Os médicos salvam pessoas... e as pessoas salvam quem puderem

quinta-feira, julho 21, 2016

"E então, quando for para casa, nos próximos dias, tem quem olhe por si, Sr.º Carlos?" atirou-lhe, à falsa fé, a enfermeira de serviço. "Tenho sim senhora enfermeira", respondeu, lá do alto dos seus 63 anos, mas como quem conta uma mentira com pouco mais que 20. "Tem mesmo?" voltou a atacar ela. No centro. Na ferida. Na questão. "Aiii, atão já não lhe disse que sim, não me moa mais a cabeça, ouviu? Dê-me lá alta".

A enfermeira saiu do quarto. Entrou a médica. A mesma pergunta. A mesma contestação. A mesma cara de zanga... e a fuga, envergonhada, para o silêncio de quem não tem as melhores respostas para dar. Deixou-se olhar para o tecto durante uns minutos até que se aproximou da minha cama. A cama onde estava, naquele momento, a única testemunha da sua solidão (in)declarada. "Atão menina, anda aqui há muito tempo?" "Ando há 6 meses Sr.º Carlos, 6 meses".

Pareceu-me que o peso dos (meus) dias, que p'ra ele ainda eram poucos, lhe deu alguma forma. Recompôs-se. E esforçou-se, a sério, para que a zanga, amarga, que latia dentro do seu peito, amainasse. "Pois, eu ainda não sei, não sei quanto tempo vou aqui passar... Cada caso é um caso, não é assim? Os médicos querem que eu venha às consultas, dizem que me vão lá buscar, para fazer uns exames e umas análises... Mas eu sempre estive bem, nunca me senti cansado, nem fraco. Já tive os meus dias de má vida, estava eu deitado na cama, a dormir, e veja lá, os meus amigos tocavam à janela para eu ir beber com eles. Agora não. Agora não faço isso".

Deixei que me contasse o que quisesse contar. Deixei que recuperasse a confiança. Deixei as perguntas todas que me apeteciam fazer arrumadas a um canto. Não queria voltar a tocar onde mais lhe doía. "Sr.º Carlos, tem mesmo de vir às consultas, ouviu? É muito importante ser acompanhado, e olhe, enquanto eu cá estiver, vamo-nos encontrando". "É isso menina, é isso. Eu venho. Eu disse que vinha." E assim, de repente, sem qualquer tipo de laços, selámos uma promessa. 

No outro dia, entrei eu, embrutecida, pela sala dos tratamentos dentro. Dei um bom dia zangado. Estava quente. O ar condicionado não funcionava. Doía-me tudo. Corroía-me o veneno nas veias. Agoniavam-me as caras conhecidas de sempre. Sentei-me a um canto e fixei o olhar no chão, como se o passar despercebida me arrancasse à rotina de sempre. Desejei-me sozinha, ali, ainda que fosse impossível com uma sala minúscula, pejada de gente. "Menina Cátia! Menina Cátia! Oh, menina Cátia!" Lá estava ele, o Sr.º Carlos, a cumprir a sua, (nossa), promessa. A amainar-me, com o seu jeito próprio, o meu coração.

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