A mulher dos possíveis

quarta-feira, agosto 31, 2016

Ir para o hospital não me faz (muita) confusão. Mexe comigo. Claro que mexe. Mas uma pessoa habitua-se à ideia. À força. Ir ao hospital sim, faz. Muita. Tenho receio dos murros nos estômago, inesperados, que possam surgir. Depois de vos ter escrito isto, fiquei com alguma aversão, momentânea, aos Capuchos. Não queria pôr lá os pés. E se tivesse que pôr, preferia fazê-lo como as crianças fazem: de ouvidos tapados (como se isso prevenisse golpes). Depois, aos poucos, fui-me encorajando de novo, primeiro, porque não existem outras opções. E segundo, porque quando os amigos, que nascem lá, precisam, a gente aparece. Mesmo sem gostar muito. 

Ontem fui fazer análises de rotina. E a seguir fui à consulta médica. E entre uma coisa e outra, pus-me a descansar à sombra de uma árvore, ao pé do bar lá do hospital. Passaram várias pessoas por mim. Médicos. Enfermeiros. Estranhos. Bom dia. Boa tarde. O costume. Até que passou uma mulher de quem não fiz muito caso. Na verdade, não a reconheci. Quando entrei no bar, e retirei os óculos de sol, ouvi alguém chamar-me com sotaque ucraniano: "Kátjia! Kátjia!" Era ela, a Natália, uma das minhas primeiras "colegas" de quarto nos Capuchos, companheira de viagem em muitos dos meus, nossos, internamentos. Ambas perdemos muita gente, entretanto.

Apesar da doença que temos não ser amiga dos afectos, ela abraçou-me com as forças todas que tinha e deu-me um beijo na cara. Vi-lhe no rosto o alívio. O alívio por me ter (re)encontrado. O alívio por nos termos cruzado uma vez mais. O alívio, que todos desejamos, quando nos perdemos nesta encruzilhada. Não a reconheci por causa da magreza. Em poucos meses, os tratamentos levaram-lhe muitos quilos. E ela não me reconheceu pelo contrário. Em poucos meses, os tratamentos acrescentaram-me alguns quilos. Está à espera de fazer o transplante de medula, mas continua como sempre a conheci: cheia de esperança, a que persiste, cheia de força, a que resta, cheia de vida, a possível. Aliás, se a Natália tivesse um cognome, seria sem dúvida, "Natália, a mulher dos possíveis". Desde que deixou o seu país, a vida não lhe foi fácil... mas ela fez-lhe sempre frente.

Chamo-a de "mulher dos possíveis" porque ela tem uma forma muito disciplinada de se adaptar às contrariedades. E porque sou muito solidária como as pessoas, como ela, que têm que se reinventar várias vezes, ao longo da vida. As recaídas são um golpe baixo que ninguém merece. São, como diz um amigo meu, nascido lá nos Capuchos, o que nos faz andar com o credo na boca. Oxalá estas coisas fossem mais fáceis. Tão mais fáceis. Querida Natália, não te quero perder o rastro, mas se o perder, que seja sempre para nos reencontrarmos, tal e qual, como ontem. A equacionar possíveis. 

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