Serei bipolar?

domingo, junho 26, 2016

Perguntou-me ela com o sotaque alentejano bem carregado. "Choro de manhã e canto à tarde". A Beatriz é das pessoas que melhor sabe brincar com o cancro. Foi ela, a senhora professora reformada, que me ensinou que a contagem decrescente dos nossos tratamentos é, de facto, muito importante. E porquê? Porque termina, exactamente, no dedo do meio de uma mão... As coisas que se aprendem com os colegas de quarto, já viram bem?!

Devia-lhe um texto e algumas palavras. Não que ela mo tenha pedido, mas sim porque eu quero, e sobretudo porque não é fácil passarmos por isto sem parecermos uns maluquinhos. Eu própria tenho os meus momentos "salt and pepper"... Ora dou por mim a chorar, compulsivamente, ora dou por mim a rir até chorar. Estas oscilações não fazem de nós seres bipolares. Fazem de nós seres humanos. Apenas isso.

O mundo foi concebido de uma forma muito estranha, cheio de ditames e de pro-formas sobre o comportamento humano... mas nada disso é válido quando se enfrenta uma doença como o cancro. E ainda bem. Por vezes, somos infelizes à custa de não sermos mais vezes bipolares. Não concordam? 

Desculpem insistir, mas devíamos fazer mais vezes aquilo que a nossa consciência nos manda fazer. Devíamos seguir os nossos instintos. Devíamos deixar de nos preocupar tanto com aquilo que os outros pensam. Devemos seguir as nossas regras, desde que elas nos façam felizes, e nos deixem dormir à noite, com o espírito, tranquilo. E devemos, querer-nos, mais humanos e menos super-heróis. 

Eu farto-me de chorar, aliás não há dia em que não deite uma lagrimita pelo canto do olho, mas ainda ontem, dei por mim, no duche, a cantar uma versão original minha do "Como uma força" da Nelly Furtado. Bipolar?! Nãaooo... no mínimo louca. Amanhã, se calhar, ainda vou ao Waka Waka da Shakira... nunca se sabe. Mas sabem que mais? A loucura não é assim tão má... É quando ela aparece que descobrimos que estamos a melhorar. Pelo menos por dentro.

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2 comments

  1. Que fofa, CC.
    Sabe que adoro ouvir os " como uma força" e "waka, waka?".
    Passem na rádio e vejam-me a "cantar" ou a mover a anquinha.
    É tão bom ser louca, CC.
    Fiquei feliz ler este post.
    Um abraço.

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