Mais uma volta no carrossel

terça-feira, julho 26, 2016

Hoje dei-me conta que o pouco cabelo que me cresceu entretanto, começou a cair de novo. Eu sabia que ele ia, efectivamente, voltar a cair, mas julguei, ingenuamente, que não me fosse custar mais do que a primeira vez em que o perdi. Custa. Muito. O cabelo ou a falta dele influencia bastante a força, (in)constante, de quem vive com um cancro. Ficar sem cabelo outra vez, recorda-me, inevitavelmente, mais o inicio do que o fim. E recordar-me do inicio é também recordar-me de todas as dores que me foram infligidas. Não é fácil. Não é nada fácil...

Não é fácil porque como em (quase) tudo na vida, nos inícios, somos robustos, e ainda que não saibamos o tamanho da batalha que vamos enfrentar, julgamo-nos e sentimo-nos corajosos o suficiente para a enfrentar. Aos poucos e poucos, o dia a dia vem-nos roubar a inteireza de que éramos feitos. Involuntariamente, perde-se terreno para o medo. E pouco ou nada se pode fazer para despistá-lo.

É por isso que as batalhas contra o cancro são duras. São feitas de perdas e de ganhos. E de muitos, muitos, altos e baixos. Se puderem, e se tiverem alguém que vos é próximo a passar pelo mesmo, não digam a essa pessoa que "o cabelo é o menos" porque não é. Apesar de não me ter feito confusão tê-lo perdido no inicio dos tratamentos, foi preciso muita força para me olhar no espelho e para me amar da forma que o cancro me exigia. Nós até podemos disfarçá-lo aos olhos dos outros... Aprendemos a fazer isso com alguma frequência, ainda que com alguma dificuldade, mas fazemo-lo. Se é difícil para os outros verem-nos sem cabelo, imaginem para nós.

Sim, concordo com a maioria de vocês, é só cabelo, e isto foi apenas um desabafo do dia. É sinal, em última instância, de que todas as perdas, todos os ganhos, todos os altos e todos os baixos convergem para um fim. Um fim que terá com certeza um sabor mais doce do que o dia de hoje. Amanhã é outro dia. Talvez até tenha alta e me vá embora do hospital. Como diz uma amiga minha, a minha vizinha do coração, "é só mais uma volta no carrossel". É vizinha. É só mais uma volta.

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