comments

  1. Ó CC, este post está na mouche, vou enviá-lo para a minha irmã.
    Beijinho

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    1. É importante as pessoas cuidarem de si a todos os níveis. S
      Somos o nosso melhor investimento Maria.
      Beijinho grande

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