Devolve-me os laços, meu amor

segunda-feira, julho 04, 2016

Às vezes é-me difícil compreender porque é que as pessoas insistem em aproximarem-se de nós quando descobrem que estamos doentes. Assim de repente, a hipótese de termos o prazo de validade a acabar parece que nos torna mais interessantes. Ou merecedores de alguma coisa que essas pessoas não foram capazes de nos dar enquanto estivemos de saúde. Isto acontece muito com a família. E com os amigos. Mas mais com a família. Vocês não imaginam as "declarações de amor" que eu recebi de gente que partilha o apelido comigo. Sim. O apelido. Apenas isso. 

A partir do momento em que vocês têm um cancro as atenções viram-se todas numa única direcção. Os convites de amizade no facebook, de seres humanos com quem vocês nunca trocaram duas palavras chovem a pique, quase todos os dias. São muito estranhos os caminhos que as pessoas escolhem para se ligarem umas às outras. Falei disto com a minha psicóloga. Disto e da minha incapacidade para aceitar a aproximação. Dos estranhos que nunca estiveram presentes. E dos presentes que acabaram por se tornar estranhos. 

"Pense lá no que leva as pessoas a fazerem isso, a quererem aproximar-se...", disse-me ela. E a primeira coisa que me veio à cabeça foi a tendência, natural, que nós humanos temos, para "gostar" de assistir ao sofrimento dos outros. "Errado", disse. (impressionante como eu acerto sempre nas coisas). "As pessoas não gostam de ver os outros sofrerem. As pessoas, pelo menos a grande maioria, não tira prazer disso. As pessoas aproximam-se de si porque são empáticas consigo e com o seu sofrimento". Por momentos duvidei da minha capacidade literária. Que raio de coisa é essa da empatia?

É simples. Pelo menos na teoria... porque na prática, está visto. "Empatia significa sentir o que sentiria o outro, caso vocês estivessem na mesma situação do que ele. É diferente de simpatia. Simpatia significa "com sentimento por" e empatia significa "em sentimento com". A grande diferença entre as duas palavras está na forma pela qual nos sentimos afectados pelo outro. Ser simpático é sentir algo por alguém, mesmo sem conhecê-lo profundamente. É uma resposta intelectual. Quando se é simpático, está-se de fora. Ser empático implica uma identificação com o que o outro é. A empatia é uma fusão emotiva".

Isto ainda me veio baralhar mais as ideias, embora eu perceba que é por causa da empatia que não nos andamos a matar uns aos outros. "É a empatia que leva as pessoas a ajudarem-se umas às outras, está ligada ao altruísmo, ao amor ao próximo. A capacidade de se colocar no lugar do outro, ajuda a compreender melhor o comportamento em determinadas circunstâncias e a forma como o outro toma decisões". Então, a que conclusões cheguei eu, meus amigos? Cheguei à conclusão, de que porventura, quem não estava a ser empática era eu. O cancro rouba-nos um bocadinho, a capacidade, e a coragem de nos ligarmos aos outros. Aos que já estivemos ligados, e por alguma razão, não estamos mais. E aos que nunca estivemos ligados, e por alguma razão, temos medo de vir a estar.

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1 comments

  1. Concordo com a tua psicóloga, é isso mesmo.
    No meu caso, já não sei onde te encontrei, mas admiro a tua capacidade de andar por aqui. E penso, se fosse eu, será que teria?
    Beijinho Cátia

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