O sustento do vício

quinta-feira, agosto 04, 2016

Eu não assisti a esta estória, mas quem lá estava, contou-ma. São estórias que eu não gosto de ouvir, mas que sinto que devo "denunciar". Há uns dias atrás, na entrada da enfermaria onde eu costumo passar muito tempo, estava um jovem doente. As visitas iam e vinham. Não chegava ninguém p'ra ele. Ao fim de algum tempo dirigiu-se a um homem de meia idade que ia a passar e pediu-lhe uma moeda para tomar um café. O homem respondeu-lhe: eu não ando a trabalhar para sustentar vícios. Deu meia volta e virou-lhe costas. O jovem doente ainda tentou justificar-se. Disse que estava ali sozinho. Que era das ilhas (não sei se é verdade ou não). Que não tinha ninguém e que só queria mesmo uma moeda p'ra café. Tarde demais. O senhor que não anda a trabalhar para sustentar vícios já não o ouviu. 

Ora apraz-me informar quem não sabe, que de facto, os hospitais são antros cheios de vícios. Nós vamos lá e estamos lá única e exclusivamente para nos administrarem drogas. Drogas, que à partida, querem-se que destruam células, más, e não pessoas. Ainda assim não deixam de ser drogas. E nós não deixamos de ser uns drogados. Valentes. Conscientes. Mas drogados. Infelizmente, os vícios não se ficam por aí... Era bom que ficassem, mas não ficam.

Há um vício muito comum de verificar a temperatura de meia em meia hora, sem que os enfermeiros nos peçam, primeiro numa axila e depois na outra. Há o vício de vigiar, exaustivamente, como se fossemos uma torre de controle aeronáutica, o conta-gotas do soro, da quimio e dos demais antibióticos que nos são postos a correr nas veias. Há o vício de examinar pernas, pés, braços, barriga e afins à cata de petéquias, (não, não são um tipo de pókemons). São nódoas negras muito comuns às leucemias. Há ainda o vício de rezar um Pai-Nosso bem corridinho, ajoelhados à frente da sanita, todas as vezes que chega a hora de expurgar o veneno que circula dentro do nosso corpo. Esta imagem pode parecer-vos bastante cómica, mas ninguém imagina o que dói deitar cá p'ra fora a porcaria que entra lá p'ra dentro. Há ainda o vício de nos comportarmos como se não tivéssemos medo. E há o vício de engolir lágrimas e soluços. Uma coisa muito típica de quem está sob o efeito de drogas. 

Um euro dá pelo menos dois cafés na máquina automática do hospital. Se calhar ainda ninguém explicou a esse senhor que não anda a trabalhar para sustentar vícios que ele está um bocadinho equivocado. Se calhar ainda ninguém lhe explicou, que em Portugal, todos nós trabalhamos para sustentar vícios, em particular, aqueles de quem nos governa, mas vocês sabem que eu não gosto de política e que não vou ceder à tentação de ir por aí. Eu só desejo, sinceramente, e de coração, que esse homem, de meia idade, que acredita que o seu trabalho não sustenta vícios alheios, nunca venha a ter os mesmos que as pessoas dos hospitais têm. 

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6 comments

  1. infelizmente o português só é solidário quando tem plateia. Os hospitais são tudo menos lugares perfeitos e falo porque sei do que falo, mas nós não vamos lá porque gostamos. Pode ser que um dia esse senhor venha a precisar de um café e alguém lho dê e ele se lembre daquele que negou. Beijos, coragem!

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    1. Há uns bons anos atrás, quando eu andava na faculdade, havia um sem-abrigo de muita idade que se costumava sentar nas escadas do metro do Marquês do Pombal. Sempre que eu podia, parava e dava-lhe algum do dinheiro que tinha. Habituei-me de tal maneira a fazê-lo, que das vezes em que não o fazia, sentia-me terrivelmente mal. Vê-lo todas as manhãs, ali sentado, funcionava como um lembrete p'ra mim, um lembrete para tentar ser melhor. Às vezes não conseguimos, efectivamente. Mas não custa tentar. O que dói são as pessoas que não tentam de todo. Beijinho.

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  2. Existem pessoas muito frias sim.
    😕

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    1. É um hospital, que raio de vícios é que uma pessoa pode ter?

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  3. Eu dava-lhe logo o euro ou mais.
    Inconcebível!
    E o café é um vício que faz tanta falta a quem o tem. Lembro-me que das vezes que fui internada, era um sacrifício não tomar o meu café.
    Se o quisesse, tinha de ir ao bar, mas não podia vestir-me. Tinha de ir em pijama ou vestir o roupão, peça que detesto) e então não ia por vergonha.
    Sabe Deus como "sofria" pela falta do café.

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    1. É muito difícil as pessoas, e eu incluo-me nelas, perceberem o que é que os outros sentem sem terem passado pelas mesmas situações.

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