Medalha de Bronze

quinta-feira, agosto 18, 2016

Estou cansada. De tudo aquilo que vocês possam imaginar. E do que não imaginem, também. Estou cansada. De mim. Dos dias. Das frases feitas. Até da minha escrita, repetitiva. Estou, verdadeiramente, cansada. Das pessoas. Das que aparecem. Das que não aparecem. Das que desaparecem. Das que fazem perguntas. Das que não perguntam nada. Estou cansada do mundo que carrego nos ombros. É pesado. Estou cansada que me peçam para ser isto ou aquilo, quando eu até acho que estou a ser o que deveria ser. Suficiente. Não excepcional.

Estou cansada deste cancro. Muito cansada mesmo. Dos maus-tratos que ele me têm dado. Da dor que ele me tem causado. E estou cansada que não percebam que estou cansada. Que me exijam cara bonita a uma coisa que é terrivelmente feia. Estou cansada que me digam coisas que não (me) servem p'ra nada. Estou cansada que me perguntem se estou cansada. Estou. Como já disse, muito. E não encontro outra maneira p'ra estar.

É um cancro, não são umas olimpíadas. Não estou a fazer isto por uma medalha. Acho até que falhei as provas de qualificação, mas mesmo assim... fui repescada. E apesar da(s) falsa(s) partida(s), neste campeonato, somos mesmo obrigados a correr. Contra o tempo. Contra as previsões. Contra os imprevistos. Contra os dias maus. Contra a inquietude. Contra o desespero. Contra aquilo que é maior que nós. Avassaladoramente maior. Nunca escondi que a partir de metade, isto tinha ficado, severamente, mais complicado. Não que o diagnóstico se tenha agravado, graças a Deus, não, mas porque o caminho de meio p'ra cá, parece-me, penosamente, mais difícil. Íngreme como nunca foi até então. E porque a força, tal como outra coisa qualquer, também se esgota.

Acho que a dada altura do processo começamos a enlouquecer, saudavelmente, um pouco. Há peças que não consigo ligar e momentos, há 6 meses atrás, dos quais não me consigo recordar. E ainda bem que nos tornamos facilmente permeáveis à loucura... uma vez que rígidos seríamos, com certeza, mais fáceis de quebrar. Estou cansada. Doridamente cansada. Amanhã, termina, oficialmente, o 7º ciclo de quimioterapia. Deixou-me de rastos. Física e emocionalmente. Ainda não me recompus na totalidade. Não sei se algum dia me recomporei... Estou cansada, mas deixem-me, por favor, estar cansada. Estar cansada, neste momento, é uma vitória. 

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6 comments

  1. Um beijinho e abraço apertados! Desejo que tudo melhore e que o sol volte a brilhar na tua vida trazendo-te muita luz!*

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  2. És uma GRANDE MULHER, mesmo cansada, irritada ou mesmo chateada. Só tu sabes o que estás a passar, por muitos textos que nos escrevas, nós - quem te segue, só tem uma pequeníssima ideia das dores e provações que tens passado.
    Só te posso desejar as melhoras rápidas e que mesmo não estando a correr para os jogos olímpicos ganhes rapidamente a tua medalha, não de bronze ou ouro, ou qualquer outro metal precioso, mas de saúde - completamente curada!

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    1. Ai motardwoman, essa seria, sem dúvida, a grande vitória :)

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