Em sentido proibido

sexta-feira, agosto 26, 2016

Todos os internamentos são difíceis. Já perdi a conta ao número que colecciono. As pessoas, que felizmente, nunca tiveram de passar pelo mesmo, perguntam-me, com curiosidade, se os dias no hospital são (in)suportáveis. Eu digo-lhes que sim. Que são. Apesar de poder parecer mentira, o tempo passa a correr. Os dias são relativamente fáceis, apesar das circunstâncias. Difíceis mesmo são as noites.... quando ninguém nos vê.

Regressei ontem a "casa". Estive 3 dias no aquário. Foram bastante complicados. Primeiro porque desconfio, (e raramente me engano), que a minha disposição e paciência já não são as mesmas... O que é mais do que natural. Segundo, porque os "colegas" de quarto que me calharam desta vez estavam demasiado ocupados a pensar na morte. É por coisas destas que nem sempre me apetece falar com pessoas. Nós nunca sabemos o que é que pode sair da boca delas... Um deles disse ao médico que se a "coisa" não tivesse solução, que lhe trouxessem os comprimidos para o matar. O outro não queria morrer antes de ter os pormenores do funeral todos acertados.

Irritaram-me até ao tutano. E olhem que desde que me vi obrigada a fazer biópsias à medula óssea, a expressão "irritaram-me até ao tutano" ganhou todo um novo significado. As pessoas têm direito a querer morrer. Tenho uma amiga que infelizmente já se tentou suicidar várias vezes, a última delas aconteceu há poucos meses atrás. Senti pena como senti de todas as outras vezes. Mas mais do que sentir pena, senti-me desrespeitada. Existem as estatísticas, que por norma, são madrastas. Existem os contratempos e os imprevistos que tornam o que já é complicado ainda mais complicado... Mas caramba, falarem-me de morte, a mim, parece-me uma enorme falta de respeito. Uma falta de respeito extensível àqueles, que como eu, passam horrores para ter uma vida razoavelmente saudável. Aos que cuidem de nós. Aos que carregam as nossas dores. Aos que tremem com a possibilidade de nos perder.

Quando eu descobri que tinha cancro, pareceu-me muito evidente que não valia a pena fazer planos. O que não vale a pena, é viver a vida, sem tentar concretizá-los. Nós, sem objectivos, não somos nada... e nesta altura do campeonato, ter como objectivo morrer ,parece-me (bastante) descabido. Nós não podemos viver à espera da morte... Já pensaram no insensato que isso seria?

Há muitas formas das pessoas lidarem com as rasteiras que a vida lhes prega. Não pude, e não quis, esforçar-me para que os meus colegas de quarto pensassem de forma diferente. Nesta altura do campeonato, o egoísmo também é uma defesa... ainda que não o compreendam nem o aceitem. Desconfio, (e raramente me engano), que os meus colegas de quarto falaram muito na morte só e porque não querem ter medo dela. Para lhe dar espaço. Possibilidade. Para se sentirem fortes... e ancorados no meio dos destroços em que a vida se dividiu. Eu tenho medo, como toda a gente tem. E se calhar é por causa do meu medo que não suporto ouvir os outros falarem do deles. Ainda assim, digo-vos o que disse uma vez à minha psicóloga: a morte, seria sempre, a saída mais fácil.

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