Bordado Inglês

quarta-feira, agosto 10, 2016

Nós, os doentes oncológicos, passamos muito tempo a olhar para o tecto, especialmente quando temos exames complicados e demorados para realizar. Há um, em particular o que me custa mais, em que nos põem a olhar para o chão porque é feito de rabo no ar, ou para ser politicamente correcta, de barriga para baixo. Mas é só esse. De resto, passamos a vida hospitalar a olhar, bastante, para os tectos das salas de técnicas. Não é agradável. As salas são frias, cheias de aparelhómetros assustadores e despidas de qualquer afecto humano. Deitam-nos numa maca, na maioria das vezes desconfortável, despem-nos da cintura p'ra cima e exercem sobre nós aquilo a que se chamam convencionalmente de medicina. A medicina dá jeito, especialmente quando queremos viver largos e bons anos... mas é uma senhora irredutível, difícil de aturar quando nos sentimos pequenos, desnorteados e acima de tudo, doridos. Por fora, e por dentro.

Ontem começámos o sétimo ciclo de tratamentos. Anteontem colocámos o cateter. Por mais vezes que me deitem naquela maca, eu nunca me hei-de habituar. Nunca. As minhas veias são tão teimosas como quem as carrega, e por causa disso, estive perto de duas horas em padecimento. Começámos com o pé esquerdo, pensei eu. Não, afinal, parece que começámos mesmo foi com a veia errada. Ao fim de 15 minutos de recuperação, a enfermeira veio informar-me que o cateter ia ser recolocado porque não tinha ficado no sítio. Desarmaram-me. Desarmei-me. Desarmei-me completamente. Desarmei-me porque isto não é novidade, mas lá por não ser novidade não significa que não doa cada vez que acontece. 

Sentaram-me na cadeira de rodas, sem perder tempo, e levaram-me para a Neuro-Radiologia. Antes disso a médica que me segue nos Capuchos pediu-me paciência. A única coisa que podia, efectivamente, pedir. E quando saí do Hospital de Dia a caminho de mais uma sala do terror, lá estava ela. A paciência, na pessoa do meu amigo Joaquim, que aguenta estas merdas há 16 meses. Ia lavada em lágrimas. Olhámos um para o outro e apertámos mãos. Não consegui dizer mais nada. Não conseguia que saísse de mim mais nada que não fosse, apenas e tão só, lágrimas. Muitas lágrimas. Voltaram-me a despir, voltaram-me a deitar, voltaram-me a descoser o que tinham cosido há 15 minutos atrás, tudo muito mecânico, equilibrado ao ritmo da regras, a sangue frio, naturalmente. 

Nesses momentos em que estamos sozinhos, deitados numa maca desconfortável, numa sala fria, perdidos nos confins de um hospital qualquer, sentimo-nos bastante tentados a desafiar a serenidade de que tanto precisamos... especialmente nessas alturas. Outra vez? Não, não pode estar a acontecer? Porquê? Porquê a mim? Será que nunca dá para ser à primeira? E se desta vez também não der? Foda-se pah. Isto é uma porcaria.

Uma porcaria amarga. Desconcertante. Suficientemente irónica para nos acharmos os piores pecadores do mundo para merecer tal sofrimento. E lá estava eu, lavada em lágrimas, deitada, enquanto me tentavam recolocar o cateter na veia certa. Senti falta de uma mão. Talvez uma mão como a do meu amigo Quim. Uma mão não ajuda em nada, não torna o procedimento mais rápido, nem menos doloroso. Uma mão só nos mantêm presos ao que é importante pr'a lá de todas as incertezas: a vida. Regressei a casa desolada, depois de ter podido encher o peito de ar quando me disseram na semana anterior que os meus glóbulos brancos tinham subido sozinhos (seus malandros, é bom que se emancipem, ouviram?). O cancro ensina-nos tanto, principalmente que isto é, sem margem para dúvidas, um dia de cada vez, um minuto de cada vez.

Vou acabar isto a parecer um bordado inglês de tanto que coseram e descoseram, picaram e furaram. E em vez de cheia de penas, é mais provável que seja mesmo seja de lágrimas. Foi um dia difícil a juntar a uns poucos que eu colecciono. Mas já passou. Venha a medicina, tal e qual como ela é. Venha a paciência. E venha daí essa mão que tanta falta nos faz.

Deixe um comentário

15 comments