Às-pessoas-que-não-sabem-lidar-com-o-cancro

sábado, agosto 27, 2016

São 6 meses, quase 7. Ainda hoje, ouço as pessoas-que-acham-que-sabem-lidar-com-o-cancro justificarem-me as atitudes menos felizes de outras com um "porque-as-pessoas-não-sabem-lidar-com-o-cancro". Desculpem-me lá, mas vão à merda, sim?! Ambas. As que acham que sabem e as que não sabem. O cancro é lixado. É. E ninguém sabe lidar com ele. Nem nós próprios que o trazemos dentro. Mas, ainda assim, e mesmo sem saber, a gente faz o que pode... Quem não sabe o que fazer, que não faça nada então. Que fique quieto. Como costuma habitualmente ficar perante as coisas que não sabe. 

Uma vez, alguém registou, publicamente, que o cancro não poderia servir para justificar o meu mau feitio (que vem de longe). De facto, não pode... Mas também não pode sublinhar o pior das pessoas... sem que não lhes seja levantada a impunidade diplomática. Às vezes, mas só às vezes, apetece-me mesmo, de verdade, e com sentimento, mandar à merda, em particular, as pessoas-que-não-sabem-lidar-com-o-cancro. Essas e mais umas quantas. Em especial as que não vão atrás do que querem, as que teimam em não ser felizes, as que não dizem o que é preciso quando é preciso e as que dizem o que não é preciso quando é desnecessário.

A vida é feita de coisas que não sabemos nem dominamos... Que piada é que isto teria se nós soubéssemos sempre como é que nos havíamos de comportar? Há papéis que nos são destinados, mesmo sem sermos actores de referência. Lembrem-se lá do vosso primeiro desgosto amoroso. Vocês sabiam, na altura, o que é que haviam de fazer para que ele passasse mais depressa e sem deixar grandes estragos? Não, pois não?! O meu durou meses. Muitos. Doeu-me com'ó catano. Passou quando tinha de passar. Não há atalhos. Não há caminhos fáceis. Não há truques... Se bem que uma amiga minha, muito iluminada, diz que recalcar é uma boa solução [não se preocupem, apesar de amiga, eu não acredito em tudo o que ela diz].

É por causa das pessoas-que-não-sabem-lidar-com-o-cancro que eu amo muito as pessoas que não sabem um milhão de coisas, mas que ainda assim fazem o que o coração lhes manda, mesmo que a coragem seja pouca. É por causa das pessoas-que-não-sabem-lidar-com-o-cancro que eu tenho de agradecer às que escolheram, voluntariamente, estar ao meu lado. É por causa das pessoas-que-não-sabem-lidar-com-o-cancro que as relações se quebram. Se partem. Se dissipam. É por causa das pessoas-que-não-sabem-lidar-com-o-cancro que nós, os que tem cancro, recebem uma visita, uma mensagem ou um telefonema no dia em que entram no hospital e nunca mais ouvem falar delas. Porquê? Porque elas não sabem. O cancro, a nós que temos cancro, leva-nos muita gente. É um processo natural da doença. Infeliz, evidentemente. Iliterário. Algumas vezes.

Deixe um comentário

3 comments