Anda comigo ver os aviões

quarta-feira, agosto 24, 2016

Ela diz que nunca se há-de esquecer de mim. Eu acredito que é verdadeira a promessa que reitera, principalmente porque lhe tentei partir, involuntariamente, os dedos de uma mão. Partilhamos a idade, o signo, parte do nome, parte da origem e parte dos dias quando estou no hospital. Ela traz no olhar a profundidade e o mistério que só os ilhéus carregam. Não é açoriana, mas é como se fosse. 

No primeiro dia em que entrei nos Capuchos, foi ela, a enfermeira, que me deu a mão quando me fizeram a primeira biópsia à medula, (daí eu ter dito que quase lhe parti os dedos de tanto que a apertei). O turno dela já tinha acabado, e o seu JP, mais-que-tudo, esperava-a no colégio. Nunca me perdoarei por ter roubado 15 minutos de mãe ao JP só para ter mais 15 minutos de enfermeira ao meu lado... Ainda assim, tenho a certeza que um dia, quando o JP for mais crescido, ele irá, com certeza, descobrir todas as coisas fantásticas que a mãe dele conseguiu fazer só com uma mão. 

Para além das paixões que ela alimenta, e que são muitas, aproveita o pouco tempo que imagino que tenha para levar o filho a ver aviões. Há coisas mais interessantes para se fazer com crianças? Há, mas é uma coisa só dela. Só deles. Ele vibra com os grandes pássaros do ar. E mostra-me, orgulhosa, as fotos que lhe tira, quando ele, (ainda) sem saber, acha que os consegue apanhar. Ri-se porque eu tenho dois nomes próprios, melodicamente muito mal combinados, mas dá a mão à palmatória por ter feito o mesmo ao filho, ligeiramente, com mais bom gosto. Eu não me chateio. Não é coisa para isso. Muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa. 

Quando apareço nas consultas, de semana a semana, no hospital, há sempre beijinhos e abraços, e comentários paralelos de quem está de fora e não entende porque é que os há, "os doentes aqui não são todos tratados da mesma forma". É verdade. Os enfermeiros deviam limitar-se a darem-nos injecções, tirarem-nos sangue, e pouco mais que isso. Porque é que eles haviam de atrasar a rotina do dia-a-dia, e as suas vidas pessoais, só para nos darem um pouco mais de si próprios? Porquê? 

É por estas, e por outras, e por pessoas como a mãe do JP que continuo a dizer o que já disse antes: não me sinto um número. Tinha medo de me sentir, mas graças aos profissionais que cuidam de mim, não tive de passar por isso, para além de todas as coisas pelas quais já tive que passar, mesmo sem querer. Apesar de tudo, de todo o carinho inesgotável que esta gente vai buscar não sei onde, desejo muito uma coisa: poder dizer-lhes adeus, em breve. É provável que o JP esteja do lado de lado da vedação, ao colo da mãe, a tentar apanhar-me quando eu entrar no pássaro gigante que ele tanto admira, e que se tudo der certo, rasgará as nuvens do céu que polvilham o atlântico para me devolver a casa... Olha que eu te fujo miúdo, olha que eu te fujo... Ainda não sabes a mãe que tens, ainda não sabes, mas estás bem entregue, como estão todos aqueles que lhe passam pelas mãos. Doces. Fortes. Presentes.

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2 comments

  1. E um dia o JP vai com a mãe, que tem as mãos doce, fortes e presentes, visitar a CC ao seus Açores.

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    1. Espero que sim Maria :) Nem sequer precisam de convite!

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