#a vida aos 30

Hop on Hop off

sexta-feira, setembro 23, 2016

Apaixonei-me a valer, pela primeira vez. [sempre que nos voltamos a apaixonar, a valer, as vezes anteriores deixam de contar]. Não estava nos planos. Nem nos dele nem nos meus. Quando o vi, não me despertou o mínimo interesse. Não o entendia. Ele era francês, eu era portuguesa e nenhum de nós dominava suficientemente bem o espanhol para nos expressarmos convenientemente. Sentou-se ao meu lado no Hop on Hop Off que nos deu a conhecer Valencia, num dia de chuva bastante cinzento. Convidou-me a partilhar o Ipod dele. E durante o percurso inteiro, não abriu a boca. Um dia de chuva, com música, não é um dia de chuva qualquer.

No mesmo dia, à noite, convidou-me para sair. Aceitei. Fomos ao bar ao lado da residência universitária onde estávamos alojados. Falámos imenso, ainda hoje, não sei de quê. Eu acenava-lhe com a cabeça que sim, que o entendia na perfeição, e ele respondia da mesma forma. As primeiras palavras que trocámos serão para sempre uma incógnita. Começou a sentar-se ao pé de mim no autocarro que apanhávamos todos os dias para ir para o curso de espanhol. Um dia, discretamente, deu-me a mão e eu nunca mais a larguei. Foram 2 anos soberbamente bons até ao dia em que deixámos, efectivamente, de nos compreender.

Eu insisti, como muitas mulheres insistem. Estava disposta a abdicar de tudo. Do meu país, dos meus amigos, da minha família... até mesmo de mim, só para ficar ao lado dele. E ele disse que não. Que nunca se perdoaria se eu não tivesse sido aquilo que eu queria ser por causa dele. A despedida foi como todas as despedidas são, dolorosa. Apareceu-me, várias vezes, a meio da noite, à porta do meu prédio. Pedia-me para descer, abraçava-me e ia-se embora. Andámos nisto um mês. Chorávamos sempre que estávamos juntos. No dia em que me vim embora, deixou-me no aeroporto e perguntou-me quando é que eu voltava. Não lhe respondi. Enfiei-me no avião e não consegui chorar. Acho que foi nesse dia, nesse momento, nessa viagem, que tranquei uma parte de mim. A parte que me permitia, sem opressões, apaixonar-me por pessoas em dias de chuva.

Não voltei. Não voltei lá. Não voltei p'ra ele. Nem voltei a vê-lo. Um dia, já em Lisboa, estava à mesa com a pessoa que lhe seguiu. O então meu namorado quis saber da estória. Quando lhe contei, atirou-me, à falsa fé, um "se ele não ficou contigo é porque não gostava de ti". Faltou muito pouco para lhe atirar com o prato da sopa. Naquele amor eu não deixava que ninguém tocasse. Acreditei durante muito tempo, (e ainda acredito um bocadinho), que apesar de termos deixado de gostar de estar juntos, não tínhamos deixado de gostar um do outro... E isso é uma grande merda quando acontece. 

Foi o amor mais honesto que eu tive. E non, je ne regrette rien. Apesar de não termos ficado juntos, tivemos uma relação bonita... E as relações bonitas servem sempre de comparação, de umas para as outras. Na altura, não percebi porque é que ele me rejeitava. Mas hoje, consigo entendê-lo perfeitamente. E muito sinceramente, até lhe estou grata. Ele sabia-o. Ele sabia que eu não seria feliz deixando tudo para trás. Ele sabia que eu não era esse tipo de pessoa. E estava certo. Mais do que eu. Às vezes, em determinadas relações, não conseguimos, de facto, crescer juntos, mas podemos continuar a crescer uns com os outros. 

Se tenho saudades dele? Algumas. Era uma pessoa simples. Amigo. Pai. Irmão. E não raras vezes, educador de infância. [eu reconheço as minhas birras quando assim tem de ser]. E eu era perdidamente apaixonada por ele. Perdida, como quem se perde pela primeira vez. O amor que tínhamos um pelo outro resistiu durante muito tempo à impaciência e à frivolidade e acabou como todos os amores acabam: asfixiado. Porque é que vos contei isto? Porque alguém comentou a respeito deste post, que não se devia dar muito importância à dor. Certo. No entanto, há dores que tem que doer e a gente não pode fazer nada para alterar isso... Da mesma forma que existem finais felizes sem pessoas felizes e dias de chuva sem música de fundo. C'est la vie. 

#vamos matar o bicho

O sopro do coração

quinta-feira, setembro 22, 2016

Como seria a pessoa perfeita, para si, neste momento? [Que perguntas engraçadas aquelas que os psicólogos se lembram de fazer, não é verdade?]. Suspirei. Respirei fundo. Bem fundo. Pensei. Voltei a (re)pensar. E respondi. Neste momento acho que essa pessoa não existe. E olhando para a cara de insatisfação dela, (da psicóloga), revi o processo todo, e sem hesitar, disse: a pessoa perfeita, neste momento, seria aquela que teria respostas para todas as perguntas. E sim, essa, seria, sem dúvida, a pessoa perfeita para mim.

Atenção, não estávamos a falar de amor. Bom, estávamos a falar de amor, mas não de casos amorosos. [Estou solteira, mas não estou desesperada!]. No momento desta conversa, falávamos das pessoas que me rodeiam e de que forma elas teriam que ser para se encaixar, actualmente, no meu coração. Infeliz ou felizmente, a pessoa perfeita que eu idealizei, não existe. As respostas todas de que eu preciso não cabem numa pessoa só. Não há forma de caber. Nunca haverá.

E mesmo sem as respostas todas, seria capaz de se entregar a alguém? [É o que eu digo... Estes psicólogos, valha-nos Deus nosso senhor!]. Não tem sido muito fácil, respondi, num tom, assim, meio entramelado. E ela continuou a olhar para mim, à espera de mais. [Mulher exigente, esta, nunca se contenta com pouco]. Porque é que não se deixa cuidar? Porque é que os outros não podem cuidar de si? Não confia neles? Será que é que porque eles não tem as respostas todas de que precisa? Quando um enfermeiro lhe põe betadine numa ferida comunica que lhe arde ou morde os lábios e aguenta a dor? Às vezes, mas só às vezes, penso em deixar de frequentar as consultas da Dra. Susana. Ela é terrível. Maravilhosamente, terrível.

Na verdade, viver numa realidade paralela é bem mais fácil. À primeira vista. Ainda que seja paralela, é tão difícil viver nela, quanto na primeira, sem respostas. A pessoa perfeita nunca existirá. E porque nunca existirá, se calhar, seria conveniente, começar por amar as imperfeitas que me rodeiam. As que não terão, efectivamente, respostas para tudo. As que falharão, consecutivamente, a tentá-lo, mas que ainda assim, darão o seu melhor, dentro dos (im)possíveis.

Deixe que lhe soprem. [Na ferida. Quando arder].
Prometo que vou tentar... responder.

#vamos matar o bicho

Tira-teimas

segunda-feira, setembro 19, 2016

Finalmente. Comecei a sentir uma série de coisas estranhas às quais não consegui dar nome. Eu que tenho palavras para quase tudo. Precisei de ajuda. Sozinha não chegava lá. Eu que sempre me considerei bastante perspicaz. Descobri que estou viva. A evidência das evidências. Tardia. Mas sentida. [Não há outra forma de entender coisas, se não for a senti-las]. Estranho seria, se ao somar os dias, (os que já foram e os que ainda estão por vir), eu nunca tivesse dado por isso. Finalmente. Descobri que estou viva através da dor. As coisas estranhas eram dói-dóis. Na alma e não no corpo. A dor é dos melhores tira-teimas que a vida tem. Ingrato, sem dúvida, mas esclarecedor, com toda a certeza. Se vos doer alguma coisa, é sinal de que vocês estão vivos. Quite easy.

Existem pessoas com uma tendência natural para contrariar a dor. Afastam-na. Negligenciam-na. Arrumam-na. Transformam-na, na maioria das vezes, em sentimentos-muro, e se pudessem, reduziam-na a pó. Os sentimentos-muro são automatismos utilizados estrategicamente para nos afastar do mundo. Dos outros. E como é óbvio, das coisas que nos magoam. Eu sempre fiz parte desse grupo de pessoas... Mas, a muito custo, (aiiii, a que custo!), ando a esforçar-me, de verdade, para romper com o vício. 

Ao fim deste tempo todo, e a um passo da meta, eu senti-a na pele. No corpo. Mais precisamente no meio do peito. A revolta que não é revolta. É mágoa. Ao fim deste tempo todo, dei-me conta que existem, efectivamente, centenas de pessoas a seguirem o curso normal da vida delas. Olha que merda, e eu com um cancro. Bué justo, né? Desta vez, pela primeira vez, não houve muro algum capaz de me separar da dor que me pertence e que é só minha. Mas o mais estranho de tudo foi, que da mesma forma, e pela primeira vez também, senti-me tranquila com a dor, enquanto me doía, e confortável com aquilo que me doía.  E foi assim, ao fim de muito tempo, e de muita camuflagem, que descobri que estava viva.

As pessoas com uma tendência natural para contrariar a dor também não são, por norma, as melhores a dar respostas. Mas perguntam-se muito, sobre muita coisa. E sentem mais ainda. Podem ser agressivas na tentativa de esconder o medo. Podem dizer-se insuficientes quando, sabem, perfeitamente, que deram tudo. Podem evitar, com muita severidade, entregar-se, só para não perder o controlo que não têm. Nunca tiveram. Estou feliz, para além de magoada. Pensei que nunca me ia chatear com a vida nem com esta partida de mau gosto que ela me pregou. Andei anos a discutir com as pessoas erradas... Era ela a quem eu devia ter pedido justificações.

#vamos matar o bicho

Amigos Improváveis

domingo, setembro 18, 2016

Estava aqui a pensar no que leva as pessoas a serem amigas de outras pessoas... Se o amor é complicado, a amizade não é menos. Lembrei-me de um amigo meu de quem tenho muitas saudades. Conheci-o naquela fase terrível pela qual muitos de nós já passámos: a fase de desilusão em relação às escolhas profissionais que fizemos. Não é uma fase bonita. São ali uns bons meses, duros, a remoer muita coisa. Eu e ele estávamos no mesmo barco. Um barco que tínhamos a perfeita noção que se estava a afundar... mas, isso foi de longe, a melhor parte da estória!

Quando eu optava por não passar os dias no sofá, a combater os danos colaterais do desemprego, enviava-lhe mensagens subliminares: "vamos despedaçar-nos para o bairro?" e ele respondia-me: "à hora do costume, no sítio do costume". Nunca precisámos de mais do que isso. Nunca precisámos de justificações. Nunca precisámos de explicações. Nunca precisámos de pedir desculpa por quem éramos naquela altura, pelo que fazíamos, nem pelo que sentíamos. Acho que os amigos são muito isso. Acho que os amigos são aqueles que amam, sem esforço, aquilo que nós somos de verdade.

Nesses tempos, vivíamos no bairro alto de segunda a segunda. Não houve bar que a gente não picasse. Descobrimos os encantos e desencantos da noite juntos. Ele tentava fazer-me arranjinhos e eu a ele. Discutíamos moda e looks como se fôssemos dois peritos na matéria. De vez em quando empregávamos uma ou duas palavras francesas nos nossos diálogos porque nos dava para o chique... ou porque estávamos bêbados. Um dia levou-me a jantar ao continente da Moita. Voltámos para Lisboa, pela Vasco da Gama, de vidros abertos a cantar, desafinadamente, o "Recordar é Viver" do Vítor Espadinha. Disse-lhe que ia gastar os meus últimos 200€ do mês para ir a Madrid a um casting para um canal de televisão. Saímos da ponte direitos ao aeroporto. Sem perguntas. Sem críticas. Sem olhares reprovadores.

Quando voltei, ele estava à minha espera. "Grande merda, dei cabo do dinheiro todo e não me escolheram". Bem que ele tentou disfarçar, mas não conseguiu. Desmanchou-se a rir na minha cara. "Tu já sabias disso". Só discutimos uma vez por causa de uns mocassins horríveis em pele que ele tinha comprado. "Assim toda a gente vai perceber que tu gostas de homens". Não conseguimos controlar as gargalhadas que nos assaltaram aos dois. Era-nos muito fácil rir quando estávamos juntos. E isso também é um sinal das amizades naturais. Ele emigrou e eu tomei juízo. Mas um dia soube que ele tinha voltado.

O meu ex-namorado não gostava que fôssemos amigos. Não foi por isso que o deixámos de ser, mas talvez tenha sido por sido que nunca mais voltámos a sê-lo. A última vez que o vi, estava ele a descer a calçada da Bica, acompanhado por uma rapariga. Gritei pelo nome dele. Virou o rosto na minha direcção e piscou-me o olhou. Talvez porque eu estava acompanhada não me veio falar. Seguiu caminho. E desapareceu. Nunca mais soube nada dele. Mas dava-me jeito encontrá-lo. Tenho a certeza que nos íamos rir muito com a porcaria toda que nos aconteceu entretanto. Sem esforço, como é evidente.

#vamos matar o bicho

The special one

sexta-feira, setembro 16, 2016

Acontece, várias vezes ao longo da vida, pessoas que têm dias maus, cruzarem-se, ocasionalmente, com pessoas que maus dias têm. O problema dos dias maus é apenas um: nem sempre dois maus juntos são suficientes para se anularem um ao outro... E quando, por uma questão físico-química, o que é mau não fica sanado, os pontos de ebulição interiores começam a dar sinais de efervescência. De muita efervescência.

Quando eu era balconista, lá na barraca dos soutiens e das cuecas, levei com muita gente em dias maus. Clientes, maioritariamente, mas não só. No entanto, a lei do comércio é soberana: o cliente tem sempre razão. E no fundo, vida de balconista é muito isto: ouvir os desaforos dos outros, sorrir e servir cafés (e se possível facturar). É limitado, é. E é giro, apenas e só em determinados dias. A combustão ideal para um bom dia de trabalho acontece quando a cliente está num dia mau... e surpresa: nós também! 

Existiram estórias que começaram mal e acabaram bem e existiram estórias que começaram mal e acabaram mal. E existiram ainda, outras estórias, que pareciam ter começado bem, e acabaram, extremamente mal. Ser balconista foi um dos maiores desafios da minha vida... e da minha, tão temida, personalidade. Virou-me do avesso. E ainda bem. O meu poder de libertar gases extravasa todo e qualquer reduto mercantilista. Eu não sou um furacão. Eu sou um vulcão. É ligeiramente diferente. Mas nunca, em caso algum, deixei que a minha lava enfurecida calcificasse alguma cliente pelo caminho, embora me tenha apetecido, várias vezes. Ninguém é de ferro, nem mesmo os "specials ones" desta vida. 

Tenho-vos poupado muito nestes últimos 7 meses. Tenho-vos contado o que acho que é importante contar e tenho arrumado, debaixo do tapete, aquilo que acho que vocês não precisam saber. Vocês não precisam saber que eu estou a ter um dia mau. Prefiro que seja assim. E na maioria das vezes, esse esconde-esconde também é um acto de respeito camuflado pela intenção de proteger as pessoas que mais sabem sobre nós: os enfermeiros e os auxiliares.

Ao fim de 7 meses, o vulcão já está a ponto de explodir, por conta própria... mas eu gostava muito de continuar a acreditar que a saúde, ou melhor, que o SNS não se está a tornar numa loja de esquina qualquer. É que nas lojas de esquina a gente muitas vezes passa por cima da(s) vontade(s) do(s) cliente(s) para ceder às pressões dos patrões... Para um tipo de patrões é mais cueca menos cueca, para outro tipo de patrões é mais veia menos veia, assim, só para vos dar uma ideia da coisa.

Estou com muita vontade de rescindir este contrato, como vocês devem calcular. E não é porque têm que me continuar a picar e a fazer sofrer, é essencialmente, porque a determinada altura do processo, as pessoas esquecem-se que estão a lidar com pessoas. Não são as agulhas que doem, são as palavras. Os argumentos. Os comprimidos que nos querem pôr debaixo da língua porque estamos muito alterados. O trato acriançado porque eu choro com medo. A anedota do blogue que parece que não passa de moda. É o desrespeito pelas nossas vontades que nos faz desrespeitar as vontades dos outros. É a falta de reconhecimento, verbal, que nos faz virar costas. É a falta de apoio, nos momentos chave, que nos leva a deitar fora pessoas sem olhar para trás.

Fora as ironias e os recursos estilísticos, que são a minha área de especialidade e que já me salvaram de muitos dias maus, continuo a dizer o que sempre disse sobre os médicos do Hospital de Santo António dos Capuchos: são excelentes profissionais. Sou mulherzinha para dizer o mesmo dos meus ex-patrões sem me engasgar: são muito bons naquilo que fazem. Mas que ambos fiquem bem cientes de uma coisa: eu também dei, e estou a dar o meu melhor. Respeito. É a única resposta que exijo se não forem capazes de mais nada.

Puzzle

quarta-feira, setembro 14, 2016



Neste puzzle poucas coisas fazem sentido. Dei-me conta que nunca me fotografei tanto na vida. Aliás, sempre que vou para o hospital, até me posso esquecer da roupa interior, mas nunca do caderno, da caneta, da máquina fotográfica e do computador. Gosto de contar estórias. Nos (e dos) momentos mais difíceis. Esta é a minha. Uma delas. Tenho a mania de contar os ciclos de quimioterapia pelos dedos das mãos. Nunca fui lá muito boa a fazer contas. Só sei que o pseudo-último termina no dedo do meio. Perfeito. E sim, ando à procuro da peça em falta. 

#vamos matar o bicho

Setembro

terça-feira, setembro 13, 2016

Os Setembros têm-me sido particularmente difíceis. Há dois anos atrás, (em 2014), regressava de umas férias de sonho para um trabalho penoso. As férias, que eu levei uma vida a planeá-las, foram férias, mas não foram o que eu esperava. Quando não se está inteiro, não se está bem em lado nenhum. A viagem de carro até ao aeroporto foi interrompida várias vezes à conta da minha falta de ar. Os problemas tinham ganho demasiado corpo para tão pouco oxigénio... Quando me sentei no avião, apertei o cinto, e descolámos de regresso a Lisboa só me apetecia chorar. Só me apetecia ter ficado em França, na Côte d'Azur, para todo o sempre.

A partir daí começou, efectivamente, o meu declínio. Eu já estava à beira do abismo, foi só uma questão de ir escorregando, aos poucos, até se desprenderem os últimos dedos que se mantinham agarrados a não sei bem o quê. Outubro, Novembro e Dezembro foram a evidência perfeita de que eu precisava de mudar a minha vida com urgência. Foi nessa altura que procurei ajuda psicológica e psiquiátrica para recuperar a coragem que me faltava. 

Setembro do ano passado, (2015), foi o mês em que me desfiz de tudo oficialmente. Dos bens. Materiais. Porque os males, emocionais, resistem bastante a novos (re)começos. Quando cheguei aos Açores 4 meses antes, o objectivo não era ficar, mas a matemática da vida obrigou-me a ser razoável... E acho, que acabei mesmo por gostar de lá estar. As nossas (verdadeiras) casas terão sempre um sabor a porto de abrigo. Dividir 3 anos por várias caixas de cartão foi uma tarefa mázinha... que ninguém podia fazer, senão eu. Acho que as arrumações servem para isso mesmo... Para nos fazer ter certeza das decisões que tomamos. Dar a volta a isto tudo ao mesmo tempo que combatia uma relação em estado terminal sobrecarregou-me. A alma.

Este Setembro, o de hoje, o de agora, está parecido à viagem de carro até ao aeroporto de que vos falei no inicio do texto. A ansiedade e o medo são magistrais porque têm que ser. Estou à espera que o telefone toque para que possa ser internada. Será o oitavo ciclo de quimioterapia. Em teoria, aquele que se quer e que se deseja o último. Eu quero muito. Quero tanto. Quero mesmo. E simultaneamente, por pequenez, aquela que é própria das pessoas de carne e osso, espero que o telefone não toque... porque se tocar, eu sei que vou ter medo. Eu já tenho.

Lembrei-me de vos falar dos Setembros porque li algures um texto da Isabel Stilwell onde ela dizia que p'ra ela os anos começavam sempre em Setembro. Desde Fevereiro que pouco me importam quando é que os anos começam. Nalguns casos, começam quando a gente quer. Noutros, quando Deus permite. O que eu sei é que este ano ainda não acabou para mim, mesmo que esteja a começar para muitos de vocês. E não ter acabado, é desesperadamente, bom sinal. 

#uma açoriana em lisboa

IV

segunda-feira, setembro 12, 2016

             Para lerem o artigo com melhor resolução, podem aceder ao site do Açoriano Oriental, clicando aqui.

#vamos matar o bicho

Senhora dos Milagres

sábado, setembro 10, 2016

Eu tenho vários amigos e amigas que não acreditam em Deus. Já vos disse isso mais do que uma vez. Eu, ao contrário deles, acredito. Ainda assim, as diferenças de crenças que nos separam nunca nos impediram de alimentar a amizade que nos une. Quando penso nisto lembro-me sempre de uma pessoa em particular. De uma amiga que conheci na rádio há uns anos atrás.

Ela não acredita em Deus, mas casou-se pela igreja por causa do namorado, hoje marido. Marido este que roubou ao seminário, vejam só... Casou de vestido vermelho, careca (por causa de uma anemia severa), de ténis, e de relógio no pulso, apesar de ter chegado à cerimónia uma hora atrasada. E, como se isso, por si só, já não fosse o suficiente contra todas as regras da igreja, a noiva foi até lá, de mota. Não foi, de todo, um casamento convencional. Mas, o amor, pode ser tudo, menos convencional, por favor. 

Ela não gosta de ler, mas diz que eu, e o meu blogue, a levámos a ler. E desde que "o bicho me pegou" que nos voltámos a aproximar, como se os votos que ela trocou, "na alegria e na tristeza, na saúde e na doença", fossem tão válidos para o amor como para a amizade. Para além de a ter levado a ler, (o que me deixei p'ra lá de orgulhosa), também a levei ao ginásio. Deu-se conta de que precisava de melhorar a sua vida, antes de entrar nos 40. Ela, que não gostava de correr, diz que corre por mim. Não há dia em que não me mande, religiosamente, uma foto dos quilómetros percorridos em cima da passadeira. Ela, que não acredita em Deus, acredita no esforço humano. E eu acredito nela.

Curiosamente, neste fim de semana, na Terceira, realiza-se a peregrinação anual da Nossa Senhora dos Milagres à qual acude a ilha inteira. Quando era canalha, (e o "canalha" em bom terceirense refere-se a jovens [sem cabeça]), ia com as minhas amigas, não porque tínhamos promessa, mas sim porque era divertido. Era aonde toda a gente estava, incluindo os rapazes que nos interessavam. Uma amiga que eu tenho por lá, que acredita plenamente em Deus, que é catequista desde que a conheço, este ano vai e vai por mim. Comoveu-me o seu gesto, como me comovem as fotos dos quilómetros da Patrícia. 

De onde ela parte, a bom ritmo, são mais ou menos 6 horas a andar, 7 se ela descansar pelo meio. O mais engraçado de tudo é que ela me revelou, numa mensagem que me enviou, que até hoje nunca tinha tido uma razão forte pr'a o fazer, (e ela já o fez inúmeras vezes), e que só tinha percebido isso comigo e com a minha estória recente. Espero, de coração, minha querida Maria, que o caminho se faça curto. E a fé maior ainda.

É curioso, não é? Como podemos ser todos tão diferentes e querer a mesma coisa.
Estou-vos muito grata. Pela amizade resiliente. Pelo amor infinito. E pela(s) caminhada(s).

#vamos matar o bicho

O não-sentir

quarta-feira, setembro 07, 2016

A minha psicóloga defende que é impossível não-sentir. Eu concordo com ela. Mas tanto ela quanto eu, (quanto vocês)... Sabemos o que fazemos, e não fazemos, para na maioria das vezes, não-sentirmos. Não sentirmos coisas que nos incomodam e que nos obrigam a sair da nossa zona de conforto. O não-sentir é uma estratégia de defesa. Não digo que seja a melhor opção. Mas que é aquela à qual recorremos com maior frequência, lá isso é.

Há uns dias atrás, quando fui ao hospital fazer o penso ao cateter, a enfermeira, que ultimamente sempre mo fizera, disse-me isto: "olhe, como nós acabámos por criar uma relação especial, gostava de lhe dizer que a partir de agora não me vai ver aqui no serviço". Eu achei a conversa normal. Sabia que ela estava temporariamente a substituir um colega e portanto, provavelmente, a razão pela qual não a iria ver mais é porque ela estaria de regresso ao serviço a onde pertencia. E ela continuou. "Vamos ser colegas". E eu, no primeiro instante, pensei como é que iríamos ser colegas se eu nem sequer estou a trabalhar... O "vamos ser colegas" não fazia sentido nenhum. Ainda pr'a mais porque eu sou jornalista e a senhora em questão é enfermeira. E ela diz: "Tenho cancro".

Senti o meu corpo imobilizar-se desde os pés até à cabeça. Senti a garganta fechar-se. O coração apertar. E os olhos prenderem no tecto. Entre as lágrimas que lhe caíam para dentro da máscara, contou-me os pormenores. Cancro da mama, pequeno, detectado a tempo, sem necessidade de tratamentos de quimioterapia. Operação e radio. É este o plano. Não disse nada. Não consegui dizer nada. Desculpe-me C. por não ter dito nada. Optei por não-sentir, (como se isso fosse possível), mas preferia ter optado por não sermos colegas. Colegas deste tipo, eu não quero nem preciso.

Não sei porquê, lembrei-me da entrevista do Éder ao Daniel Oliveira, no Alta Definição. Lembrei-me do momento final. Do olhar dele. Das palavras. "Vai correr tudo bem, vai correr lindamente". Também não sei porquê nem porque não, mas ele convenceu-me. Então, disse-lhe isso. Vai correr tudo bem. E abracei-a. Ainda bem que me lembrei do Éder porque na verdade eu não sabia mesmo o que dizer. Nunca se sabe. 

Desculpe C. eu não me ter permitido sentir. Tenho feito isso, com bastante frequência, a vida toda. Não é de agora. A minha psicóloga explicou-me que a dor, para a espécie humana, tem uma função congregadora, isto é, na teoria, nós não devíamos isolar-nos para digerir o que nos faz sofrer, sozinhos e calados. Devíamos, antes pelo contrário, juntos, dividir a dor. O que não chorei ao pé de si, chorei ao pé da minha psicóloga (e só para que saiba, ela também chorou comigo). E não chorámos porque tínhamos sentimentos de pena ou qualquer coisa que se pareça com. Chorámos porque precisávamos de chorar. Porque precisávamos de sentir... e deitar fora.

Como sei que é fã do meu blogue e dos meus textos, desejo-lhe que seja mais uma mulher dos possíveis. 
Vai correr tudo bem.

#vamos matar o bicho

Sete

segunda-feira, setembro 05, 2016

Ontem, enquanto esperava pelo sono, dei-me conta que passavam 7 meses desde que esta aventura começou. Estar longe de casa não me aflige... Vivi em Lisboa muitos anos, e quando decidi regressar aos Açores, estive lá pouco tempo (na verdade, nem deu para aquecer). A (minha) vida tem-me contrariado bastante. [sacaninha, hein?!] Tem-me feito ir quase sempre pelos caminhos mais longos, em vez de me dar hipótese de cortar pelos atalhos. Comprei algumas lutas desnecessárias, confesso, mas também estou muito segura disto: se a minha vida tivesse sido exactamente como eu a tinha planeado, não teria sido tão interessante, e tão rica, como tem sido até hoje.

Revivi o inicio. A médica sentada em frente a mim. Os gestos incontrolados que ela fazia enquanto comunicava o diagnóstico. "Oito meses e é se isto correr bem." Eu podia queixar-me. Podia, de facto, perguntar-me porque é que fui para casa, para regressar de novo a Lisboa. Podia perguntar-me porque é que descobri que tinha um cancro, na altura em que arranjei emprego, por sorte, naquilo que eu mais gosto e que escolhi fazer. Podia perguntar-me porque é que a notícia chegou no mesmo dia em que o meu tio, irmão da minha mãe, morreu. Podia queixar-me das dores. Dos sustos. Das noites mal dormidas. Dos imprevistos. Dos compassos de espera. Dos corações nas mãos... De tudo o que não estava planeado acontecer e aconteceu. 

Sempre disse que as coisas entre mim e Deus estavam bem resolvidas. E continuam assim. Eu podia queixar-me. E podia, efectivamente, entristecer-me, como é natural. Talvez, alguma parte de mim, antes do cancro, fosse bem capaz de ir por aí. Mas, ao contrário do expectável, senti-me inundada por um sentimento com boa raíz. Senti-me grata. E feliz. Por cada dia que passou nestes últimos 7 meses da minha vida. Transformei o sofrimento numa pequena vitória e nunca imaginei que conseguisse fazer isso com a facilidade com que fiz. Este cancro, (que é outro sacaninha também!), tem-me ensinado muito. 

Nesse dia, o dia do diagnóstico, eu disse à médica que estava preparada. Tenho esta mania de aceitar desafios, mesmo sem saber o tamanho deles. Sempre fui assim. Inconsequente (de uma forma responsável). Ela respondeu-me: "não estás, ninguém está". E de facto, tenho de lhe dar razão. Não estava. Nunca se está. As doenças, por mais infelizes que sejam, têm uma coisa boa: fazem-nos abrir mão das nossas certezas. Tornam-nos mais humildes. E mais humanos. Obrigam-nos a recalcular trajectos. E renovam-nos a alma que carregamos.

Hoje, eu sei o que é um dia verdadeiramente bom. E isso é tudo o que importa.

#vamos matar o bicho

A culpa foi do sofá

domingo, setembro 04, 2016

Um sofá é a coisa mais importante de uma casa. É para onde a gente mergulha ao fim do dia na esperança de apagar os menos bons. É o sítio ideal para reflectir sobre os mais ou menos. E é onde, sem querer, às vezes, damos por nós a sonhar acordados. Desde que vim para a faculdade, (há 14 anos atrás), nunca tive um sofá de jeito. Nos últimos dois anos em que vivi em Lisboa não tive mesmo sofá (a casa era pequena demais para me dar a esses luxos das pessoas normais). 

Na casa onde vivi durante a faculdade, o que servia de sofá era na realidade uma cama. Dava muito jeito para receber hóspedes, mas não dava jeito para passar muito tempo lá sentado. Era impossível. Assim que uma pessoa se encostava, a pálpebra distendia. O que vale é que era uma casa de mulheres, maioritariamente de humanidades. Isto é, as licenciaturas sobreviveram, com sucesso, aos efeitos nefastos do sofá-cama.

Acabou-se o curso. Mudei de casa. Fui morar para a Expo. Morar na Expo estava na moda. Era chique p'ra déudéu e ainda estava longe de ser povoada por chineses. Esqueci-me de um pormenor: não tinha dinheiro suficiente para pagar a renda que pediam. Eu, e as minhas duas colegas de casa, também da Terceira, resolvemos a situação assim: abdicámos da sala e fizemos dela um 4º quarto. Bye bye sofá, oh sorte danada!

Quando saí da casa na Expo, saí de Portugal. Foi na altura em que fui para Espanha e estive lá dois anos a trabalhar em televisão (e não só). Sobre os sofás espanhóis também havia muito por dizer, mas não quero fazer deste post um presunto ibérico de pata negra. Quando regressei a Portugal fui viver para Telheiras (sim, eu sou uma menina de bem, se é isso que estão a pensar neste preciso momento). A casa onde vivia tinha um sofá e uma poltrona, portanto, ou estava a minha colega no sofá ou estava eu. Era como o sistema de senhas da segurança social, tínhamos que aguardar pela nossa vez. 

Na época a crise estoirou (se bem que eu acho que sempre andámos em crise). A renda da casa tornou-se incompatível com a minha vida de freelancer (à força). Portanto, era preciso um plano de recapitalização, antes que eu mesma entrasse em insolvência. Procurei uma casa nova e abri um processo de recrutamento para encontrar uma criatura que se juntasse à festa... das contas por pagar. Fui morar para... tcham tcham tcham... a Avenida de Roma. Vá, uma pessoa pode ficar pobre, mas não pode perder o astuto. Não era bem bem Avenida de Roma, era uma transversal, mas vai dar ao mesmo. Tínhamos um sofá, a desintegrar-se. Custa-me a acreditar como é que ele se aguentou durante o tempo que lá estivemos. Éramos 3 e gostávamos muito de ver televisão. O sofá dessa casa era o equivalente ao metro da linha verde na hora de ponta (digo verde, porque suprimiram umas quantas carruagens não sei bem porquê). 

Finalmente a economia recuperou. [A minha. A do país não.] Recuperou à custa de me enfiar numa loja a vender soutiens e cuecas. Consegui a emancipação. Antes dos 30. Significou muito p'ra mim. Fui viver sozinha. Para Santos. Mesmo por detrás da Botica (os amantes da pinga reconhecerão com facilidade a localização). Aos amigos cócos eu dizia que vivia na Lapa. Ficava pertinho. Era uma mentira com perna curta. A casa, um T1 de 30m2 não tinha sofá. Tinha uma poltrona solitária onde eu me recostava quando podia. Não ter sofá acho que tornou a minha vida mais amarga... pelo menos, mais dorida, tornou de certeza. Andar o dia inteiro, em pé, a vender soutiens e cuecas deu-me cabo do corpicho, principalmente das costas e das pernas. Fazer xixi naquela loja era um momento de alegria... Um presente dos deuses. Ao menos aí, uma pessoa sentava-se, nem que fosse por 5 minutos. Eu devia era ter mijado num penico e dado a beber aos meus antigos chefes... mas isso são outras estórias e eu sou uma menina de bem, não é verdade?

Para além de não me poder refastelar no sofá quando chegava a casa, também não podia convidar muita gente pr'a ir lá a casa. E quando lá ia o meu ex-namorado, um ficava na poltrona, o outro ficava na cadeira. A relação já de si não era boa, mas este desnível de hierarquias não veio ajudar muito. Depois da minha luta adversa pela emancipação, eu cheguei à conclusão que a emancipação que eu tinha não me servia p'ra nada. Não (me) servia p'ra ser feliz. E foi por isso que ao fim de 14 anos e de muitas casas sem sofá, eu decidi voltar aos Açores. E aí sim, pude encostar-me no meu grande sofá, [daqueles de canto, tão a ver?] e descansar. Foi por pouco tempo, é verdade... Parece que a vida não me quer parada apesar de me ter parado (por uns tempos).

A Canada da Bezerra, onde eu vivo, não é um lugar chique. É um caminho secundário, cheio de covas e de merda de vaca, (desculpem hoje ter falado muito em cóco e xixis, isto nem sequer é meu...), ladeado por cerrados e uma casa aqui, outra ali. Mas é lá que está a porra de um sofá à minha espera.

#vamos matar o bicho

Quando ninguém nos vê

sábado, setembro 03, 2016

As noites são o mais difícil [para além de todas as dores físicas]. As luzes apagam-se, mas a cabeça não desliga. Desde há muito tempo que eu não sei o que é adormecer naturalmente. [confesso que sinto falta dessa sensação de aparente normalidade]. Desde há muito tempo que eu não durmo sem antes chorar. [tornou-se habitual]. É o momento do dia em que caem as máscaras. E em que se depura tudo o que nos vai dentro. 

De dia até é fácil. [relativamente fácil]. A quimioterapia, a medicação e os antibióticos a que normalmente estamos sujeitos funcionam como uma ratoeira para atrair o sono. [ainda que seja um sono forçado pelas circunstâncias]. Mas à noite... À noite nenhuma droga é mais forte que os nossos próprios pensamentos. 

Nos primeiros dois meses que passei nos Capuchos, dormi uma média de 3/4 horas por noite. Adormecia, normalmente, vencida pelo cansaço. Quando estive na UUM (Unidade de Urgência Médica) do São José, aí não dormi nada mesmo. Tinha medo de fechar os olhos. Como ainda tenho, hoje em dia. Para além do adormecer ser ter tornado difícil, também deixei de ter sonhos. Esperem. Não é assim. Eu não deixei de ter sonhos, deixei de sonhar durante os sonos. O pouco que durmo é um vazio. Calmo, tal e qual como se pretende.

O sono para mim, a partir de uma determinada idade, nunca me foi fácil. Eu que nunca acordava só com o despertador. [os meus pais, que saíam mais cedo de casa para trabalhar, ligavam, religiosamente, todos os dias da semana, para o telefone fixo de casa para obrigar-me a levantar o cu da cama, caso contrário, eu só chegava à escola depois do meio-dia]. Acho que à medida que a vida se complica, se torna mais dura e mais pesada, a gente dorme menos, não sentem o mesmo? 

Não sei como é que vai ser dormir daqui p'ra frente. Não sei mesmo. Claro que tenho a ajuda das drogas para garantir, pelo menos, 8 a 9 horas de escuro. Mas será que algum dia eu vou voltar a sentir o sono inebriar-me os sentidos? Dizem que à medida que a gente caminha para velhos, [e velho, para mim, é uma palavra bonita], dormimos menos. Então... Que as minhas noite em claro sejam um sinal de longevidade. 

#vamos matar o bicho

Fora de jogo

sexta-feira, setembro 02, 2016

Por vos ter falado no dilema da minha amiga, lembrei-me de uma estória minha. Há uns atrás apaixonei-me por um rapaz mais novo do que eu. Apaixonar-me por rapazes mais novos do que eu nunca foi coisa que me assistisse (por muito tempo). Sempre tive um fraquinho, confesso, por homens mais velhos. Aliás, contam-se pelos dedos as espécies com quem me relacionei nascidas nos 80. Aquilo nem foi bem apaixonar-me. Foi assim uma coisa híbrida, entre o querer muito apaixonar-me, de verdade, e o achar que não era nada boa ideia. Tal e qual como a minha amiga. E no meu caso, não era mesmo.

Para além de ser mais novo, o rapaz tinha outro factor que não jogava nada a seu favor. Quer dizer, a favor dele até jogava muito bem, a meu favor é que não. O moço não era de Lisboa. Era da serra. Lá para o centro do país. Fez-me gastar uns tostões valentes, comboio p'ra cima, comboio p'ra baixo, muitas das vezes para estarmos juntos apenas umas horas. Mas eu gostava. Mais da adrenalina das viagens do que propriamente dele. Era uma novidade. E as novidades têm um prazo delicioso, embora extremamente curto. Nem se comparam aos iogurtes.

Diz que chegou o aniversário da criança e eu que até tenho alguns contactos, mexi os cordelinhos para lhe oferecer uma coisa que fosse sinónimo das expectativas que eu depositava na grande esperança em que a criatura se convertera. Nunca mais me esqueci desse dia. Chovia torrencialmente em Lisboa, mas ainda assim, fiz-me à tempestade. Consegui enfiar uma bola dentro do balneário do Benfica e pedi ao plantel inteiro que a autografasse. Uma mulher que ama o fêquêpê como eu amo, e que sai de casa debaixo de chuva, torrencial, para fazer uma coisa destas, só pode ser louca. E não, não era de amor.

A criatura, depois de uma viagem de trabalho, chegava a Lisboa no dia do próprio aniversário, e lá fui eu armada em Madre Teresa dos Apaixonados Inconscientes para a Portela, com a bola ao colo. Infelizmente, e agora isto é a sério, o pai dele já tinha falecido, e esse era um assunto proibido, no qual não se podia tocar. Vê-lo a olhar para aquela bola, foi vê-lo ainda mais criança do aquilo que ele era. Foi sobretudo oferecer-lhe a possibilidade de viajar no tempo, até ao que de mais genuíno nós todos temos. Posso estar a vangloriar-me sem justificação, mas acho que até aquela data nunca ninguém lhe tinha dado uma prenda de verdade. 

Passado uns tempos, a coisa começou a esfriar. As relações à distância só dão certo quando as pessoas que estão nelas querem que elas efectivamente dêem certo, e mesmo assim, é difícil. Havia um pequeno problema, ligeiramente fundamental à sobrevivência das relações saudáveis: a exclusividade. Palavra que não constava de todo do vocabulário do moço. Levou com um cartão vermelho obviamente e acabou-se a brincadeira.

Foi um bocadinho frustrante o campeonato ter acabado ali, em pleno Natal... com uma entrada tão baixa. Mas serviu para perceber que eu jogava na Champions e ele na 3ª divisão. É que nestas coisas eu sou como o Jorge Mendes, só entro para ganhar, e a pessoinha de quem vos falo, no mercado de transferências, não me rendeu nada, a não ser uns passeios por Portugal fora. Não obstante, nunca me hei-de esquecer da cara dele a olhar para a bola. Era um puto sem cabeça. Era. Mas ao menos fi-lo feliz um dia. E é isso o que fica das pessoas. As boas acções. As dádivas. Os esforços. Mesmo que elas não percebam assim à primeira...

É claro que depois desta aventura não houve cá mais bolas p'ra mais nenhum. Houveram outras coisas, menos clubísticas. E porventura, menos ingénuas também. Mas, dar, continua a ser uma coisa boa. Mesmo boa. 

#vamos matar o bicho

Anel de Rubi

quinta-feira, setembro 01, 2016

Eu tenho uma amiga que quando se apaixona fica virada do avesso. Gosto de ouvi-la falar, particularmente, nestas alturas em que o coração parece fugir-lhe pela boca. Contra as incertezas da vida, o "virada do avesso" dela parece-me o seu lado mais certo. Alinhada com o universo, a miúda de quem vos falo, fica ainda mais espectacular do que já é. Desde que estou em Lisboa as estórias da sua vida amorosa fazem-me esquecer as estórias da minha vida com cancro. É por isso que eu torço por finais felizes. Principalmente os dela.

Da última vez que nos vimos tudo nela era diferente. Diferente do normal a que já estou habituada. Sim, ela conheceu alguém. Há um responsável por isso. O estado de graça em que entramos quando nos apaixonamos é ri-dí-cu-lo, (não lhe posso chamar outra coisa), mas é também o que nos aproxima mais do que verdadeiramente somos. E como em todas as boas telenovelas da vida, coloca-se um dilema moderno: são (quase) melhores amigos, falam um com o outro de manhã até à noite, confiam segredos e juntam-se, regularmente, para (re)descobrir Lisboa. O problema?! O problema é este: ela não sabe o que fazer. 

Não sabe se há-de bater retirada antes que a coisa vá mais longe do que já foi ou se há-de se manter firme, até onde o amor, a sós ou a dois, a levar. É o que eu digo, isto antigamente é que era simples: casamentos arranjados e ninguém piava. Estas modernices do apaixonar-se e ser correspondido só costumam dar m@rda. Mas não, não é isso que eu desejo à minha amiga. Ela perguntou-me o que fazer e eu respondi-lhe que fosse em frente. Normalmente é o que respondo sempre a quem me faz perguntas deste tipo. Ninguém consegue impedir um coração de sentir aquilo que ele quer sentir. Sinto-me demasiado poética a escrever-vos isto, mas é verdade, não é?

Contudo, e porque ela é uma mulher muito inteligente, senti necessidade de suplantar a minha opinião. A nossa vida é feita de muitas coisas que nós desconhecemos (e com as quais não sabemos lidar), mas também é feita de emoções raras e apaixonar-se é uma delas. Se a paixão fosse um sentimento banal acho que estaríamos todos bem arranjadinhos... Ou como dizia o outro, mal emparelhados. E agora que se me deu esta travadinha do "alto e pára o baile" por uns tempos, só te tenho a dizer uma coisa amiga: não te dês ao luxo de não te apaixonares... as vezes que forem preciso, sempre que for preciso.

Eu sei que és cautelosa e que a coisa não se dá ao virar da esquina, mas a paixão fica-te tão bem que seria um desperdício não a aproveitares. P.s - isto não serve só para a minha amiga, ouviram? Serve para quem estiver com medo de dar o primeiro passo. Os passos seguintes. Os passos que forem preciso. E às vezes são precisos passos de volta a casa, de braços vazios, porque afinal de contas, nem sempre se ouve a mesma canção, em uníssono, certo? Que sa f#d@. Não fui eu que disse. Foi o Cristiano Ronaldo... e até correu bem.