Aos resgates em tempo útil

terça-feira, agosto 02, 2016

Ela sentou-se ao lado da minha cama como sempre fez em quase todas as visitas. Contou-me que tinha trocado de trabalho e que nesse novo trabalho tinha conhecido alguém que conhecia (outro) alguém da Terceira. E para me explicar quem era, reproduziu a conversa que tinha tido. Lá pelo meio disse que tinha dito, "olha que engraçado, a minha melhor amiga também é da Terceira".  

Ela não se apercebeu do embate que essa frase teve contra o meu peito. Há muitos anos que me deixei de qualificar amizades e se calhar, por causa disso, não estava à espera de (ainda) ser a melhor amiga de alguém. Tivemos uma estória banal. Vivemos juntas, chateámo-nos e separámo-nos, até ela me (re)aparecer no quarto do hospital. 

Quando nos chateámos, eu precisava de ajuda, mas não soube como pedi-la. Achei que depois de tantos anos a dividir casa, tinha chegado o momento de ganhar asas. Consegui alugar uma casa só p'ra mim (e antes dos 30)! Isso devia ter-me deixado feliz, mas infelizmente, não deixou. O problema não era a casa, nem com quem a dividia... o problema era eu. Morava em mim.

Sempre que eu pensava na minha vida p'ra trás, pensava nela. Em como ainda gostava de a ter na minha vida. Mas nunca lhe disse isso. Aliás, nunca fui muito boa a dizer coisas, saio-me bastante melhor a escrevê-las. Eu preferia que o nosso reencontro não tivesse sido num quarto de hospital, mas apesar disso, foi um reencontro bom. Não foi daqueles forçados, artificiais, convenientes por causa da boa educação. Foi um reencontro exclusivamente em nome da amizade... tão natural como antes.

Suspirei de alívio nesse dia. O que eu tinha medo de recuperar, tinha vindo, naturalmente, até mim. Pode-se ser mais sortuda do que isso? Eu penso que não. Agora confesso-vos, na última visita, ela apanhou-me desprevenida. Ser a melhor amiga de alguém é uma responsabilidade muito grande... da qual eu não sei se serei digna. O cancro é uma porcaria. Uma grande porcaria. Mas tem destas coisas boas. Verdadeiramente boas.

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2 comments

  1. " o problema era eu. Morava em mim."

    Porque será que me comovo com o que escreve?
    Tem consciência da pessoa que é e isso é uma grande virtude.

    "Em como ainda gostava de a ter na minha vida."

    As (grandes)amigas são aquelas que dizem as coisas certas, mesmo que magoem um pouco, e fazem-nos descer à terra e pensar que se calhar, elas tem razão.

    Ser a melhor amiga de alguém é uma responsabilidade muito grande... da qual eu não sei se serei digna.

    É digna, sim.
    A CC pode ser impulsiva, mas é um doce de mulher.

    "O cancro é uma porcaria. Uma grande porcaria. Mas tem destas coisas boas. Verdadeiramente boas".


    Pena ser o cancro, mas ainda bem que, em determinados momentos, os mais frágeis da vida, se percebe que os sentimentos mais puros (não sei se é esta a palavra ideal) estão em quem menos se conta.
    Oxalá seja uma amizade para sempre.
    Beijinho

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    1. Sim Maria, sentimentos puros. Acertou na palavra em cheio.
      Tenho cá pra mim que sim, que pode ser uma amizade para sempre.
      Beijinhos grandes :)

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