Em alta

quinta-feira, julho 28, 2016

Talvez vocês nunca imaginassem que eu pudesse vir a dizer isto, mas as altas hospitalares têm um sabor agridoce. Têm. Pelo menos para mim. Sabem-me mal as minhas, quando os meus "colegas de corredor" não as têm, e sabem-me mal as dos meus colegas, quando eu não tenho a minha. A alta é uma espécie de momento injusto, ainda que toda a gente a deseje muito. Custa-me despedir-me das pessoas. Principalmente no momento da alta. Parece absurdo, eu sei, mas custa-me, imenso, despedir-me dos que vão e dos que ficam. 

Quem vai, vai sempre com o coração entalado. Falo por mim. E quem fica, fica com ele entalado na mesma. Não existem grandes comemorações. Nem grande festa. Nem explosões de alegria. Existe algum alívio, é certo, mas é apenas isso. Hoje tive que me despedir de um "colega de corredor", mais amigo do que colega, e sei bem o que nos custou, a ambos... Dizer adeus sem deixar que a inveja tome conta das nossas emoções é difícil p'ra caraças. É quase impossível.

Normalmente eu choro sempre com as altas dos outros, confesso. Primeiro porque fico feliz por eles. Segundo porque fico triste por mim. É por isso que eu não gosto de me despedir dos outros quando tenho altas porque sei bem o que dói saber que não somos nós que vamos para casa. É das situações mais lixadas de se gerir quando se passa muito tempo nos hospitais.  

As altas também são complicadas porque nos empurram novamente para o mundo cá de fora. Obrigam os enfermeiros a expulsarem-nos porta fora, mesmo que os valores do sangue, por exemplo, não estejam no máximo, como é o meu caso. Mas não é só isso que aflige quem sai de um hospital... As altas expulsam-nos porta fora sem estarmos preparados para viver outra vez. É essa a verdade. Saímos com tanto medo que parecemos  bebés a testar a temperatura da água do mar pela primeira vez.

Na despedida, eu digo sempre "eu volto" porque efectivamente eu sei que tenho de lá voltar, então antes que o meu cérebro se esqueça disso, eu relembro-o. Relembro-o de que ainda não é hora de dizer adeus, definitivamente. E ter consciência desse "eu volto" também torna as altas mais difíceis... porque mais cedo ou mais tarde vamos estar, novamente, nos mesmos corredores.

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