#vamos matar o bicho

Olhe(m) que não, olhe(m) que não...

sexta-feira, julho 29, 2016

Sempre ouvi as pessoas iluminadas dizerem, "ah, isso é como andar de bicicleta, nunca se esquece". Nós, realmente, confiamos muito na sabedoria popular. O único problema que vejo, assim à primeira vista, nesta falácia bem conhecida do povo português, é que "isso" pode assumir diversas posições gramaticais. Pode ser um substantivo, um nome próprio, ou até um verbo. É por causa desta ginástica, fácil e brejeira, da língua portuguesa, que estamos todos tramados.

No outro dia, a fisioterapeuta do hospital pediu-me para fazer este simples exercício: simular, com as pernas, que estava andar de bicicleta. Querem saber da melhor? Eu não consegui. Parecia um insecto, desesperado, virado de pernas p'ro ar, a tentar nadar de costas. Ok, tudo bem, eu sempre soube que padecia um bocadinho de descoordenação motora, mas como toda a gente diz, ou melhor, garante, "que andar de bicicleta nunca se esquece", eu pensei, confiadamente, que a coisa se ia dar. Mas não deu.

Depois deste episódio caricato, que desafia a filosofia de uma vida inteira, pus-me a pensar, coisa que até faço com bastante frequência. Será que depois desta porcaria toda passar, eu sou mulherzinha para me sentar numa bicicleta, sem me despistar e sem esfolar os joelhos? Duvido, apesar do equilíbrio até ser um dos meus pontos fortes. 

Isto é uma coisa séria. Descobri por A+B que este ditado popular é uma grande mentira e achei por bem partilhar com vocês, não fossem vossas excelências sentarem-se na dita bicicleta e caírem p'ró lado. Quem é amiga, quem é? É que isto de sermos uns grandes convencidos tem muito que se lhe diga. Muito mesmo.

Ainda assim, esquecermo-nos de coisas que, aparentemente, são como andar de bicicleta até é bom. É claro que (re)experimentá-las pode vir-me a custar alguns arranhões extra, mas nada que uma pessoa, com as cicatrizes que carrega, não tenha vontade de tentar. Afinal de contas, nem tudo na vida parece tão simples como andar de bicicleta, mas pode ser, que depois de lhe (re)tomar o gosto, eu apanhe balanço e desça canada abaixo, sem medo de me esbardalhar.

Quanto a vocês, meus caros, não se animem. Vamos lá com calminha. Por via das dúvidas, protejam-se... porque a gente nunca sabe quando é que os travões falham. Considerai-vos avisados.

#vamos matar o bicho

Em alta

quinta-feira, julho 28, 2016

Talvez vocês nunca imaginassem que eu pudesse vir a dizer isto, mas as altas hospitalares têm um sabor agridoce. Têm. Pelo menos para mim. Sabem-me mal as minhas, quando os meus "colegas de corredor" não as têm, e sabem-me mal as dos meus colegas, quando eu não tenho a minha. A alta é uma espécie de momento injusto, ainda que toda a gente a deseje muito. Custa-me despedir-me das pessoas. Principalmente no momento da alta. Parece absurdo, eu sei, mas custa-me, imenso, despedir-me dos que vão e dos que ficam. 

Quem vai, vai sempre com o coração entalado. Falo por mim. E quem fica, fica com ele entalado na mesma. Não existem grandes comemorações. Nem grande festa. Nem explosões de alegria. Existe algum alívio, é certo, mas é apenas isso. Hoje tive que me despedir de um "colega de corredor", mais amigo do que colega, e sei bem o que nos custou, a ambos... Dizer adeus sem deixar que a inveja tome conta das nossas emoções é difícil p'ra caraças. É quase impossível.

Normalmente eu choro sempre com as altas dos outros, confesso. Primeiro porque fico feliz por eles. Segundo porque fico triste por mim. É por isso que eu não gosto de me despedir dos outros quando tenho altas porque sei bem o que dói saber que não somos nós que vamos para casa. É das situações mais lixadas de se gerir quando se passa muito tempo nos hospitais.  

As altas também são complicadas porque nos empurram novamente para o mundo cá de fora. Obrigam os enfermeiros a expulsarem-nos porta fora, mesmo que os valores do sangue, por exemplo, não estejam no máximo, como é o meu caso. Mas não é só isso que aflige quem sai de um hospital... As altas expulsam-nos porta fora sem estarmos preparados para viver outra vez. É essa a verdade. Saímos com tanto medo que parecemos  bebés a testar a temperatura da água do mar pela primeira vez.

Na despedida, eu digo sempre "eu volto" porque efectivamente eu sei que tenho de lá voltar, então antes que o meu cérebro se esqueça disso, eu relembro-o. Relembro-o de que ainda não é hora de dizer adeus, definitivamente. E ter consciência desse "eu volto" também torna as altas mais difíceis... porque mais cedo ou mais tarde vamos estar, novamente, nos mesmos corredores.

#vamos matar o bicho

Mais uma volta no carrossel

terça-feira, julho 26, 2016

Hoje dei-me conta que o pouco cabelo que me cresceu entretanto, começou a cair de novo. Eu sabia que ele ia, efectivamente, voltar a cair, mas julguei, ingenuamente, que não me fosse custar mais do que a primeira vez em que o perdi. Custa. Muito. O cabelo ou a falta dele influencia bastante a força, (in)constante, de quem vive com um cancro. Ficar sem cabelo outra vez, recorda-me, inevitavelmente, mais o inicio do que o fim. E recordar-me do inicio é também recordar-me de todas as dores que me foram infligidas. Não é fácil. Não é nada fácil...

Não é fácil porque como em (quase) tudo na vida, nos inícios, somos robustos, e ainda que não saibamos o tamanho da batalha que vamos enfrentar, julgamo-nos e sentimo-nos corajosos o suficiente para a enfrentar. Aos poucos e poucos, o dia a dia vem-nos roubar a inteireza de que éramos feitos. Involuntariamente, perde-se terreno para o medo. E pouco ou nada se pode fazer para despistá-lo.

É por isso que as batalhas contra o cancro são duras. São feitas de perdas e de ganhos. E de muitos, muitos, altos e baixos. Se puderem, e se tiverem alguém que vos é próximo a passar pelo mesmo, não digam a essa pessoa que "o cabelo é o menos" porque não é. Apesar de não me ter feito confusão tê-lo perdido no inicio dos tratamentos, foi preciso muita força para me olhar no espelho e para me amar da forma que o cancro me exigia. Nós até podemos disfarçá-lo aos olhos dos outros... Aprendemos a fazer isso com alguma frequência, ainda que com alguma dificuldade, mas fazemo-lo. Se é difícil para os outros verem-nos sem cabelo, imaginem para nós.

Sim, concordo com a maioria de vocês, é só cabelo, e isto foi apenas um desabafo do dia. É sinal, em última instância, de que todas as perdas, todos os ganhos, todos os altos e todos os baixos convergem para um fim. Um fim que terá com certeza um sabor mais doce do que o dia de hoje. Amanhã é outro dia. Talvez até tenha alta e me vá embora do hospital. Como diz uma amiga minha, a minha vizinha do coração, "é só mais uma volta no carrossel". É vizinha. É só mais uma volta.

#vamos matar o bicho

De 1 a 10, quanto é que lhe dói?

segunda-feira, julho 25, 2016

Ela disse-lhe "vai-te embora", mas ele não foi. "Vai-te embora" é, provavelmente, das frases que mais se repetem nos quartos dos hospitais. É a única ordem que podemos dar de forma a evitar que o outro assista, desnecessariamente, ao nosso sofrimento. É a única forma de tornarmos as despedidas menos dolorosas e menos prolongadas. É a única forma altruísta de guardarmos a dor só para nós.

Ela voltou a pedir-lhe, "vai-te embora", mas ele não foi. Pareciam dois namorados ao telefone, "desliga tu", "não, desliga tu primeiro", "vá lá, desliga"... Andaram nisto a visita inteira. Na maioria das vezes, o outro, a quem dizemos para ir embora, não entende porque o dizemos. Na maioria das vezes, o outro, interpreta mal as coisas. Na maioria das vezes, o outro, assume uma culpa inexistente que o torna persona non grata aos seus próprios olhos. Na verdade, nós não queremos que ninguém se vá embora. Na verdade, nós queremos que o outro seja um bocadinho como este homem que não virou costas, mesmo quando ela lho pediu, várias vezes.

Há uma certa economia das emoções que as pessoas com cancro tentam gerir da forma que podem. Tentamos arcar com o que conseguimos para evitar que o fardo dos que nos rodeiam seja maior do que aquilo que já é. Nem sempre conseguimos. A economia das emoções é semelhante à escala da dor... No hospital, sempre que nos queixamos de dores temos de quantificá-las entre 1 e 10 para que quem cuida de nós possa saber como e quanto nos estamos a aguentar. 

Se a dor for um 8, nós damos-lhe um 7. Se for um 9, damos-lhe um 8. Há sempre um medo dentro de nós que a dor, em si, se possa tornar maior. É por isso que guardamos os números da mesma forma que tentamos resguardar os outros. Da última vez que ela lhe disse "vai-te embora", ele foi. Não porque quis, mas porque a hora da visita tinha terminado. Ela virou-se para um lado da cama, deitou a cabeça na almofada e deixou-se chorar. Não era um 10, mas estava muito perto de sê-lo.

#vamos matar o bicho

Mulher-Mãe-Esposa

sábado, julho 23, 2016

O bom senso aconselha que não se fale, nem se comente, sobre aquilo que não se sabe nem se conhece. Mesmo assim vou correr o risco da crítica, (o mais fácil de todos), e vou falar sobre duas coisas que não sou: mãe e esposa. E porquê? Porque apesar de toda a gente à nossa volta sofrer com o maldito cancro que apanhámos, as mães e as esposas são as que sofrem mais.

Os pais e os maridos também sofrem. Aliás, entre quem nos quer bem, não há quem não sofra, mas as mães-mulheres-esposas têm um coração-elástico diferente de todos os outros.

Eu não consigo imaginar-me a passar por isto sem a minha mãe. E não imagino, nem quero imaginar, o que é passar por isto estando no lugar de mãe. Ver um filho sofrer deve ser das coisas mais injustas que há na vida. A minha avó materna perdeu uma filha em vida, e embora eu só tivesse 14 anos nessa altura, não tive como não questionar (o meu) Deus. "Será que ele joga com o baralho todo"? Para mim, a vida já lhe tinha sido suficientemente madrasta para lhe dar esse desgosto. Mas mesmo assim, deu. Quem perde um filho, perde uma parte de si. Provavelmente irrecuperável. Tal como vos disse, não sou mãe, mas estou muito segura de que é verdade o que acabei de escrever.

Para além das mães, que sofrem o que sofrem quando um filho está doente, existem as esposas, que aguentam, sozinhas, as fundações da família-base, quando os maridos-pais estão no hospital. Conheci muitas mulheres-mães-esposas desde que cá estouFortes. Na sua fragilidade. Compostas. Na sua dor. Presentes. Em todas as horas. O "prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida" não é um compromisso à toa. O cancro, esse malvado, é capaz de testá-lo ao limite.

Acho que nunca tinha falado, assim, das mães. Nem das esposas. Nem das mulheres que passam muito tempo ao nosso lado, mas elas merecem. Merecem sobretudo porque não saem de ao pé da nossa cabeceira, mesmo quando não somos as pessoas mais fáceis de amar. Este tipo de amor, para mim, não se agradece. Este tipo de amor, nasce, naturalmente, em que é mãe, em que é esposa. Este tipo de amor, não cura, mas consola. Este tipo de amor é provavelmente o mais verdadeiro do mundo. E o mais complacente de todos.

#vamos matar o bicho

Os médicos salvam pessoas... e as pessoas salvam quem puderem

quinta-feira, julho 21, 2016

"E então, quando for para casa, nos próximos dias, tem quem olhe por si, Sr.º Carlos?" atirou-lhe, à falsa fé, a enfermeira de serviço. "Tenho sim senhora enfermeira", respondeu, lá do alto dos seus 63 anos, mas como quem conta uma mentira com pouco mais que 20. "Tem mesmo?" voltou a atacar ela. No centro. Na ferida. Na questão. "Aiii, atão já não lhe disse que sim, não me moa mais a cabeça, ouviu? Dê-me lá alta".

A enfermeira saiu do quarto. Entrou a médica. A mesma pergunta. A mesma contestação. A mesma cara de zanga... e a fuga, envergonhada, para o silêncio de quem não tem as melhores respostas para dar. Deixou-se olhar para o tecto durante uns minutos até que se aproximou da minha cama. A cama onde estava, naquele momento, a única testemunha da sua solidão (in)declarada. "Atão menina, anda aqui há muito tempo?" "Ando há 6 meses Sr.º Carlos, 6 meses".

Pareceu-me que o peso dos (meus) dias, que p'ra ele ainda eram poucos, lhe deu alguma forma. Recompôs-se. E esforçou-se, a sério, para que a zanga, amarga, que latia dentro do seu peito, amainasse. "Pois, eu ainda não sei, não sei quanto tempo vou aqui passar... Cada caso é um caso, não é assim? Os médicos querem que eu venha às consultas, dizem que me vão lá buscar, para fazer uns exames e umas análises... Mas eu sempre estive bem, nunca me senti cansado, nem fraco. Já tive os meus dias de má vida, estava eu deitado na cama, a dormir, e veja lá, os meus amigos tocavam à janela para eu ir beber com eles. Agora não. Agora não faço isso".

Deixei que me contasse o que quisesse contar. Deixei que recuperasse a confiança. Deixei as perguntas todas que me apeteciam fazer arrumadas a um canto. Não queria voltar a tocar onde mais lhe doía. "Sr.º Carlos, tem mesmo de vir às consultas, ouviu? É muito importante ser acompanhado, e olhe, enquanto eu cá estiver, vamo-nos encontrando". "É isso menina, é isso. Eu venho. Eu disse que vinha." E assim, de repente, sem qualquer tipo de laços, selámos uma promessa. 

No outro dia, entrei eu, embrutecida, pela sala dos tratamentos dentro. Dei um bom dia zangado. Estava quente. O ar condicionado não funcionava. Doía-me tudo. Corroía-me o veneno nas veias. Agoniavam-me as caras conhecidas de sempre. Sentei-me a um canto e fixei o olhar no chão, como se o passar despercebida me arrancasse à rotina de sempre. Desejei-me sozinha, ali, ainda que fosse impossível com uma sala minúscula, pejada de gente. "Menina Cátia! Menina Cátia! Oh, menina Cátia!" Lá estava ele, o Sr.º Carlos, a cumprir a sua, (nossa), promessa. A amainar-me, com o seu jeito próprio, o meu coração.

#vamos matar o bicho

De boa fé

sábado, julho 16, 2016


Nós não conhecemos a nossa fé até precisarmos dela. Assumimo-nos crentes, como se a assumpção, por si só, nos tornasse (ainda) mais crentes do que aquilo que julgamos ser... mas, difícil, mesmo, é acreditar. A fé não é uma disciplina fácil. Não funciona como funcionam as lojas de conveniência. Ter fé implica entregar-nos. A sério. E por inteiro. [e há lá coisa mais difícil para um ser humano do que isso?]. Ter fé implica depositarmos, em mãos alheias, o controle da(s) nossa(s) vida(s), e da esperança que nos rege os dias. 

Repito. Não é fácil. Não é fácil entregar-nos, sem duvidar. Sem pôr em causa. Sem recuar. Não é fácil porque não existem garantias nem reembolsos. Não é fácil porque tem de se correr riscos. Obrigatoriamente. E só quem os aceita, sem medo da dúvida, consegue, finalmente, acreditar. É justamente a passagem de uma margem para a outra que nos torna crentes. Mais. E melhores. Ter fé implica também alguma robustez. Implica aguentarmo-nos, presos a um nada, principalmente quando não vemos (e quando não temos) resultados. É por isso, que vos digo, e repito, uma vez mais: a fé não é uma disciplina fácil.

Eu não me tornei mais crente por causa do cancro. Eu tornei-me melhor crente. Os cancros não têm necessariamente de ser experiências transformadoras... mas se forem, que sejam, sem sombra de dúvida, p'ra melhor. Apesar de difícil, e de exigente, a fé também se aprende. Ainda que a releguemos, muitas vezes, sem intenções declaradas, para um segundo plano das nossas vidas, ela estará sempre lá, à espera que nos aproximemos, ao nosso ritmo, e à nossa maneira. É isso que a fé tem de tão bom... Não nos exige, não nos força, não nos cobra. Alimenta, apenas, e tão só, quanto baste. 

Acreditar é um acto de fé. Talvez o maior deles. O mais esquecido. O mais evitado. O mais temível. Aquele de que fugimos mais. Aquele com o qual nem sempre nos queremos confrontar. Aquele para o qual nunca avançamos sem reservas. Apesar disso tudo, acreditar não é tão mau quanto parece, é difícil, mas não é mau. Se nós, seres humanos, não tivéssemos a tendência natural para acreditar em coisas, pessoas, até mesmo, milagres, onde é que estaríamos agora? Estaríamos provavelmente a contar os dias para isto, a que chamamos vida, terminar. E deixem-me que vos diga, aquilo a que chamamos vida é um bem demasiado precioso para, em primeiro lugar, andarmos a contar os dias, e em segundo, para nos darmos ao luxo de não acreditar. 

Verdade?

#vamos matar o bicho

Devolve-me os laços, meu amor

segunda-feira, julho 04, 2016

Às vezes é-me difícil compreender porque é que as pessoas insistem em aproximarem-se de nós quando descobrem que estamos doentes. Assim de repente, a hipótese de termos o prazo de validade a acabar parece que nos torna mais interessantes. Ou merecedores de alguma coisa que essas pessoas não foram capazes de nos dar enquanto estivemos de saúde. Isto acontece muito com a família. E com os amigos. Mas mais com a família. Vocês não imaginam as "declarações de amor" que eu recebi de gente que partilha o apelido comigo. Sim. O apelido. Apenas isso. 

A partir do momento em que vocês têm um cancro as atenções viram-se todas numa única direcção. Os convites de amizade no facebook, de seres humanos com quem vocês nunca trocaram duas palavras chovem a pique, quase todos os dias. São muito estranhos os caminhos que as pessoas escolhem para se ligarem umas às outras. Falei disto com a minha psicóloga. Disto e da minha incapacidade para aceitar a aproximação. Dos estranhos que nunca estiveram presentes. E dos presentes que acabaram por se tornar estranhos. 

"Pense lá no que leva as pessoas a fazerem isso, a quererem aproximar-se...", disse-me ela. E a primeira coisa que me veio à cabeça foi a tendência, natural, que nós humanos temos, para "gostar" de assistir ao sofrimento dos outros. "Errado", disse. (impressionante como eu acerto sempre nas coisas). "As pessoas não gostam de ver os outros sofrerem. As pessoas, pelo menos a grande maioria, não tira prazer disso. As pessoas aproximam-se de si porque são empáticas consigo e com o seu sofrimento". Por momentos duvidei da minha capacidade literária. Que raio de coisa é essa da empatia?

É simples. Pelo menos na teoria... porque na prática, está visto. "Empatia significa sentir o que sentiria o outro, caso vocês estivessem na mesma situação do que ele. É diferente de simpatia. Simpatia significa "com sentimento por" e empatia significa "em sentimento com". A grande diferença entre as duas palavras está na forma pela qual nos sentimos afectados pelo outro. Ser simpático é sentir algo por alguém, mesmo sem conhecê-lo profundamente. É uma resposta intelectual. Quando se é simpático, está-se de fora. Ser empático implica uma identificação com o que o outro é. A empatia é uma fusão emotiva".

Isto ainda me veio baralhar mais as ideias, embora eu perceba que é por causa da empatia que não nos andamos a matar uns aos outros. "É a empatia que leva as pessoas a ajudarem-se umas às outras, está ligada ao altruísmo, ao amor ao próximo. A capacidade de se colocar no lugar do outro, ajuda a compreender melhor o comportamento em determinadas circunstâncias e a forma como o outro toma decisões". Então, a que conclusões cheguei eu, meus amigos? Cheguei à conclusão, de que porventura, quem não estava a ser empática era eu. O cancro rouba-nos um bocadinho, a capacidade, e a coragem de nos ligarmos aos outros. Aos que já estivemos ligados, e por alguma razão, não estamos mais. E aos que nunca estivemos ligados, e por alguma razão, temos medo de vir a estar.

#vamos matar o bicho

Quartos de Final

domingo, julho 03, 2016


Apesar da minha mãe estar com a freveleta acesa, a contar os dias para regressarmos à Terceira, esta temporada fora do hospital foi, no geral, milagrosa. Atrasou um bocadinho o plano inicial, é verdade, mas quando se tem um cancro não se pode contar com planos. É claro que andei, mais do que preocupada, com o facto dos glóbulos brancos não subirem. Esse é o primeiro alerta sobre uma possível reincidência da doença. Ao mesmo tempo, deixei-me sentir, irregularmente feliz, por poder adiar a ida para o hospital por mais uns dias.

Agora que me preparo para avançar com o 6º tratamento de quimioterapia, o ante, ante penúltimo do protocolo definido, nem quero imaginar o regresso... Suponho que será um reviver, doloroso, de todas as emoções que já experimentei enquanto lá estive. Sei que estou entregue em boas mãos e rodeada de seres humanos excepcionais, mas a ideia de voltar continua a provocar-me dores de barriga difíceis de controlar. Os meus amigos dizem, e é verdade, "quanto mais depressa fizeres o 6º, mais depressa terminas os tratamentos". Não ponho isso em causa. Mas não são os meus amigos que passam por aquilo que eu passo cada vez que faço um tratamento.

Acho que nunca vou permitir que as pessoas me digam que foi fácil ou pareceu fácil. Não foi. Não é. Por mais palavras que eu partilhe convosco e por mais fotos que exponha de todo o processo, e do meu dia a dia, ninguém sentiu as dores que eu senti. As físicas. E as psicológicas. As pessoas, hoje em dia, respeitam muito pouco a(s) dore(s) do(s) outro(s). Acho que se sentem tão mal face ao sofrimento alheio, e às ironias da vida, que se sentem na obrigação de fazer algo ou de dizer algo. Para mim, respeitar a dor dos outros é evitar tocar nela. Mas vá se lá explicar isso a alguém... Por exemplo, quando tenho amigos a sofrer por algum motivo, não costumo dizer-lhes nada de extraordinário. Sento-me por perto e choro com eles. E isso é a melhor coisa que eu posso fazer. Mas não quero, nem tenho intenções de obrigar vocês a pensarem como eu.

Estes dias foram óptimos para ganhar, outra vez, confiança. Para recarregar forças. Para apanhar um bocadinho de sol, ainda que não deva. E para, quando chegar a hora, entregar-me de novo ao processo, sem medos e sem receios. Como soube bem dormir de barriga para baixo, sem um cateter enfiado no peito. Como soube bem tomar duches prolongados sem medo de desmaiar. Como soube bem voltar a ter a sensação de pele de galinha (sem pêlos nos braços era difícil). Como soube bem, olhar-me ao espelho, e descobrir que as pestanas e as sobrancelhas começaram a crescer. Voltar ao hospital significa perder todos os pequenos luxos que adquiri durante estes dias. Significa também voltar a poder chorar.

Como dizem os meus amigos, quanto mais depressa o fizeres, mais depressa o terminas. 
E ainda que doa, sem eles saberem quanto, é nisso que tenho de me focar.
Venha ele.

#nas palavras dos outros

Guerreira não, obrigada

sábado, julho 02, 2016

Acompanha-me há tempos uma embirração muito grande com a palavra 'guerreira' quando usada para descrever pessoas que são confrontadas com um cancro e que fazem o expectável, que é tratar-se. Como pessoa que teve cancro (usar o passado nestas coisas é sempre uma questão discutível, mas fica assim), a palavra nauseia-me até ao infinito. Se calhar, até mais além. Primeiro, eu não fui para a guerra, fiquei doente. 

Se dias houve em que não me faltou a boa disposição e a coragem, outros houve em que tive muito medo. Não é uma guerra, é uma doença. Não há estratégias, exércitos, opção. Não dependemos de nós. Dependemos do nosso corpo, dos químicos, da doença e da sorte. Nós entramos com as veias. Podemos entrar com o optimismo e com a coragem, com alimentação mais saudável e com reiki. Mas, não nos iludamos: a doença entra com tudo. É cabra, falsa, cheia de surpresas e com muito mais força do que a nossa força de vontade. 

Se tudo se conjugar, se os tratamentos resultarem, se as tuas veias levarem a droga a bom porto, se tiveres detectado a doença a tempo, se fizeres tudo direito, com alguma sorte, podes ver os marcadores ir a zero. Mas a cada ressonância com uma sombra, a cada nódulo novo, a cada 'sintoma' estranho, desilude-te: não será, nunca, possível ficares por cima, ganhar. Porque isto não é uma guerra. Não tem fim. É uma longa jornada cheia de sustos e que nunca, mas mesmo nunca, termina. 

A minha mãe tem cancro há 14 anos. 14. Já teve dias melhores, já teve dias piores, já esteve presa a uma cama sem se poder mexer e já teve dias em que podia fazer tudo. Ela não se acha uma guerreira. Aliás, a palavra faz-lhe tanta espécie como a mim. Uma guerreira pressupõe uma guerra. Numa guerra há um lado mais forte e um mais fraco. Por vezes, por coisas inumeráveis, pode ganhar o mais fraco. Mas termina. Há um vencedor e um vencido.

A palavra 'guerreira' foi-me dita dezenas de vezes quando o cancro me apanhou de surpresa, quando me trocou as voltas, quando me queimou as veias, quando me levou o cabelo, quando quase me esgotou a força. E eu não disse nada, nunca, pois sei que as pessoas não sabem que essa palavra me cai mal. Mas cai. Sobretudo hoje, que a minha mãe perdeu uma amiga para o cancro. Que soube que tinha cancro e que não havia nada a fazer, ele já estava por todo o lado e era uma questão de tempo, pouco, até que ele terminasse o que começou. 

Ela não teve coragem. Não teve força. Não se tratou, não meteu na cabeça que havia de levar a melhor. Ela não é uma não-guerreira. É apenas uma pessoa que não teve uma única oportunidade de dar a volta à situação. Acho, até, ofensivo para estas pessoas, as que não chegam a ter uma hipótese, que se inunde o mundo com a palavra guerreira. Não é uma guerra. Não acaba nunca. Viver com isso não é ser guerreiro. É viver.

Texto retirado do blogue Bad Girls Go Everywhere