Dá aquela saudadezinha, dá...

domingo, agosto 21, 2016

De poder olhar para os pés, enquanto a bóia abdominal que se formou desde que comecei os tratamentos ainda não os tapa, e ver as unhas pintadas. De poder olhar para as das mãos e vê-las, da mesma forma, coloridas. De uma cor que traga à memória, nada mais, nada menos, que os infinitos dias de Verão. De usar soutiens que não pareçam coletes de força sem recorrer a um, dois, três extensores (como faziam muitas das minhas clientes, antigamente). De conseguir fazer entrar nos dedos anéis antigos. E de contar o tempo pelos mesmos relógios de sempre. Dá saudade de passar a máscara de pestanas nas pestanas que costumavam existir. De vestir um fato de banho e atirar-me ao mar. Um fato de banho a sério. Compostinho. Como manda a tradição... Daqueles que não se reduzem a fitas de tecido abraçadas à gordura abdominal.

Dá aquela saudadezinha de poder vestir quase tudo, sem estar em esforço, agoniante. De poder, ao espelho, ajeitar o que resta de uma sobrancelha torta. Dá saudade, de por momentos, fazer um pouco de tudo aquilo que se fazia antes. Sem dores. Sem afrontamentos. Sem indisposições. Sem rejeições. Também dá vontade de comer o que se comia. Uma maçã, rija, à dentada. Verde. Sumarenta. Ou uns morangos. Melão. Melancia. Até ficar com a barriga inchada de tanto comer. Dá vontade de chegar a casa, ao fim do dia, e abrir aquela garrafa de Lambrusco borbulhenta. Dá vontade de esquecer que tenho os comprimidos para tomar e que os valores baixos dos glóbulos brancos não me permitem aventuras gastronómicas para além dos cozidos. Aiiii, sushi, meu querido sushi, um dia voltaremos a encontrar-nos. A ti, às lambujinhas, às conquilhas, ao camarão, aos percebes e aos canivetes. Todos regados com um bom caneco.

Dá vontade de dizer ao vizinho do lado, aquele que não tem metade dos nossos problemas, mas que se queixa de tudo, que viva. Que coma o que eu não posso comer e que vá aonde eu não posso ir. E que se não for pedir muito, dê um jeitinho nas unhas dos pés. Bate uma saudadezinha, lá no fundo, das viagens sem destino. Das fugidas de Lisboa a Sesimbra só para comer uns chocos fritos e ficar na praia, a esquecer-nos da vida, até ser noite. Dos gelados na baía de Cascais. Das tardes de Domingo, ao sol, no Adamastor. De tudo o que Lisboa, tinha de bom, para além da luta diária para pagar contas. Bate uma saudadezinha. Como bate dos meus Açores. E da minha vida, antes de viver com o medo de saber se vou ou não ser capaz de subir um lance de escadas. Ou se vou ser capaz de tomar um duche sem ficar extremamente cansada. Ou se salto para dentro do carro, e tenho forças para ir até onde me apetece ir, sem ter de parar duas ou três vezes para respirar fundo. Bate uma saudade enorme. Bate.

Mas à saudade, (e eu sempre me disse pouco saudosista), sobrepõem-se a fé. A crença inabalável de que a minha bóia abdominal não me vai ultrapassar os pés. De que os anéis, antigos, hão-de voltar a entrar-me nos dedos. E de que ao espelho, vou ver o que sempre vi: aquilo que sou, independentemente dos amassos de alma pelos quais tenho passado nos últimos tempos. 

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2 comments

  1. " independentemente dos amassos de alma pelos quais tenho passado nos últimos tempos.", vai ultrapassar e vai recuperar tudo aquilo que lhe dá saudades.
    A fé supera tudo.
    E eu vou torcer, do lado de cá, para que o tempo passe rápido e para que todas as mossas desapareçam e a CC volte a ser como era dantes.
    Tenho esperança, e vai conseguir.
    A filha de uma amiga minha passou pelo mesmo, teve o filho que não devia ter, e mesmo com alguns medos, a vida tem sorrido.
    Um abraço, CC

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    1. Obrigada Maria pelo seu apoio incondicional :)

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