Amigos Improváveis

domingo, setembro 18, 2016

Estava aqui a pensar no que leva as pessoas a serem amigas de outras pessoas... Se o amor é complicado, a amizade não é menos. Lembrei-me de um amigo meu de quem tenho muitas saudades. Conheci-o naquela fase terrível pela qual muitos de nós já passámos: a fase de desilusão em relação às escolhas profissionais que fizemos. Não é uma fase bonita. São ali uns bons meses, duros, a remoer muita coisa. Eu e ele estávamos no mesmo barco. Um barco que tínhamos a perfeita noção que se estava a afundar... mas, isso foi de longe, a melhor parte da estória!

Quando eu optava por não passar os dias no sofá, a combater os danos colaterais do desemprego, enviava-lhe mensagens subliminares: "vamos despedaçar-nos para o bairro?" e ele respondia-me: "à hora do costume, no sítio do costume". Nunca precisámos de mais do que isso. Nunca precisámos de justificações. Nunca precisámos de explicações. Nunca precisámos de pedir desculpa por quem éramos naquela altura, pelo que fazíamos, nem pelo que sentíamos. Acho que os amigos são muito isso. Acho que os amigos são aqueles que amam, sem esforço, aquilo que nós somos de verdade.

Nesses tempos, vivíamos no bairro alto de segunda a segunda. Não houve bar que a gente não picasse. Descobrimos os encantos e desencantos da noite juntos. Ele tentava fazer-me arranjinhos e eu a ele. Discutíamos moda e looks como se fôssemos dois peritos na matéria. De vez em quando empregávamos uma ou duas palavras francesas nos nossos diálogos porque nos dava para o chique... ou porque estávamos bêbados. Um dia levou-me a jantar ao continente da Moita. Voltámos para Lisboa, pela Vasco da Gama, de vidros abertos a cantar, desafinadamente, o "Recordar é Viver" do Vítor Espadinha. Disse-lhe que ia gastar os meus últimos 200€ do mês para ir a Madrid a um casting para um canal de televisão. Saímos da ponte direitos ao aeroporto. Sem perguntas. Sem críticas. Sem olhares reprovadores.

Quando voltei, ele estava à minha espera. "Grande merda, dei cabo do dinheiro todo e não me escolheram". Bem que ele tentou disfarçar, mas não conseguiu. Desmanchou-se a rir na minha cara. "Tu já sabias disso". Só discutimos uma vez por causa de uns mocassins horríveis em pele que ele tinha comprado. "Assim toda a gente vai perceber que tu gostas de homens". Não conseguimos controlar as gargalhadas que nos assaltaram aos dois. Era-nos muito fácil rir quando estávamos juntos. E isso também é um sinal das amizades naturais. Ele emigrou e eu tomei juízo. Mas um dia soube que ele tinha voltado.

O meu ex-namorado não gostava que fôssemos amigos. Não foi por isso que o deixámos de ser, mas talvez tenha sido por sido que nunca mais voltámos a sê-lo. A última vez que o vi, estava ele a descer a calçada da Bica, acompanhado por uma rapariga. Gritei pelo nome dele. Virou o rosto na minha direcção e piscou-me o olhou. Talvez porque eu estava acompanhada não me veio falar. Seguiu caminho. E desapareceu. Nunca mais soube nada dele. Mas dava-me jeito encontrá-lo. Tenho a certeza que nos íamos rir muito com a porcaria toda que nos aconteceu entretanto. Sem esforço, como é evidente.

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3 comments

  1. Bela estória, CC.
    Procure-o.
    Beijinho

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    1. Tenho tentado, mas acho que ele quis mesmo "desaparecer".
      Beijinhos

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  2. Não sei, não, CC.
    O mundo é tão pequeno!

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