Luz, (a), própria

sexta-feira, agosto 19, 2016

Há pessoas que nasceram com a sorte de ter como nome próprio o seu melhor cartão de visita. Luz. Nunca me hei-de esquecer. Nem do nome. Nem da mulher. Tenho, temos todos, vivido dias de perdas terríveis... às quais nunca me hei-de habituar. Na verdade, nós, humanos, não fomos construídos, a priori, para nos habituarmos à perda daqueles que de certa forma, amámos. Custa-me muito aceitar a morte de pessoas que partilharam comigo um pedaço das suas vidas. Particularmente aquelas cujo pedaço foi pautado por acordes difíceis. Há-de me custar sempre.

Conhecemo-nos na casa de banho, antes de adivinharmos vir a ser colegas de quarto. Por mais que a gente se isole, puxe os cortinados ao redor da cama, e se queira enfiar dentro do quadrado de pano que nos toca, há sempre um motivo maior para olharmos para o lado e rompermos o silêncio. Eu não sei bem o que é que nos faz falar... Acreditem, eu não me esforço muito, até o evito bastante, mas quem esteve ao meu lado, até hoje, sempre soube descortinar-me. E eu estar-lhes-ei eternamente grata por esse trabalho ingrato.

Os médicos temem as comparações, as fugas de informação, as (in)confidências... mas no meio do deserto que atravessamos, às vezes, só às vezes, sabe bem depositar no outro, aquele que dorme ao nosso lado, na cama do hospital, os medos do dia, e das noites. A Luz foi a primeira pessoa que apesar de estar doente como eu estou, nunca falou comigo como se eu estivesse doente e isso é a melhor coisa que um "colega" nos pode dar. Olhar para nós, pessoa e não cancro. É por isso, e não só, que a guardo no peito com um carinho especial. 

Entre as muitas coisas sobre as quais falámos, também me disse "vamos para casa Cátia, há gente à nossa espera". Como me é difícil, imaginar, uma casa sem ela. Sempre que vou ao hospital fazer análises, tenho a mania de ir visitar os colegas que conheço e que lá estão internados, mas há semanas que não consigo enfiar lá os pés. Não aguento que me roubem mais alguém. Não aguento. E por isso não quero apegar-me. E assim levamos a vida como nos dizem para a levar: chorando, e esquecendo. Embora seja muito difícil esquecer. 

Não sei se disse à Luz alguma coisa que ela tenha levado consigo. Espero que sim. De qualquer das formas, deixo-a neste texto, mais dela do que meu. Escrever sobre alguém acho que é das coisas mais bonitas que se pode fazer. Quanto a vocês, não me morram por favor. Eu não ia aguentar. 

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