Questões cabeludas

sábado, agosto 20, 2016


Há uns meses atrás, quando divulguei esta entrevista que fiz à minha colega e amiga Helena Fagundes, houve um anónimo, corajoso, que decidiu comentar, não só o meu trabalho, mas também o meu penteado. Numa coisa temos todos de concordar, se actualmente eu estivesse a trabalhar, o problema do cabelo não se colocaria de todo... Mas ficaria satisfeito, ou satisfeita, esse anónimo ou anónima, com a minha reluzente careca? De facto, quem se apresenta em televisão, deve ter algum cuidado com a sua imagem, e eu prometo, oficialmente, perante vós, pentear-me de jeito, se me nascer cabelo de jeito. Feliz e contente, anónimo/a?

Expormo-nos, dando a cara, o nome, o corpo, e a alma, leva-nos sempre a estes riscos... que na verdade, muito pouco me afectam. Na altura da entrevista eu não tinha um cancro. Agora tenho. Acho que tenho assuntos mais relevantes com os quais me preocupar. Em todo o caso, recuperei este tema porque achei importante, demonstrar, a esse anónimo ou anónima, a rapidez com que um mau penteado deixa de ter importância. Deixou de ter no dia em que tive de raspar o cabelo todo, mas já tinha deixado de ter antes disso. E lamento informá-lo, ou informá-la, novamente: a entrevista não foi banalizada. Muito menos por causa do mau penteado que eu tinha.

Sempre me ensinaram que quando nós trabalhamos naquilo que gostamos pagamos um preço por isso. E eu já vos disse, várias vezes, que o jornalismo não tem nada de glamouroso. Acabamos o dia a cheirar mal dos sovacos, fedorentos, com os olhos esborratados de rímel, e para mal dos meus pecados, mal penteados. Sorte daqueles que conseguem, e tão bem, apresentar-se, impecáveis, com risca ao meio, dividida ao milímetro. Eu sou, e sempre fui, muito pouco disciplinada nesse sentido, mas nunca falhei com quem achei que não devia falhar: em primeiro lugar, com os meus convidados, e em segundo, com os meus telespectadores. A entrega com que trabalho, e que me parece evidente, vale muito mais do que dois ou três cabelos descontrolados que não são tidos nem achados para o que de verdade importa. Sr.º anónimo, ou Sr.ª anónima, conseguiu reter alguma coisa da entrevista, para além da aparência dos seus, neste caso suas, intervenientes? Se não conseguiu, lamento informar-lhe que este formato televisivo provavelmente não é o mais indicado para si. 

Apetece-me ainda dizer, e em plural, que fazemos aquilo que podemos com aquilo que temos, e raramente esse esforço é reconhecido. Noutras casas, bem mais conhecidas, por onde eu também já andei, faz-se o mesmo, a única diferença é que se mascara melhor o que é feio de bonito, mas é mesmo só isso. Duvido muito que esse Sr.º anónimo, ou Sr.ª anónima, seja um fiel seguidor do meu blogue, tal como vocês são, mas se for, aviso-o desde de já que os corticóides com que levo nas trombas há seis meses deixaram-me bastante insuflada, não vá você achar que eu não caibo no ecrã da televisão da próxima vez que me vir. E para terminar, só mais uma coisinha, se aprecia formatos televisivos com caras melhores do que a minha, eu tenho dois ou três nomes que lhe posso recomendar sem hesitar. Para mim, bastam-me aqueles que apreciam uma boa conversa, conduzida por quem sabe, efectivamente, conversar. Já agora, não quer aproveitar a oportunidade de se redimir, e deixar o contacto de um cabeleireiro de sua confiança? Não me servirá de muito, mas acredite, dirá mais sobre si do que mim.

A todos os cabelos desgrenhados deste mundo, e a todas as apresentadoras que aparecem de pijama na televisão, só porque lhes apetece, tamo junto.

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2 comments

  1. Uma boa resposta, CC.
    Por vezes, e falo por mim, julgamos os outros pela aparência.
    Tenho aprendido muito desde que leio o seu blog, e sabe que sou sua fã há alguns anos, e hoje, quando vejo uma mulher ou homem gordos, ou magricela, ou mal vestido, ou extravagante, penso em si. Passa-me logo o julgamento.
    Quando trabalhava, e porque o meu cabelo é grosso e volumoso, naqueles dias de chuva e húmidos, chegava logo de manhã ao trabalho e o cabelo estava uma valente merda.
    Não havia secador de cabelo ou prancha que valessem.
    Um dia a minha irmã disse-me: " Andas sempre bem vestida, mas esse cabelo não tem nada a ver contigo, não sabes arranjar o cabelo."
    Eu ficava danada e reclamava com ela. Sempre que chegava ao trabalho e olhavam para mim, pensava que os colegas deviam pensar o mesmo que a minha irmã dizia.
    Mas eu não podia fazer mesmo nada, mas sentia-me mal porque achava que o cabelo das colegas estava impecável e o meu não.
    Uma dada altura, deixei de me incomodar com isso. Desde que esteja lavado est+a bem.

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    1. Fico extremamente feliz Maria por o meu blog ter contribuído para mudar a percepção que tinha em relação às aparências. Aprendi muito sobre isso quando trabalhei na loja de lingerie onde estive três anos como consultora. Apesar de tudo, as mulheres, clientes, ensinaram-me muito, principalmente a sermos mais benevolentes com os nossos pequenos defeitos. Beijinho

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