De 1 a 10, quanto é que lhe dói?

segunda-feira, julho 25, 2016

Ela disse-lhe "vai-te embora", mas ele não foi. "Vai-te embora" é, provavelmente, das frases que mais se repetem nos quartos dos hospitais. É a única ordem que podemos dar de forma a evitar que o outro assista, desnecessariamente, ao nosso sofrimento. É a única forma de tornarmos as despedidas menos dolorosas e menos prolongadas. É a única forma altruísta de guardarmos a dor só para nós.

Ela voltou a pedir-lhe, "vai-te embora", mas ele não foi. Pareciam dois namorados ao telefone, "desliga tu", "não, desliga tu primeiro", "vá lá, desliga"... Andaram nisto a visita inteira. Na maioria das vezes, o outro, a quem dizemos para ir embora, não entende porque o dizemos. Na maioria das vezes, o outro, interpreta mal as coisas. Na maioria das vezes, o outro, assume uma culpa inexistente que o torna persona non grata aos seus próprios olhos. Na verdade, nós não queremos que ninguém se vá embora. Na verdade, nós queremos que o outro seja um bocadinho como este homem que não virou costas, mesmo quando ela lho pediu, várias vezes.

Há uma certa economia das emoções que as pessoas com cancro tentam gerir da forma que podem. Tentamos arcar com o que conseguimos para evitar que o fardo dos que nos rodeiam seja maior do que aquilo que já é. Nem sempre conseguimos. A economia das emoções é semelhante à escala da dor... No hospital, sempre que nos queixamos de dores temos de quantificá-las entre 1 e 10 para que quem cuida de nós possa saber como e quanto nos estamos a aguentar. 

Se a dor for um 8, nós damos-lhe um 7. Se for um 9, damos-lhe um 8. Há sempre um medo dentro de nós que a dor, em si, se possa tornar maior. É por isso que guardamos os números da mesma forma que tentamos resguardar os outros. Da última vez que ela lhe disse "vai-te embora", ele foi. Não porque quis, mas porque a hora da visita tinha terminado. Ela virou-se para um lado da cama, deitou a cabeça na almofada e deixou-se chorar. Não era um 10, mas estava muito perto de sê-lo.

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