De boa fé

sábado, julho 16, 2016


Nós não conhecemos a nossa fé até precisarmos dela. Assumimo-nos crentes, como se a assumpção, por si só, nos tornasse (ainda) mais crentes do que aquilo que julgamos ser... mas, difícil, mesmo, é acreditar. A fé não é uma disciplina fácil. Não funciona como funcionam as lojas de conveniência. Ter fé implica entregar-nos. A sério. E por inteiro. [e há lá coisa mais difícil para um ser humano do que isso?]. Ter fé implica depositarmos, em mãos alheias, o controle da(s) nossa(s) vida(s), e da esperança que nos rege os dias. 

Repito. Não é fácil. Não é fácil entregar-nos, sem duvidar. Sem pôr em causa. Sem recuar. Não é fácil porque não existem garantias nem reembolsos. Não é fácil porque tem de se correr riscos. Obrigatoriamente. E só quem os aceita, sem medo da dúvida, consegue, finalmente, acreditar. É justamente a passagem de uma margem para a outra que nos torna crentes. Mais. E melhores. Ter fé implica também alguma robustez. Implica aguentarmo-nos, presos a um nada, principalmente quando não vemos (e quando não temos) resultados. É por isso, que vos digo, e repito, uma vez mais: a fé não é uma disciplina fácil.

Eu não me tornei mais crente por causa do cancro. Eu tornei-me melhor crente. Os cancros não têm necessariamente de ser experiências transformadoras... mas se forem, que sejam, sem sombra de dúvida, p'ra melhor. Apesar de difícil, e de exigente, a fé também se aprende. Ainda que a releguemos, muitas vezes, sem intenções declaradas, para um segundo plano das nossas vidas, ela estará sempre lá, à espera que nos aproximemos, ao nosso ritmo, e à nossa maneira. É isso que a fé tem de tão bom... Não nos exige, não nos força, não nos cobra. Alimenta, apenas, e tão só, quanto baste. 

Acreditar é um acto de fé. Talvez o maior deles. O mais esquecido. O mais evitado. O mais temível. Aquele de que fugimos mais. Aquele com o qual nem sempre nos queremos confrontar. Aquele para o qual nunca avançamos sem reservas. Apesar disso tudo, acreditar não é tão mau quanto parece, é difícil, mas não é mau. Se nós, seres humanos, não tivéssemos a tendência natural para acreditar em coisas, pessoas, até mesmo, milagres, onde é que estaríamos agora? Estaríamos provavelmente a contar os dias para isto, a que chamamos vida, terminar. E deixem-me que vos diga, aquilo a que chamamos vida é um bem demasiado precioso para, em primeiro lugar, andarmos a contar os dias, e em segundo, para nos darmos ao luxo de não acreditar. 

Verdade?

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