Hop on Hop off

sexta-feira, setembro 23, 2016

Apaixonei-me a valer, pela primeira vez. [sempre que nos voltamos a apaixonar, a valer, as vezes anteriores deixam de contar]. Não estava nos planos. Nem nos dele nem nos meus. Quando o vi, não me despertou o mínimo interesse. Não o entendia. Ele era francês, eu era portuguesa e nenhum de nós dominava suficientemente bem o espanhol para nos expressarmos convenientemente. Sentou-se ao meu lado no Hop on Hop Off que nos deu a conhecer Valencia, num dia de chuva bastante cinzento. Convidou-me a partilhar o Ipod dele. E durante o percurso inteiro, não abriu a boca. Um dia de chuva, com música, não é um dia de chuva qualquer.

No mesmo dia, à noite, convidou-me para sair. Aceitei. Fomos ao bar ao lado da residência universitária onde estávamos alojados. Falámos imenso, ainda hoje, não sei de quê. Eu acenava-lhe com a cabeça que sim, que o entendia na perfeição, e ele respondia da mesma forma. As primeiras palavras que trocámos serão para sempre uma incógnita. Começou a sentar-se ao pé de mim no autocarro que apanhávamos todos os dias para ir para o curso de espanhol. Um dia, discretamente, deu-me a mão e eu nunca mais a larguei. Foram 2 anos soberbamente bons até ao dia em que deixámos, efectivamente, de nos compreender.

Eu insisti, como muitas mulheres insistem. Estava disposta a abdicar de tudo. Do meu país, dos meus amigos, da minha família... até mesmo de mim, só para ficar ao lado dele. E ele disse que não. Que nunca se perdoaria se eu não tivesse sido aquilo que eu queria ser por causa dele. A despedida foi como todas as despedidas são, dolorosa. Apareceu-me, várias vezes, a meio da noite, à porta do meu prédio. Pedia-me para descer, abraçava-me e ia-se embora. Andámos nisto um mês. Chorávamos sempre que estávamos juntos. No dia em que me vim embora, deixou-me no aeroporto e perguntou-me quando é que eu voltava. Não lhe respondi. Enfiei-me no avião e não consegui chorar. Acho que foi nesse dia, nesse momento, nessa viagem, que tranquei uma parte de mim. A parte que me permitia, sem opressões, apaixonar-me por pessoas em dias de chuva.

Não voltei. Não voltei lá. Não voltei p'ra ele. Nem voltei a vê-lo. Um dia, já em Lisboa, estava à mesa com a pessoa que lhe seguiu. O então meu namorado quis saber da estória. Quando lhe contei, atirou-me, à falsa fé, um "se ele não ficou contigo é porque não gostava de ti". Faltou muito pouco para lhe atirar com o prato da sopa. Naquele amor eu não deixava que ninguém tocasse. Acreditei durante muito tempo, (e ainda acredito um bocadinho), que apesar de termos deixado de gostar de estar juntos, não tínhamos deixado de gostar um do outro... E isso é uma grande merda quando acontece. 

Foi o amor mais honesto que eu tive. E non, je ne regrette rien. Apesar de não termos ficado juntos, tivemos uma relação bonita... E as relações bonitas servem sempre de comparação, de umas para as outras. Na altura, não percebi porque é que ele me rejeitava. Mas hoje, consigo entendê-lo perfeitamente. E muito sinceramente, até lhe estou grata. Ele sabia-o. Ele sabia que eu não seria feliz deixando tudo para trás. Ele sabia que eu não era esse tipo de pessoa. E estava certo. Mais do que eu. Às vezes, em determinadas relações, não conseguimos, de facto, crescer juntos, mas podemos continuar a crescer uns com os outros. 

Se tenho saudades dele? Algumas. Era uma pessoa simples. Amigo. Pai. Irmão. E não raras vezes, educador de infância. [eu reconheço as minhas birras quando assim tem de ser]. E eu era perdidamente apaixonada por ele. Perdida, como quem se perde pela primeira vez. O amor que tínhamos um pelo outro resistiu durante muito tempo à impaciência e à frivolidade e acabou como todos os amores acabam: asfixiado. Porque é que vos contei isto? Porque alguém comentou a respeito deste post, que não se devia dar muito importância à dor. Certo. No entanto, há dores que tem que doer e a gente não pode fazer nada para alterar isso... Da mesma forma que existem finais felizes sem pessoas felizes e dias de chuva sem música de fundo. C'est la vie. 

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2 comments

  1. Penso que já tinha escrito algo sobre esta pessoa.
    Quero dizer-lhe que há paixões que marcam para toda a vida, não pelo mal que nos fizeram, mas pelos momentos únicos que se viveram.
    Beijinho

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    1. Sim Maria, já tinha escrito já.
      A generosidade de certas pessoas comove-me.
      A do Karl, o francês, era enorme, por isso, de tempos a tempos, regresso a ela para me lembrar do que é efectivamente importante nesta vida.
      Beijinho grande :)

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