A culpa foi do sofá

domingo, setembro 04, 2016

Um sofá é a coisa mais importante de uma casa. É para onde a gente mergulha ao fim do dia na esperança de apagar os menos bons. É o sítio ideal para reflectir sobre os mais ou menos. E é onde, sem querer, às vezes, damos por nós a sonhar acordados. Desde que vim para a faculdade, (há 14 anos atrás), nunca tive um sofá de jeito. Nos últimos dois anos em que vivi em Lisboa não tive mesmo sofá (a casa era pequena demais para me dar a esses luxos das pessoas normais). 

Na casa onde vivi durante a faculdade, o que servia de sofá era na realidade uma cama. Dava muito jeito para receber hóspedes, mas não dava jeito para passar muito tempo lá sentado. Era impossível. Assim que uma pessoa se encostava, a pálpebra distendia. O que vale é que era uma casa de mulheres, maioritariamente de humanidades. Isto é, as licenciaturas sobreviveram, com sucesso, aos efeitos nefastos do sofá-cama.

Acabou-se o curso. Mudei de casa. Fui morar para a Expo. Morar na Expo estava na moda. Era chique p'ra déudéu e ainda estava longe de ser povoada por chineses. Esqueci-me de um pormenor: não tinha dinheiro suficiente para pagar a renda que pediam. Eu, e as minhas duas colegas de casa, também da Terceira, resolvemos a situação assim: abdicámos da sala e fizemos dela um 4º quarto. Bye bye sofá, oh sorte danada!

Quando saí da casa na Expo, saí de Portugal. Foi na altura em que fui para Espanha e estive lá dois anos a trabalhar em televisão (e não só). Sobre os sofás espanhóis também havia muito por dizer, mas não quero fazer deste post um presunto ibérico de pata negra. Quando regressei a Portugal fui viver para Telheiras (sim, eu sou uma menina de bem, se é isso que estão a pensar neste preciso momento). A casa onde vivia tinha um sofá e uma poltrona, portanto, ou estava a minha colega no sofá ou estava eu. Era como o sistema de senhas da segurança social, tínhamos que aguardar pela nossa vez. 

Na época a crise estoirou (se bem que eu acho que sempre andámos em crise). A renda da casa tornou-se incompatível com a minha vida de freelancer (à força). Portanto, era preciso um plano de recapitalização, antes que eu mesma entrasse em insolvência. Procurei uma casa nova e abri um processo de recrutamento para encontrar uma criatura que se juntasse à festa... das contas por pagar. Fui morar para... tcham tcham tcham... a Avenida de Roma. Vá, uma pessoa pode ficar pobre, mas não pode perder o astuto. Não era bem bem Avenida de Roma, era uma transversal, mas vai dar ao mesmo. Tínhamos um sofá, a desintegrar-se. Custa-me a acreditar como é que ele se aguentou durante o tempo que lá estivemos. Éramos 3 e gostávamos muito de ver televisão. O sofá dessa casa era o equivalente ao metro da linha verde na hora de ponta (digo verde, porque suprimiram umas quantas carruagens não sei bem porquê). 

Finalmente a economia recuperou. [A minha. A do país não.] Recuperou à custa de me enfiar numa loja a vender soutiens e cuecas. Consegui a emancipação. Antes dos 30. Significou muito p'ra mim. Fui viver sozinha. Para Santos. Mesmo por detrás da Botica (os amantes da pinga reconhecerão com facilidade a localização). Aos amigos cócos eu dizia que vivia na Lapa. Ficava pertinho. Era uma mentira com perna curta. A casa, um T1 de 30m2 não tinha sofá. Tinha uma poltrona solitária onde eu me recostava quando podia. Não ter sofá acho que tornou a minha vida mais amarga... pelo menos, mais dorida, tornou de certeza. Andar o dia inteiro, em pé, a vender soutiens e cuecas deu-me cabo do corpicho, principalmente das costas e das pernas. Fazer xixi naquela loja era um momento de alegria... Um presente dos deuses. Ao menos aí, uma pessoa sentava-se, nem que fosse por 5 minutos. Eu devia era ter mijado num penico e dado a beber aos meus antigos chefes... mas isso são outras estórias e eu sou uma menina de bem, não é verdade?

Para além de não me poder refastelar no sofá quando chegava a casa, também não podia convidar muita gente pr'a ir lá a casa. E quando lá ia o meu ex-namorado, um ficava na poltrona, o outro ficava na cadeira. A relação já de si não era boa, mas este desnível de hierarquias não veio ajudar muito. Depois da minha luta adversa pela emancipação, eu cheguei à conclusão que a emancipação que eu tinha não me servia p'ra nada. Não (me) servia p'ra ser feliz. E foi por isso que ao fim de 14 anos e de muitas casas sem sofá, eu decidi voltar aos Açores. E aí sim, pude encostar-me no meu grande sofá, [daqueles de canto, tão a ver?] e descansar. Foi por pouco tempo, é verdade... Parece que a vida não me quer parada apesar de me ter parado (por uns tempos).

A Canada da Bezerra, onde eu vivo, não é um lugar chique. É um caminho secundário, cheio de covas e de merda de vaca, (desculpem hoje ter falado muito em cóco e xixis, isto nem sequer é meu...), ladeado por cerrados e uma casa aqui, outra ali. Mas é lá que está a porra de um sofá à minha espera.

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2 comments

  1. Que post fofo, sentimental!
    Como é que um sofá pode fazer uma pessoa feliz?
    Sabe? Depois de uma tarde de merda (desculpe) a ler e-mails, a ler blogs a comentar, a jantar tarde porque as horas passaram sem que desse por elas, e com uma dor nas costas de estar sentada na cadeira, lembrei-me que já não vinha ao seu canto há alguns dias.
    Comentei comigo " estou farta de pc mas não o desligo sem antes ler os posts da CC. Não posso falhar".
    CC, o seu sofá já esteve mais longe.
    E daqui, vou para o meu sofá. Chega de pc por hoje.
    As melhoras.
    Beijinho

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