Fora de jogo

sexta-feira, setembro 02, 2016

Por vos ter falado no dilema da minha amiga, lembrei-me de uma estória minha. Há uns atrás apaixonei-me por um rapaz mais novo do que eu. Apaixonar-me por rapazes mais novos do que eu nunca foi coisa que me assistisse (por muito tempo). Sempre tive um fraquinho, confesso, por homens mais velhos. Aliás, contam-se pelos dedos as espécies com quem me relacionei nascidas nos 80. Aquilo nem foi bem apaixonar-me. Foi assim uma coisa híbrida, entre o querer muito apaixonar-me, de verdade, e o achar que não era nada boa ideia. Tal e qual como a minha amiga. E no meu caso, não era mesmo.

Para além de ser mais novo, o rapaz tinha outro factor que não jogava nada a seu favor. Quer dizer, a favor dele até jogava muito bem, a meu favor é que não. O moço não era de Lisboa. Era da serra. Lá para o centro do país. Fez-me gastar uns tostões valentes, comboio p'ra cima, comboio p'ra baixo, muitas das vezes para estarmos juntos apenas umas horas. Mas eu gostava. Mais da adrenalina das viagens do que propriamente dele. Era uma novidade. E as novidades têm um prazo delicioso, embora extremamente curto. Nem se comparam aos iogurtes.

Diz que chegou o aniversário da criança e eu que até tenho alguns contactos, mexi os cordelinhos para lhe oferecer uma coisa que fosse sinónimo das expectativas que eu depositava na grande esperança em que a criatura se convertera. Nunca mais me esqueci desse dia. Chovia torrencialmente em Lisboa, mas ainda assim, fiz-me à tempestade. Consegui enfiar uma bola dentro do balneário do Benfica e pedi ao plantel inteiro que a autografasse. Uma mulher que ama o fêquêpê como eu amo, e que sai de casa debaixo de chuva, torrencial, para fazer uma coisa destas, só pode ser louca. E não, não era de amor.

A criatura, depois de uma viagem de trabalho, chegava a Lisboa no dia do próprio aniversário, e lá fui eu armada em Madre Teresa dos Apaixonados Inconscientes para a Portela, com a bola ao colo. Infelizmente, e agora isto é a sério, o pai dele já tinha falecido, e esse era um assunto proibido, no qual não se podia tocar. Vê-lo a olhar para aquela bola, foi vê-lo ainda mais criança do aquilo que ele era. Foi sobretudo oferecer-lhe a possibilidade de viajar no tempo, até ao que de mais genuíno nós todos temos. Posso estar a vangloriar-me sem justificação, mas acho que até aquela data nunca ninguém lhe tinha dado uma prenda de verdade. 

Passado uns tempos, a coisa começou a esfriar. As relações à distância só dão certo quando as pessoas que estão nelas querem que elas efectivamente dêem certo, e mesmo assim, é difícil. Havia um pequeno problema, ligeiramente fundamental à sobrevivência das relações saudáveis: a exclusividade. Palavra que não constava de todo do vocabulário do moço. Levou com um cartão vermelho obviamente e acabou-se a brincadeira.

Foi um bocadinho frustrante o campeonato ter acabado ali, em pleno Natal... com uma entrada tão baixa. Mas serviu para perceber que eu jogava na Champions e ele na 3ª divisão. É que nestas coisas eu sou como o Jorge Mendes, só entro para ganhar, e a pessoinha de quem vos falo, no mercado de transferências, não me rendeu nada, a não ser uns passeios por Portugal fora. Não obstante, nunca me hei-de esquecer da cara dele a olhar para a bola. Era um puto sem cabeça. Era. Mas ao menos fi-lo feliz um dia. E é isso o que fica das pessoas. As boas acções. As dádivas. Os esforços. Mesmo que elas não percebam assim à primeira...

É claro que depois desta aventura não houve cá mais bolas p'ra mais nenhum. Houveram outras coisas, menos clubísticas. E porventura, menos ingénuas também. Mas, dar, continua a ser uma coisa boa. Mesmo boa. 

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4 comments

  1. Respostas
    1. Obrigada Lua! Fico muito feliz com o seu comentário :)
      Beijinho

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  2. Espectáculo, CC!
    Menina de aventuras e de decisões firmes.
    Ai, tantas asneiras que fiz, também., mas as minhas foram por paixão.
    Beijinho

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    1. Era uma tentativa de paixão, mas durou pouco.
      Faz parte. Afinal de contas, nem tudo pode durar para sempre, senão como é que escolheríamos as pessoas, os amores, os amigos, de toda a vida?

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