Contrariedades

domingo, agosto 07, 2016

Eu gosto muito da minha psicóloga, já "trabalhamos" juntas há muito tempo, muito antes do cancro aparecer, mas a verdade é que nem todas as consultas correm como nós desejaríamos que corressem. Na última sessão, como em todas as sessões, ela perguntou-me como é que eu estava. "Tranquila". Respondi. E ela, provocatória como de costume, disse: "não precisa de disfarçar"

Grande v#c@. Registei, internamente. E, de mansinho, apeteceu-me sacar de um stick de hóquei em patins e começar a bater-lhe. À força toda. É claro, que ninguém, em seu perfeito juízo, com cancro, está tranquilo. Mas, naquele dia, eu estava um bocadinho. Sentia-me, sinceramente, tranquila. E esses pequenos bocadinhos são tão raros, mas tão raros, tão raros, que aquele que os ousa destruir arrisca-se a perder-nos para sempre.

Depois da consulta, senti-me invadida por um sentimento de desmotivação brutal. Eu nunca escondi que tenho medo do cancro. Toda a gente tem. Quem é diagnosticado e quem não é. Mas faz parte de nós, seres humanos, encararmos as batalhas da nossa vida como se fossemos tão robustos quanto elas exigem. Tenho tanto medo agora como tive no inicio. Ou para ser completamente honesta, tenho mais agora do que tive no inicio. Mas a dada altura do processo, o cansaço começa a jogar a nosso favor. Venha o que vier, já esperamos tudo. Em particular, a parte de não ter que esperar mais nada.

A relação entre um psicólogo e um paciente, para correr bem, não pode envolver disfarces. Mesmo que envolva, eles serão sempre desmantelados. Quem vai ao psicólogo, vai para se "despir". Para pôr-se a nu. Vai sobretudo para lidar com a alma que lhe é própria, no seu estado mais puro. Não vou deixar de visitar a Dra. Susana. Gosto muito do trabalho dela. Gosto muito dela. Mas também gostava muito que me tivesse deixado gozar aqueles 5 segundos de convicção que eu recusei abandonar, peremptoriamente. Nunca me souberam tão bem.

Eu defendo muito o apoio psicológico e falo abertamente dele para que não se alimentem tabus, nem se engordem preconceitos acerca do mesmo, mas nós não somos obrigados a concordar com tudo o que se diz entre quatro paredes. Ela não me viu tranquila. Mas eu senti-me. E mesmo que às vezes seja difícil o oxigénio chegar lá aonde devia chegar, e fazer o que devia fazer, eu prefiro acreditar que o meu coração não me enganou.

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