#vamos matar o bicho

A mulher dos possíveis

quarta-feira, agosto 31, 2016

Ir para o hospital não me faz (muita) confusão. Mexe comigo. Claro que mexe. Mas uma pessoa habitua-se à ideia. À força. Ir ao hospital sim, faz. Muita. Tenho receio dos murros nos estômago, inesperados, que possam surgir. Depois de vos ter escrito isto, fiquei com alguma aversão, momentânea, aos Capuchos. Não queria pôr lá os pés. E se tivesse que pôr, preferia fazê-lo como as crianças fazem: de ouvidos tapados (como se isso prevenisse golpes). Depois, aos poucos, fui-me encorajando de novo, primeiro, porque não existem outras opções. E segundo, porque quando os amigos, que nascem lá, precisam, a gente aparece. Mesmo sem gostar muito. 

Ontem fui fazer análises de rotina. E a seguir fui à consulta médica. E entre uma coisa e outra, pus-me a descansar à sombra de uma árvore, ao pé do bar lá do hospital. Passaram várias pessoas por mim. Médicos. Enfermeiros. Estranhos. Bom dia. Boa tarde. O costume. Até que passou uma mulher de quem não fiz muito caso. Na verdade, não a reconheci. Quando entrei no bar, e retirei os óculos de sol, ouvi alguém chamar-me com sotaque ucraniano: "Kátjia! Kátjia!" Era ela, a Natália, uma das minhas primeiras "colegas" de quarto nos Capuchos, companheira de viagem em muitos dos meus, nossos, internamentos. Ambas perdemos muita gente, entretanto.

Apesar da doença que temos não ser amiga dos afectos, ela abraçou-me com as forças todas que tinha e deu-me um beijo na cara. Vi-lhe no rosto o alívio. O alívio por me ter (re)encontrado. O alívio por nos termos cruzado uma vez mais. O alívio, que todos desejamos, quando nos perdemos nesta encruzilhada. Não a reconheci por causa da magreza. Em poucos meses, os tratamentos levaram-lhe muitos quilos. E ela não me reconheceu pelo contrário. Em poucos meses, os tratamentos acrescentaram-me alguns quilos. Está à espera de fazer o transplante de medula, mas continua como sempre a conheci: cheia de esperança, a que persiste, cheia de força, a que resta, cheia de vida, a possível. Aliás, se a Natália tivesse um cognome, seria sem dúvida, "Natália, a mulher dos possíveis". Desde que deixou o seu país, a vida não lhe foi fácil... mas ela fez-lhe sempre frente.

Chamo-a de "mulher dos possíveis" porque ela tem uma forma muito disciplinada de se adaptar às contrariedades. E porque sou muito solidária como as pessoas, como ela, que têm que se reinventar várias vezes, ao longo da vida. As recaídas são um golpe baixo que ninguém merece. São, como diz um amigo meu, nascido lá nos Capuchos, o que nos faz andar com o credo na boca. Oxalá estas coisas fossem mais fáceis. Tão mais fáceis. Querida Natália, não te quero perder o rastro, mas se o perder, que seja sempre para nos reencontrarmos, tal e qual, como ontem. A equacionar possíveis. 

#uma açoriana em lisboa

III

terça-feira, agosto 30, 2016

Para lerem o artigo com melhor resolução, podem aceder ao site do Açoriano Oriental, clicando aqui.

#vamos matar o bicho

Às-pessoas-que-não-sabem-lidar-com-o-cancro

sábado, agosto 27, 2016

São 6 meses, quase 7. Ainda hoje, ouço as pessoas-que-acham-que-sabem-lidar-com-o-cancro justificarem-me as atitudes menos felizes de outras com um "porque-as-pessoas-não-sabem-lidar-com-o-cancro". Desculpem-me lá, mas vão à merda, sim?! Ambas. As que acham que sabem e as que não sabem. O cancro é lixado. É. E ninguém sabe lidar com ele. Nem nós próprios que o trazemos dentro. Mas, ainda assim, e mesmo sem saber, a gente faz o que pode... Quem não sabe o que fazer, que não faça nada então. Que fique quieto. Como costuma habitualmente ficar perante as coisas que não sabe. 

Uma vez, alguém registou, publicamente, que o cancro não poderia servir para justificar o meu mau feitio (que vem de longe). De facto, não pode... Mas também não pode sublinhar o pior das pessoas... sem que não lhes seja levantada a impunidade diplomática. Às vezes, mas só às vezes, apetece-me mesmo, de verdade, e com sentimento, mandar à merda, em particular, as pessoas-que-não-sabem-lidar-com-o-cancro. Essas e mais umas quantas. Em especial as que não vão atrás do que querem, as que teimam em não ser felizes, as que não dizem o que é preciso quando é preciso e as que dizem o que não é preciso quando é desnecessário.

A vida é feita de coisas que não sabemos nem dominamos... Que piada é que isto teria se nós soubéssemos sempre como é que nos havíamos de comportar? Há papéis que nos são destinados, mesmo sem sermos actores de referência. Lembrem-se lá do vosso primeiro desgosto amoroso. Vocês sabiam, na altura, o que é que haviam de fazer para que ele passasse mais depressa e sem deixar grandes estragos? Não, pois não?! O meu durou meses. Muitos. Doeu-me com'ó catano. Passou quando tinha de passar. Não há atalhos. Não há caminhos fáceis. Não há truques... Se bem que uma amiga minha, muito iluminada, diz que recalcar é uma boa solução [não se preocupem, apesar de amiga, eu não acredito em tudo o que ela diz].

É por causa das pessoas-que-não-sabem-lidar-com-o-cancro que eu amo muito as pessoas que não sabem um milhão de coisas, mas que ainda assim fazem o que o coração lhes manda, mesmo que a coragem seja pouca. É por causa das pessoas-que-não-sabem-lidar-com-o-cancro que eu tenho de agradecer às que escolheram, voluntariamente, estar ao meu lado. É por causa das pessoas-que-não-sabem-lidar-com-o-cancro que as relações se quebram. Se partem. Se dissipam. É por causa das pessoas-que-não-sabem-lidar-com-o-cancro que nós, os que tem cancro, recebem uma visita, uma mensagem ou um telefonema no dia em que entram no hospital e nunca mais ouvem falar delas. Porquê? Porque elas não sabem. O cancro, a nós que temos cancro, leva-nos muita gente. É um processo natural da doença. Infeliz, evidentemente. Iliterário. Algumas vezes.

#vamos matar o bicho

Em sentido proibido

sexta-feira, agosto 26, 2016

Todos os internamentos são difíceis. Já perdi a conta ao número que colecciono. As pessoas, que felizmente, nunca tiveram de passar pelo mesmo, perguntam-me, com curiosidade, se os dias no hospital são (in)suportáveis. Eu digo-lhes que sim. Que são. Apesar de poder parecer mentira, o tempo passa a correr. Os dias são relativamente fáceis, apesar das circunstâncias. Difíceis mesmo são as noites.... quando ninguém nos vê.

Regressei ontem a "casa". Estive 3 dias no aquário. Foram bastante complicados. Primeiro porque desconfio, (e raramente me engano), que a minha disposição e paciência já não são as mesmas... O que é mais do que natural. Segundo, porque os "colegas" de quarto que me calharam desta vez estavam demasiado ocupados a pensar na morte. É por coisas destas que nem sempre me apetece falar com pessoas. Nós nunca sabemos o que é que pode sair da boca delas... Um deles disse ao médico que se a "coisa" não tivesse solução, que lhe trouxessem os comprimidos para o matar. O outro não queria morrer antes de ter os pormenores do funeral todos acertados.

Irritaram-me até ao tutano. E olhem que desde que me vi obrigada a fazer biópsias à medula óssea, a expressão "irritaram-me até ao tutano" ganhou todo um novo significado. As pessoas têm direito a querer morrer. Tenho uma amiga que infelizmente já se tentou suicidar várias vezes, a última delas aconteceu há poucos meses atrás. Senti pena como senti de todas as outras vezes. Mas mais do que sentir pena, senti-me desrespeitada. Existem as estatísticas, que por norma, são madrastas. Existem os contratempos e os imprevistos que tornam o que já é complicado ainda mais complicado... Mas caramba, falarem-me de morte, a mim, parece-me uma enorme falta de respeito. Uma falta de respeito extensível àqueles, que como eu, passam horrores para ter uma vida razoavelmente saudável. Aos que cuidem de nós. Aos que carregam as nossas dores. Aos que tremem com a possibilidade de nos perder.

Quando eu descobri que tinha cancro, pareceu-me muito evidente que não valia a pena fazer planos. O que não vale a pena, é viver a vida, sem tentar concretizá-los. Nós, sem objectivos, não somos nada... e nesta altura do campeonato, ter como objectivo morrer ,parece-me (bastante) descabido. Nós não podemos viver à espera da morte... Já pensaram no insensato que isso seria?

Há muitas formas das pessoas lidarem com as rasteiras que a vida lhes prega. Não pude, e não quis, esforçar-me para que os meus colegas de quarto pensassem de forma diferente. Nesta altura do campeonato, o egoísmo também é uma defesa... ainda que não o compreendam nem o aceitem. Desconfio, (e raramente me engano), que os meus colegas de quarto falaram muito na morte só e porque não querem ter medo dela. Para lhe dar espaço. Possibilidade. Para se sentirem fortes... e ancorados no meio dos destroços em que a vida se dividiu. Eu tenho medo, como toda a gente tem. E se calhar é por causa do meu medo que não suporto ouvir os outros falarem do deles. Ainda assim, digo-vos o que disse uma vez à minha psicóloga: a morte, seria sempre, a saída mais fácil.

#vamos matar o bicho

Anda comigo ver os aviões

quarta-feira, agosto 24, 2016

Ela diz que nunca se há-de esquecer de mim. Eu acredito que é verdadeira a promessa que reitera, principalmente porque lhe tentei partir, involuntariamente, os dedos de uma mão. Partilhamos a idade, o signo, parte do nome, parte da origem e parte dos dias quando estou no hospital. Ela traz no olhar a profundidade e o mistério que só os ilhéus carregam. Não é açoriana, mas é como se fosse. 

No primeiro dia em que entrei nos Capuchos, foi ela, a enfermeira, que me deu a mão quando me fizeram a primeira biópsia à medula, (daí eu ter dito que quase lhe parti os dedos de tanto que a apertei). O turno dela já tinha acabado, e o seu JP, mais-que-tudo, esperava-a no colégio. Nunca me perdoarei por ter roubado 15 minutos de mãe ao JP só para ter mais 15 minutos de enfermeira ao meu lado... Ainda assim, tenho a certeza que um dia, quando o JP for mais crescido, ele irá, com certeza, descobrir todas as coisas fantásticas que a mãe dele conseguiu fazer só com uma mão. 

Para além das paixões que ela alimenta, e que são muitas, aproveita o pouco tempo que imagino que tenha para levar o filho a ver aviões. Há coisas mais interessantes para se fazer com crianças? Há, mas é uma coisa só dela. Só deles. Ele vibra com os grandes pássaros do ar. E mostra-me, orgulhosa, as fotos que lhe tira, quando ele, (ainda) sem saber, acha que os consegue apanhar. Ri-se porque eu tenho dois nomes próprios, melodicamente muito mal combinados, mas dá a mão à palmatória por ter feito o mesmo ao filho, ligeiramente, com mais bom gosto. Eu não me chateio. Não é coisa para isso. Muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa. 

Quando apareço nas consultas, de semana a semana, no hospital, há sempre beijinhos e abraços, e comentários paralelos de quem está de fora e não entende porque é que os há, "os doentes aqui não são todos tratados da mesma forma". É verdade. Os enfermeiros deviam limitar-se a darem-nos injecções, tirarem-nos sangue, e pouco mais que isso. Porque é que eles haviam de atrasar a rotina do dia-a-dia, e as suas vidas pessoais, só para nos darem um pouco mais de si próprios? Porquê? 

É por estas, e por outras, e por pessoas como a mãe do JP que continuo a dizer o que já disse antes: não me sinto um número. Tinha medo de me sentir, mas graças aos profissionais que cuidam de mim, não tive de passar por isso, para além de todas as coisas pelas quais já tive que passar, mesmo sem querer. Apesar de tudo, de todo o carinho inesgotável que esta gente vai buscar não sei onde, desejo muito uma coisa: poder dizer-lhes adeus, em breve. É provável que o JP esteja do lado de lado da vedação, ao colo da mãe, a tentar apanhar-me quando eu entrar no pássaro gigante que ele tanto admira, e que se tudo der certo, rasgará as nuvens do céu que polvilham o atlântico para me devolver a casa... Olha que eu te fujo miúdo, olha que eu te fujo... Ainda não sabes a mãe que tens, ainda não sabes, mas estás bem entregue, como estão todos aqueles que lhe passam pelas mãos. Doces. Fortes. Presentes.

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Dá aquela saudadezinha, dá...

domingo, agosto 21, 2016

De poder olhar para os pés, enquanto a bóia abdominal que se formou desde que comecei os tratamentos ainda não os tapa, e ver as unhas pintadas. De poder olhar para as das mãos e vê-las, da mesma forma, coloridas. De uma cor que traga à memória, nada mais, nada menos, que os infinitos dias de Verão. De usar soutiens que não pareçam coletes de força sem recorrer a um, dois, três extensores (como faziam muitas das minhas clientes, antigamente). De conseguir fazer entrar nos dedos anéis antigos. E de contar o tempo pelos mesmos relógios de sempre. Dá saudade de passar a máscara de pestanas nas pestanas que costumavam existir. De vestir um fato de banho e atirar-me ao mar. Um fato de banho a sério. Compostinho. Como manda a tradição... Daqueles que não se reduzem a fitas de tecido abraçadas à gordura abdominal.

Dá aquela saudadezinha de poder vestir quase tudo, sem estar em esforço, agoniante. De poder, ao espelho, ajeitar o que resta de uma sobrancelha torta. Dá saudade, de por momentos, fazer um pouco de tudo aquilo que se fazia antes. Sem dores. Sem afrontamentos. Sem indisposições. Sem rejeições. Também dá vontade de comer o que se comia. Uma maçã, rija, à dentada. Verde. Sumarenta. Ou uns morangos. Melão. Melancia. Até ficar com a barriga inchada de tanto comer. Dá vontade de chegar a casa, ao fim do dia, e abrir aquela garrafa de Lambrusco borbulhenta. Dá vontade de esquecer que tenho os comprimidos para tomar e que os valores baixos dos glóbulos brancos não me permitem aventuras gastronómicas para além dos cozidos. Aiiii, sushi, meu querido sushi, um dia voltaremos a encontrar-nos. A ti, às lambujinhas, às conquilhas, ao camarão, aos percebes e aos canivetes. Todos regados com um bom caneco.

Dá vontade de dizer ao vizinho do lado, aquele que não tem metade dos nossos problemas, mas que se queixa de tudo, que viva. Que coma o que eu não posso comer e que vá aonde eu não posso ir. E que se não for pedir muito, dê um jeitinho nas unhas dos pés. Bate uma saudadezinha, lá no fundo, das viagens sem destino. Das fugidas de Lisboa a Sesimbra só para comer uns chocos fritos e ficar na praia, a esquecer-nos da vida, até ser noite. Dos gelados na baía de Cascais. Das tardes de Domingo, ao sol, no Adamastor. De tudo o que Lisboa, tinha de bom, para além da luta diária para pagar contas. Bate uma saudadezinha. Como bate dos meus Açores. E da minha vida, antes de viver com o medo de saber se vou ou não ser capaz de subir um lance de escadas. Ou se vou ser capaz de tomar um duche sem ficar extremamente cansada. Ou se salto para dentro do carro, e tenho forças para ir até onde me apetece ir, sem ter de parar duas ou três vezes para respirar fundo. Bate uma saudade enorme. Bate.

Mas à saudade, (e eu sempre me disse pouco saudosista), sobrepõem-se a fé. A crença inabalável de que a minha bóia abdominal não me vai ultrapassar os pés. De que os anéis, antigos, hão-de voltar a entrar-me nos dedos. E de que ao espelho, vou ver o que sempre vi: aquilo que sou, independentemente dos amassos de alma pelos quais tenho passado nos últimos tempos. 

#vamos matar o bicho

Questões cabeludas

sábado, agosto 20, 2016


Há uns meses atrás, quando divulguei esta entrevista que fiz à minha colega e amiga Helena Fagundes, houve um anónimo, corajoso, que decidiu comentar, não só o meu trabalho, mas também o meu penteado. Numa coisa temos todos de concordar, se actualmente eu estivesse a trabalhar, o problema do cabelo não se colocaria de todo... Mas ficaria satisfeito, ou satisfeita, esse anónimo ou anónima, com a minha reluzente careca? De facto, quem se apresenta em televisão, deve ter algum cuidado com a sua imagem, e eu prometo, oficialmente, perante vós, pentear-me de jeito, se me nascer cabelo de jeito. Feliz e contente, anónimo/a?

Expormo-nos, dando a cara, o nome, o corpo, e a alma, leva-nos sempre a estes riscos... que na verdade, muito pouco me afectam. Na altura da entrevista eu não tinha um cancro. Agora tenho. Acho que tenho assuntos mais relevantes com os quais me preocupar. Em todo o caso, recuperei este tema porque achei importante, demonstrar, a esse anónimo ou anónima, a rapidez com que um mau penteado deixa de ter importância. Deixou de ter no dia em que tive de raspar o cabelo todo, mas já tinha deixado de ter antes disso. E lamento informá-lo, ou informá-la, novamente: a entrevista não foi banalizada. Muito menos por causa do mau penteado que eu tinha.

Sempre me ensinaram que quando nós trabalhamos naquilo que gostamos pagamos um preço por isso. E eu já vos disse, várias vezes, que o jornalismo não tem nada de glamouroso. Acabamos o dia a cheirar mal dos sovacos, fedorentos, com os olhos esborratados de rímel, e para mal dos meus pecados, mal penteados. Sorte daqueles que conseguem, e tão bem, apresentar-se, impecáveis, com risca ao meio, dividida ao milímetro. Eu sou, e sempre fui, muito pouco disciplinada nesse sentido, mas nunca falhei com quem achei que não devia falhar: em primeiro lugar, com os meus convidados, e em segundo, com os meus telespectadores. A entrega com que trabalho, e que me parece evidente, vale muito mais do que dois ou três cabelos descontrolados que não são tidos nem achados para o que de verdade importa. Sr.º anónimo, ou Sr.ª anónima, conseguiu reter alguma coisa da entrevista, para além da aparência dos seus, neste caso suas, intervenientes? Se não conseguiu, lamento informar-lhe que este formato televisivo provavelmente não é o mais indicado para si. 

Apetece-me ainda dizer, e em plural, que fazemos aquilo que podemos com aquilo que temos, e raramente esse esforço é reconhecido. Noutras casas, bem mais conhecidas, por onde eu também já andei, faz-se o mesmo, a única diferença é que se mascara melhor o que é feio de bonito, mas é mesmo só isso. Duvido muito que esse Sr.º anónimo, ou Sr.ª anónima, seja um fiel seguidor do meu blogue, tal como vocês são, mas se for, aviso-o desde de já que os corticóides com que levo nas trombas há seis meses deixaram-me bastante insuflada, não vá você achar que eu não caibo no ecrã da televisão da próxima vez que me vir. E para terminar, só mais uma coisinha, se aprecia formatos televisivos com caras melhores do que a minha, eu tenho dois ou três nomes que lhe posso recomendar sem hesitar. Para mim, bastam-me aqueles que apreciam uma boa conversa, conduzida por quem sabe, efectivamente, conversar. Já agora, não quer aproveitar a oportunidade de se redimir, e deixar o contacto de um cabeleireiro de sua confiança? Não me servirá de muito, mas acredite, dirá mais sobre si do que mim.

A todos os cabelos desgrenhados deste mundo, e a todas as apresentadoras que aparecem de pijama na televisão, só porque lhes apetece, tamo junto.

#vamos matar o bicho

Luz, (a), própria

sexta-feira, agosto 19, 2016

Há pessoas que nasceram com a sorte de ter como nome próprio o seu melhor cartão de visita. Luz. Nunca me hei-de esquecer. Nem do nome. Nem da mulher. Tenho, temos todos, vivido dias de perdas terríveis... às quais nunca me hei-de habituar. Na verdade, nós, humanos, não fomos construídos, a priori, para nos habituarmos à perda daqueles que de certa forma, amámos. Custa-me muito aceitar a morte de pessoas que partilharam comigo um pedaço das suas vidas. Particularmente aquelas cujo pedaço foi pautado por acordes difíceis. Há-de me custar sempre.

Conhecemo-nos na casa de banho, antes de adivinharmos vir a ser colegas de quarto. Por mais que a gente se isole, puxe os cortinados ao redor da cama, e se queira enfiar dentro do quadrado de pano que nos toca, há sempre um motivo maior para olharmos para o lado e rompermos o silêncio. Eu não sei bem o que é que nos faz falar... Acreditem, eu não me esforço muito, até o evito bastante, mas quem esteve ao meu lado, até hoje, sempre soube descortinar-me. E eu estar-lhes-ei eternamente grata por esse trabalho ingrato.

Os médicos temem as comparações, as fugas de informação, as (in)confidências... mas no meio do deserto que atravessamos, às vezes, só às vezes, sabe bem depositar no outro, aquele que dorme ao nosso lado, na cama do hospital, os medos do dia, e das noites. A Luz foi a primeira pessoa que apesar de estar doente como eu estou, nunca falou comigo como se eu estivesse doente e isso é a melhor coisa que um "colega" nos pode dar. Olhar para nós, pessoa e não cancro. É por isso, e não só, que a guardo no peito com um carinho especial. 

Entre as muitas coisas sobre as quais falámos, também me disse "vamos para casa Cátia, há gente à nossa espera". Como me é difícil, imaginar, uma casa sem ela. Sempre que vou ao hospital fazer análises, tenho a mania de ir visitar os colegas que conheço e que lá estão internados, mas há semanas que não consigo enfiar lá os pés. Não aguento que me roubem mais alguém. Não aguento. E por isso não quero apegar-me. E assim levamos a vida como nos dizem para a levar: chorando, e esquecendo. Embora seja muito difícil esquecer. 

Não sei se disse à Luz alguma coisa que ela tenha levado consigo. Espero que sim. De qualquer das formas, deixo-a neste texto, mais dela do que meu. Escrever sobre alguém acho que é das coisas mais bonitas que se pode fazer. Quanto a vocês, não me morram por favor. Eu não ia aguentar. 

#vamos matar o bicho

Medalha de Bronze

quinta-feira, agosto 18, 2016

Estou cansada. De tudo aquilo que vocês possam imaginar. E do que não imaginem, também. Estou cansada. De mim. Dos dias. Das frases feitas. Até da minha escrita, repetitiva. Estou, verdadeiramente, cansada. Das pessoas. Das que aparecem. Das que não aparecem. Das que desaparecem. Das que fazem perguntas. Das que não perguntam nada. Estou cansada do mundo que carrego nos ombros. É pesado. Estou cansada que me peçam para ser isto ou aquilo, quando eu até acho que estou a ser o que deveria ser. Suficiente. Não excepcional.

Estou cansada deste cancro. Muito cansada mesmo. Dos maus-tratos que ele me têm dado. Da dor que ele me tem causado. E estou cansada que não percebam que estou cansada. Que me exijam cara bonita a uma coisa que é terrivelmente feia. Estou cansada que me digam coisas que não (me) servem p'ra nada. Estou cansada que me perguntem se estou cansada. Estou. Como já disse, muito. E não encontro outra maneira p'ra estar.

É um cancro, não são umas olimpíadas. Não estou a fazer isto por uma medalha. Acho até que falhei as provas de qualificação, mas mesmo assim... fui repescada. E apesar da(s) falsa(s) partida(s), neste campeonato, somos mesmo obrigados a correr. Contra o tempo. Contra as previsões. Contra os imprevistos. Contra os dias maus. Contra a inquietude. Contra o desespero. Contra aquilo que é maior que nós. Avassaladoramente maior. Nunca escondi que a partir de metade, isto tinha ficado, severamente, mais complicado. Não que o diagnóstico se tenha agravado, graças a Deus, não, mas porque o caminho de meio p'ra cá, parece-me, penosamente, mais difícil. Íngreme como nunca foi até então. E porque a força, tal como outra coisa qualquer, também se esgota.

Acho que a dada altura do processo começamos a enlouquecer, saudavelmente, um pouco. Há peças que não consigo ligar e momentos, há 6 meses atrás, dos quais não me consigo recordar. E ainda bem que nos tornamos facilmente permeáveis à loucura... uma vez que rígidos seríamos, com certeza, mais fáceis de quebrar. Estou cansada. Doridamente cansada. Amanhã, termina, oficialmente, o 7º ciclo de quimioterapia. Deixou-me de rastos. Física e emocionalmente. Ainda não me recompus na totalidade. Não sei se algum dia me recomporei... Estou cansada, mas deixem-me, por favor, estar cansada. Estar cansada, neste momento, é uma vitória. 

#uma açoriana em lisboa

II

terça-feira, agosto 16, 2016


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#vamos matar o bicho

Bordado Inglês

quarta-feira, agosto 10, 2016

Nós, os doentes oncológicos, passamos muito tempo a olhar para o tecto, especialmente quando temos exames complicados e demorados para realizar. Há um, em particular o que me custa mais, em que nos põem a olhar para o chão porque é feito de rabo no ar, ou para ser politicamente correcta, de barriga para baixo. Mas é só esse. De resto, passamos a vida hospitalar a olhar, bastante, para os tectos das salas de técnicas. Não é agradável. As salas são frias, cheias de aparelhómetros assustadores e despidas de qualquer afecto humano. Deitam-nos numa maca, na maioria das vezes desconfortável, despem-nos da cintura p'ra cima e exercem sobre nós aquilo a que se chamam convencionalmente de medicina. A medicina dá jeito, especialmente quando queremos viver largos e bons anos... mas é uma senhora irredutível, difícil de aturar quando nos sentimos pequenos, desnorteados e acima de tudo, doridos. Por fora, e por dentro.

Ontem começámos o sétimo ciclo de tratamentos. Anteontem colocámos o cateter. Por mais vezes que me deitem naquela maca, eu nunca me hei-de habituar. Nunca. As minhas veias são tão teimosas como quem as carrega, e por causa disso, estive perto de duas horas em padecimento. Começámos com o pé esquerdo, pensei eu. Não, afinal, parece que começámos mesmo foi com a veia errada. Ao fim de 15 minutos de recuperação, a enfermeira veio informar-me que o cateter ia ser recolocado porque não tinha ficado no sítio. Desarmaram-me. Desarmei-me. Desarmei-me completamente. Desarmei-me porque isto não é novidade, mas lá por não ser novidade não significa que não doa cada vez que acontece. 

Sentaram-me na cadeira de rodas, sem perder tempo, e levaram-me para a Neuro-Radiologia. Antes disso a médica que me segue nos Capuchos pediu-me paciência. A única coisa que podia, efectivamente, pedir. E quando saí do Hospital de Dia a caminho de mais uma sala do terror, lá estava ela. A paciência, na pessoa do meu amigo Joaquim, que aguenta estas merdas há 16 meses. Ia lavada em lágrimas. Olhámos um para o outro e apertámos mãos. Não consegui dizer mais nada. Não conseguia que saísse de mim mais nada que não fosse, apenas e tão só, lágrimas. Muitas lágrimas. Voltaram-me a despir, voltaram-me a deitar, voltaram-me a descoser o que tinham cosido há 15 minutos atrás, tudo muito mecânico, equilibrado ao ritmo da regras, a sangue frio, naturalmente. 

Nesses momentos em que estamos sozinhos, deitados numa maca desconfortável, numa sala fria, perdidos nos confins de um hospital qualquer, sentimo-nos bastante tentados a desafiar a serenidade de que tanto precisamos... especialmente nessas alturas. Outra vez? Não, não pode estar a acontecer? Porquê? Porquê a mim? Será que nunca dá para ser à primeira? E se desta vez também não der? Foda-se pah. Isto é uma porcaria.

Uma porcaria amarga. Desconcertante. Suficientemente irónica para nos acharmos os piores pecadores do mundo para merecer tal sofrimento. E lá estava eu, lavada em lágrimas, deitada, enquanto me tentavam recolocar o cateter na veia certa. Senti falta de uma mão. Talvez uma mão como a do meu amigo Quim. Uma mão não ajuda em nada, não torna o procedimento mais rápido, nem menos doloroso. Uma mão só nos mantêm presos ao que é importante pr'a lá de todas as incertezas: a vida. Regressei a casa desolada, depois de ter podido encher o peito de ar quando me disseram na semana anterior que os meus glóbulos brancos tinham subido sozinhos (seus malandros, é bom que se emancipem, ouviram?). O cancro ensina-nos tanto, principalmente que isto é, sem margem para dúvidas, um dia de cada vez, um minuto de cada vez.

Vou acabar isto a parecer um bordado inglês de tanto que coseram e descoseram, picaram e furaram. E em vez de cheia de penas, é mais provável que seja mesmo seja de lágrimas. Foi um dia difícil a juntar a uns poucos que eu colecciono. Mas já passou. Venha a medicina, tal e qual como ela é. Venha a paciência. E venha daí essa mão que tanta falta nos faz.

#fora de casa

Fera Ferida

terça-feira, agosto 09, 2016








Já fui fera... agora estou mesmo só "ferida".
P.s - ando a sair-me muito bem com os turbantes, não acham?

#vamos matar o bicho

Contrariedades

domingo, agosto 07, 2016

Eu gosto muito da minha psicóloga, já "trabalhamos" juntas há muito tempo, muito antes do cancro aparecer, mas a verdade é que nem todas as consultas correm como nós desejaríamos que corressem. Na última sessão, como em todas as sessões, ela perguntou-me como é que eu estava. "Tranquila". Respondi. E ela, provocatória como de costume, disse: "não precisa de disfarçar"

Grande v#c@. Registei, internamente. E, de mansinho, apeteceu-me sacar de um stick de hóquei em patins e começar a bater-lhe. À força toda. É claro, que ninguém, em seu perfeito juízo, com cancro, está tranquilo. Mas, naquele dia, eu estava um bocadinho. Sentia-me, sinceramente, tranquila. E esses pequenos bocadinhos são tão raros, mas tão raros, tão raros, que aquele que os ousa destruir arrisca-se a perder-nos para sempre.

Depois da consulta, senti-me invadida por um sentimento de desmotivação brutal. Eu nunca escondi que tenho medo do cancro. Toda a gente tem. Quem é diagnosticado e quem não é. Mas faz parte de nós, seres humanos, encararmos as batalhas da nossa vida como se fossemos tão robustos quanto elas exigem. Tenho tanto medo agora como tive no inicio. Ou para ser completamente honesta, tenho mais agora do que tive no inicio. Mas a dada altura do processo, o cansaço começa a jogar a nosso favor. Venha o que vier, já esperamos tudo. Em particular, a parte de não ter que esperar mais nada.

A relação entre um psicólogo e um paciente, para correr bem, não pode envolver disfarces. Mesmo que envolva, eles serão sempre desmantelados. Quem vai ao psicólogo, vai para se "despir". Para pôr-se a nu. Vai sobretudo para lidar com a alma que lhe é própria, no seu estado mais puro. Não vou deixar de visitar a Dra. Susana. Gosto muito do trabalho dela. Gosto muito dela. Mas também gostava muito que me tivesse deixado gozar aqueles 5 segundos de convicção que eu recusei abandonar, peremptoriamente. Nunca me souberam tão bem.

Eu defendo muito o apoio psicológico e falo abertamente dele para que não se alimentem tabus, nem se engordem preconceitos acerca do mesmo, mas nós não somos obrigados a concordar com tudo o que se diz entre quatro paredes. Ela não me viu tranquila. Mas eu senti-me. E mesmo que às vezes seja difícil o oxigénio chegar lá aonde devia chegar, e fazer o que devia fazer, eu prefiro acreditar que o meu coração não me enganou.

#vamos matar o bicho

Então, como é que é viver numa ilha?

sexta-feira, agosto 05, 2016


Perguntou-me, curiosa, a colega da cama ao lado. Como é que vocês acham que é a vida numa ilha? Eu respondo: é entediante, julgavam o quê? Mas também vos garanto que esse pedaço de terra, rodeado de mar, é o único lugar onde um ilhéu se sente em paz. Totalmente em paz.

Os dias de nevoeiro são difíceis. Os açorianos acordam muitas vezes ao toque de manhãs foscas. As nuvens que descem à terra, e que em muitos dias nos exilam do mundo, sem deixar entrar ou sair avião, são uma das formas que a vida escolhe para nos impor, com rigor, as contrariedades de que é feita. Os Invernos são dolorosos porque não permitem aos açorianos irem buscar forças de onde elas vêm. Da incrível e majestosa natureza. Nos Invernos, escondemo-nos em casa. E rezamos, várias vezes, para que os ciclones e tempestades que se apaixonam por nós, (com bastante frequência), nos passem ao lado.

Mas o que há de mais fantástico em viver numa ilha, é a possibilidade de assistir, dia após dia, à capacidade de regeneração natural das coisas. Depois dos Invernos, dos nevoeiros, das tempestades, das chuvas e dos ventos, chega a calmia. A calmia de um dia simples. De repente, o sol desponta, a terra parece (ainda) mais verde e o mar mais azul. E a gente que se escondia dentro de casa, (re)começa a sair p'ra rua. Mais cheia de vida. Inegavelmente, mais cheia de esperança.

Ninguém saberá amar os Açores como só aqueles que de lá partem. E os muitos que lá ficam. As ilhas são um feitiço... Exigem, à força, que sejamos resilientes e lá de quando em vez, oferecem-nos a oportunidade de assistirmos a pequenos milagres. Somos uns pobres privilegiados. E apesar de nos circunscreverem a um pedaço de terra, rodeado de mar, eu gosto de pensar que ainda há muito por onde ir. Estaremos, para sempre, presos à nossa insularidade, é verdade, mas também usufruímos de uma forma muito própria de liberdade.

Aquelas estórias que vos contam das vaquinhas pretas e brancas nos cerrados, dos lavradores, imponentes, nas suas 4x4, das cachoeiras e das piscinas naturais, das praias de lava negra, dos vulcões adormecidos, das princesas que derramaram lágrimas até fazerem lagoas... é tudo verdade, mas ainda é pouco. Eu costumo dizer que ninguém deveria morrer sem antes ir aos Açores. Hoje, as circunstâncias da vida, obrigam-me a reformular esta frase. Ninguém deveria morrer depois de lá ir. Eu espero D.ª Ana que o céu seja tão magnífico quanto aquilo que viu. Que seja doce como são os meus Açores. Até sempre.

#vamos matar o bicho

O sustento do vício

quinta-feira, agosto 04, 2016

Eu não assisti a esta estória, mas quem lá estava, contou-ma. São estórias que eu não gosto de ouvir, mas que sinto que devo "denunciar". Há uns dias atrás, na entrada da enfermaria onde eu costumo passar muito tempo, estava um jovem doente. As visitas iam e vinham. Não chegava ninguém p'ra ele. Ao fim de algum tempo dirigiu-se a um homem de meia idade que ia a passar e pediu-lhe uma moeda para tomar um café. O homem respondeu-lhe: eu não ando a trabalhar para sustentar vícios. Deu meia volta e virou-lhe costas. O jovem doente ainda tentou justificar-se. Disse que estava ali sozinho. Que era das ilhas (não sei se é verdade ou não). Que não tinha ninguém e que só queria mesmo uma moeda p'ra café. Tarde demais. O senhor que não anda a trabalhar para sustentar vícios já não o ouviu. 

Ora apraz-me informar quem não sabe, que de facto, os hospitais são antros cheios de vícios. Nós vamos lá e estamos lá única e exclusivamente para nos administrarem drogas. Drogas, que à partida, querem-se que destruam células, más, e não pessoas. Ainda assim não deixam de ser drogas. E nós não deixamos de ser uns drogados. Valentes. Conscientes. Mas drogados. Infelizmente, os vícios não se ficam por aí... Era bom que ficassem, mas não ficam.

Há um vício muito comum de verificar a temperatura de meia em meia hora, sem que os enfermeiros nos peçam, primeiro numa axila e depois na outra. Há o vício de vigiar, exaustivamente, como se fossemos uma torre de controle aeronáutica, o conta-gotas do soro, da quimio e dos demais antibióticos que nos são postos a correr nas veias. Há o vício de examinar pernas, pés, braços, barriga e afins à cata de petéquias, (não, não são um tipo de pókemons). São nódoas negras muito comuns às leucemias. Há ainda o vício de rezar um Pai-Nosso bem corridinho, ajoelhados à frente da sanita, todas as vezes que chega a hora de expurgar o veneno que circula dentro do nosso corpo. Esta imagem pode parecer-vos bastante cómica, mas ninguém imagina o que dói deitar cá p'ra fora a porcaria que entra lá p'ra dentro. Há ainda o vício de nos comportarmos como se não tivéssemos medo. E há o vício de engolir lágrimas e soluços. Uma coisa muito típica de quem está sob o efeito de drogas. 

Um euro dá pelo menos dois cafés na máquina automática do hospital. Se calhar ainda ninguém explicou a esse senhor que não anda a trabalhar para sustentar vícios que ele está um bocadinho equivocado. Se calhar ainda ninguém lhe explicou, que em Portugal, todos nós trabalhamos para sustentar vícios, em particular, aqueles de quem nos governa, mas vocês sabem que eu não gosto de política e que não vou ceder à tentação de ir por aí. Eu só desejo, sinceramente, e de coração, que esse homem, de meia idade, que acredita que o seu trabalho não sustenta vícios alheios, nunca venha a ter os mesmos que as pessoas dos hospitais têm. 

#vamos matar o bicho

Aos resgates em tempo útil

terça-feira, agosto 02, 2016

Ela sentou-se ao lado da minha cama como sempre fez em quase todas as visitas. Contou-me que tinha trocado de trabalho e que nesse novo trabalho tinha conhecido alguém que conhecia (outro) alguém da Terceira. E para me explicar quem era, reproduziu a conversa que tinha tido. Lá pelo meio disse que tinha dito, "olha que engraçado, a minha melhor amiga também é da Terceira".  

Ela não se apercebeu do embate que essa frase teve contra o meu peito. Há muitos anos que me deixei de qualificar amizades e se calhar, por causa disso, não estava à espera de (ainda) ser a melhor amiga de alguém. Tivemos uma estória banal. Vivemos juntas, chateámo-nos e separámo-nos, até ela me (re)aparecer no quarto do hospital. 

Quando nos chateámos, eu precisava de ajuda, mas não soube como pedi-la. Achei que depois de tantos anos a dividir casa, tinha chegado o momento de ganhar asas. Consegui alugar uma casa só p'ra mim (e antes dos 30)! Isso devia ter-me deixado feliz, mas infelizmente, não deixou. O problema não era a casa, nem com quem a dividia... o problema era eu. Morava em mim.

Sempre que eu pensava na minha vida p'ra trás, pensava nela. Em como ainda gostava de a ter na minha vida. Mas nunca lhe disse isso. Aliás, nunca fui muito boa a dizer coisas, saio-me bastante melhor a escrevê-las. Eu preferia que o nosso reencontro não tivesse sido num quarto de hospital, mas apesar disso, foi um reencontro bom. Não foi daqueles forçados, artificiais, convenientes por causa da boa educação. Foi um reencontro exclusivamente em nome da amizade... tão natural como antes.

Suspirei de alívio nesse dia. O que eu tinha medo de recuperar, tinha vindo, naturalmente, até mim. Pode-se ser mais sortuda do que isso? Eu penso que não. Agora confesso-vos, na última visita, ela apanhou-me desprevenida. Ser a melhor amiga de alguém é uma responsabilidade muito grande... da qual eu não sei se serei digna. O cancro é uma porcaria. Uma grande porcaria. Mas tem destas coisas boas. Verdadeiramente boas.

#uma açoriana em lisboa

I

segunda-feira, agosto 01, 2016


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