Quartos de Final

domingo, julho 03, 2016


Apesar da minha mãe estar com a freveleta acesa, a contar os dias para regressarmos à Terceira, esta temporada fora do hospital foi, no geral, milagrosa. Atrasou um bocadinho o plano inicial, é verdade, mas quando se tem um cancro não se pode contar com planos. É claro que andei, mais do que preocupada, com o facto dos glóbulos brancos não subirem. Esse é o primeiro alerta sobre uma possível reincidência da doença. Ao mesmo tempo, deixei-me sentir, irregularmente feliz, por poder adiar a ida para o hospital por mais uns dias.

Agora que me preparo para avançar com o 6º tratamento de quimioterapia, o ante, ante penúltimo do protocolo definido, nem quero imaginar o regresso... Suponho que será um reviver, doloroso, de todas as emoções que já experimentei enquanto lá estive. Sei que estou entregue em boas mãos e rodeada de seres humanos excepcionais, mas a ideia de voltar continua a provocar-me dores de barriga difíceis de controlar. Os meus amigos dizem, e é verdade, "quanto mais depressa fizeres o 6º, mais depressa terminas os tratamentos". Não ponho isso em causa. Mas não são os meus amigos que passam por aquilo que eu passo cada vez que faço um tratamento.

Acho que nunca vou permitir que as pessoas me digam que foi fácil ou pareceu fácil. Não foi. Não é. Por mais palavras que eu partilhe convosco e por mais fotos que exponha de todo o processo, e do meu dia a dia, ninguém sentiu as dores que eu senti. As físicas. E as psicológicas. As pessoas, hoje em dia, respeitam muito pouco a(s) dore(s) do(s) outro(s). Acho que se sentem tão mal face ao sofrimento alheio, e às ironias da vida, que se sentem na obrigação de fazer algo ou de dizer algo. Para mim, respeitar a dor dos outros é evitar tocar nela. Mas vá se lá explicar isso a alguém... Por exemplo, quando tenho amigos a sofrer por algum motivo, não costumo dizer-lhes nada de extraordinário. Sento-me por perto e choro com eles. E isso é a melhor coisa que eu posso fazer. Mas não quero, nem tenho intenções de obrigar vocês a pensarem como eu.

Estes dias foram óptimos para ganhar, outra vez, confiança. Para recarregar forças. Para apanhar um bocadinho de sol, ainda que não deva. E para, quando chegar a hora, entregar-me de novo ao processo, sem medos e sem receios. Como soube bem dormir de barriga para baixo, sem um cateter enfiado no peito. Como soube bem tomar duches prolongados sem medo de desmaiar. Como soube bem voltar a ter a sensação de pele de galinha (sem pêlos nos braços era difícil). Como soube bem, olhar-me ao espelho, e descobrir que as pestanas e as sobrancelhas começaram a crescer. Voltar ao hospital significa perder todos os pequenos luxos que adquiri durante estes dias. Significa também voltar a poder chorar.

Como dizem os meus amigos, quanto mais depressa o fizeres, mais depressa o terminas. 
E ainda que doa, sem eles saberem quanto, é nisso que tenho de me focar.
Venha ele.

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