O não-sentir

quarta-feira, setembro 07, 2016

A minha psicóloga defende que é impossível não-sentir. Eu concordo com ela. Mas tanto ela quanto eu, (quanto vocês)... Sabemos o que fazemos, e não fazemos, para na maioria das vezes, não-sentirmos. Não sentirmos coisas que nos incomodam e que nos obrigam a sair da nossa zona de conforto. O não-sentir é uma estratégia de defesa. Não digo que seja a melhor opção. Mas que é aquela à qual recorremos com maior frequência, lá isso é.

Há uns dias atrás, quando fui ao hospital fazer o penso ao cateter, a enfermeira, que ultimamente sempre mo fizera, disse-me isto: "olhe, como nós acabámos por criar uma relação especial, gostava de lhe dizer que a partir de agora não me vai ver aqui no serviço". Eu achei a conversa normal. Sabia que ela estava temporariamente a substituir um colega e portanto, provavelmente, a razão pela qual não a iria ver mais é porque ela estaria de regresso ao serviço a onde pertencia. E ela continuou. "Vamos ser colegas". E eu, no primeiro instante, pensei como é que iríamos ser colegas se eu nem sequer estou a trabalhar... O "vamos ser colegas" não fazia sentido nenhum. Ainda pr'a mais porque eu sou jornalista e a senhora em questão é enfermeira. E ela diz: "Tenho cancro".

Senti o meu corpo imobilizar-se desde os pés até à cabeça. Senti a garganta fechar-se. O coração apertar. E os olhos prenderem no tecto. Entre as lágrimas que lhe caíam para dentro da máscara, contou-me os pormenores. Cancro da mama, pequeno, detectado a tempo, sem necessidade de tratamentos de quimioterapia. Operação e radio. É este o plano. Não disse nada. Não consegui dizer nada. Desculpe-me C. por não ter dito nada. Optei por não-sentir, (como se isso fosse possível), mas preferia ter optado por não sermos colegas. Colegas deste tipo, eu não quero nem preciso.

Não sei porquê, lembrei-me da entrevista do Éder ao Daniel Oliveira, no Alta Definição. Lembrei-me do momento final. Do olhar dele. Das palavras. "Vai correr tudo bem, vai correr lindamente". Também não sei porquê nem porque não, mas ele convenceu-me. Então, disse-lhe isso. Vai correr tudo bem. E abracei-a. Ainda bem que me lembrei do Éder porque na verdade eu não sabia mesmo o que dizer. Nunca se sabe. 

Desculpe C. eu não me ter permitido sentir. Tenho feito isso, com bastante frequência, a vida toda. Não é de agora. A minha psicóloga explicou-me que a dor, para a espécie humana, tem uma função congregadora, isto é, na teoria, nós não devíamos isolar-nos para digerir o que nos faz sofrer, sozinhos e calados. Devíamos, antes pelo contrário, juntos, dividir a dor. O que não chorei ao pé de si, chorei ao pé da minha psicóloga (e só para que saiba, ela também chorou comigo). E não chorámos porque tínhamos sentimentos de pena ou qualquer coisa que se pareça com. Chorámos porque precisávamos de chorar. Porque precisávamos de sentir... e deitar fora.

Como sei que é fã do meu blogue e dos meus textos, desejo-lhe que seja mais uma mulher dos possíveis. 
Vai correr tudo bem.

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5 comments

  1. Só sei que, todos os dias da minha vida, à noite, penso em si e nas muitas mulheres que não conheço e que têm cancro, ou qualquer outra doença grave.
    Medito um pouco, comento, talvez para me convencer a mim própria que: "hoje são elas, amanhã serei eu".
    Pelo que leio, o amanhã chega inesperadamente.
    Felizmente, há imensas mulheres dos possíveis.
    Desejo-vos muita força e coragem.

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    1. Maria se for para ler o blogue e ficar a pensar em asneiras, proíbo-a de vir cá! :P Felizmente, como bem disse, há imensas mulheres dos possíveis.
      Obrigada, do fundo do coração.

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  2. Às vezes preocupamo - nos com coisas fúteis. Depois xego ao teu blog e leio isto.
    Vai correr bem,para as duas.
    Beijinhos

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  3. Ó CC, eu há muitos anos que penso e digo isto a mim mesma.
    E não me pode proibir de cá vir, a não ser que passe o blog a privado.
    :)

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