Então, como é que é viver numa ilha?

sexta-feira, agosto 05, 2016


Perguntou-me, curiosa, a colega da cama ao lado. Como é que vocês acham que é a vida numa ilha? Eu respondo: é entediante, julgavam o quê? Mas também vos garanto que esse pedaço de terra, rodeado de mar, é o único lugar onde um ilhéu se sente em paz. Totalmente em paz.

Os dias de nevoeiro são difíceis. Os açorianos acordam muitas vezes ao toque de manhãs foscas. As nuvens que descem à terra, e que em muitos dias nos exilam do mundo, sem deixar entrar ou sair avião, são uma das formas que a vida escolhe para nos impor, com rigor, as contrariedades de que é feita. Os Invernos são dolorosos porque não permitem aos açorianos irem buscar forças de onde elas vêm. Da incrível e majestosa natureza. Nos Invernos, escondemo-nos em casa. E rezamos, várias vezes, para que os ciclones e tempestades que se apaixonam por nós, (com bastante frequência), nos passem ao lado.

Mas o que há de mais fantástico em viver numa ilha, é a possibilidade de assistir, dia após dia, à capacidade de regeneração natural das coisas. Depois dos Invernos, dos nevoeiros, das tempestades, das chuvas e dos ventos, chega a calmia. A calmia de um dia simples. De repente, o sol desponta, a terra parece (ainda) mais verde e o mar mais azul. E a gente que se escondia dentro de casa, (re)começa a sair p'ra rua. Mais cheia de vida. Inegavelmente, mais cheia de esperança.

Ninguém saberá amar os Açores como só aqueles que de lá partem. E os muitos que lá ficam. As ilhas são um feitiço... Exigem, à força, que sejamos resilientes e lá de quando em vez, oferecem-nos a oportunidade de assistirmos a pequenos milagres. Somos uns pobres privilegiados. E apesar de nos circunscreverem a um pedaço de terra, rodeado de mar, eu gosto de pensar que ainda há muito por onde ir. Estaremos, para sempre, presos à nossa insularidade, é verdade, mas também usufruímos de uma forma muito própria de liberdade.

Aquelas estórias que vos contam das vaquinhas pretas e brancas nos cerrados, dos lavradores, imponentes, nas suas 4x4, das cachoeiras e das piscinas naturais, das praias de lava negra, dos vulcões adormecidos, das princesas que derramaram lágrimas até fazerem lagoas... é tudo verdade, mas ainda é pouco. Eu costumo dizer que ninguém deveria morrer sem antes ir aos Açores. Hoje, as circunstâncias da vida, obrigam-me a reformular esta frase. Ninguém deveria morrer depois de lá ir. Eu espero D.ª Ana que o céu seja tão magnífico quanto aquilo que viu. Que seja doce como são os meus Açores. Até sempre.

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2 comments

  1. Paz à Dª Ana.
    Espero não morrer antes de visitar os Açores e este ainda pode ser o ano.
    Se dependesse de mim, já tinha ido.
    Lindo post, CC.

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    1. Obrigada Maria. Espere só até eu me recuperar. Terei todo o gosto em servir-lhe de guia turística! Um beijinho grande

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