Quando ninguém nos vê

sábado, setembro 03, 2016

As noites são o mais difícil [para além de todas as dores físicas]. As luzes apagam-se, mas a cabeça não desliga. Desde há muito tempo que eu não sei o que é adormecer naturalmente. [confesso que sinto falta dessa sensação de aparente normalidade]. Desde há muito tempo que eu não durmo sem antes chorar. [tornou-se habitual]. É o momento do dia em que caem as máscaras. E em que se depura tudo o que nos vai dentro. 

De dia até é fácil. [relativamente fácil]. A quimioterapia, a medicação e os antibióticos a que normalmente estamos sujeitos funcionam como uma ratoeira para atrair o sono. [ainda que seja um sono forçado pelas circunstâncias]. Mas à noite... À noite nenhuma droga é mais forte que os nossos próprios pensamentos. 

Nos primeiros dois meses que passei nos Capuchos, dormi uma média de 3/4 horas por noite. Adormecia, normalmente, vencida pelo cansaço. Quando estive na UUM (Unidade de Urgência Médica) do São José, aí não dormi nada mesmo. Tinha medo de fechar os olhos. Como ainda tenho, hoje em dia. Para além do adormecer ser ter tornado difícil, também deixei de ter sonhos. Esperem. Não é assim. Eu não deixei de ter sonhos, deixei de sonhar durante os sonos. O pouco que durmo é um vazio. Calmo, tal e qual como se pretende.

O sono para mim, a partir de uma determinada idade, nunca me foi fácil. Eu que nunca acordava só com o despertador. [os meus pais, que saíam mais cedo de casa para trabalhar, ligavam, religiosamente, todos os dias da semana, para o telefone fixo de casa para obrigar-me a levantar o cu da cama, caso contrário, eu só chegava à escola depois do meio-dia]. Acho que à medida que a vida se complica, se torna mais dura e mais pesada, a gente dorme menos, não sentem o mesmo? 

Não sei como é que vai ser dormir daqui p'ra frente. Não sei mesmo. Claro que tenho a ajuda das drogas para garantir, pelo menos, 8 a 9 horas de escuro. Mas será que algum dia eu vou voltar a sentir o sono inebriar-me os sentidos? Dizem que à medida que a gente caminha para velhos, [e velho, para mim, é uma palavra bonita], dormimos menos. Então... Que as minhas noite em claro sejam um sinal de longevidade. 

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3 comments

  1. "À noite nenhuma droga é mais forte que os nossos próprios pensamentos."
    Quando vou dormir, tento dormir uma noite tranquila, mas nem sempre isso acontece.
    Por vezes, os pensamentos, uns bons outros menos bons, são de tal forma dominadores que o sono, mesmo que exista, vai-se.
    Sempre dormi poucas horas e com o passar dos anos, logo, idade, mais problemas tinha e tenho em adormecer sobretudo quando estava no activo (não é por acaso que tenho papos e olheiras de muitas horas que perdi) e cheia de sono, mas mal me deitava um pensamento qualquer do passado, sobretudo, era o suficiente para dar voltas na cama. E acordava extremamente cansada.
    Agora as coisas estão mais calmas, há dias que durmo 6 h, outros vou às 8h, mas raramente durmo mais.
    Quando se vai para velho, CC, dorme-se menos, dizem que é suficiente dormir 6/7 horas mas para mim é mais duro perceber que a idade passa e estou mais perto do dia final.
    Desde os meus 40 e tais que me penso, todos os dias, antes de dormir, se vou acordar no dia seguinte ou se chego ao final do dia.
    Por isso, que as suas noites de "mal dormir" sejam sinal de longevidade, sim.
    Mas estou convicta que à medida que a cura vai dando os seus sinais, o corpo, o pensamento, a vida, o sono, voltam ao normal
    Acredite nisso, CC.
    Um beijinho

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    1. Eu espero que sim Maria. Espero que tudo volte rapidamente ao normal.
      Uma vez li uma entrevista que fizeram a um casal sobre o segredos dos matrimónios duradouros, e um deles disse: "nunca vamos para a cama zangados". E acho que a resposta às noites mal dormidas pode passar por aí. Quantas vezes não vamos para a cama "a rebentar" em vez de irmos relaxados? Não pense tanto. A Maria ainda vai cá estar muitos anos :)

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  2. Ahahahaha!
    Mas a cabeça é teimosa, CC.
    Hoje de manhã, acordei cedo, 6:30h, fui dar de comer à gata.
    Voltei para a cama mas, mais uma vez, uma qualquer coisa fez que o sono fosse dar uma volta.
    Levantei-me de novo e vim à net, o que evito fazer de manhã. Às 8:30h arranjei-me e fui para a praia.
    E que dia tranquilo eu tive!
    Mas também há um pormenor: à noite, adormeço no sofá.
    Ontem, disposta a ver a nova novela da SIC, adormeci. Não vi uma "dica de nada".
    També, conhecia essa história dos idosos, e não deixa de ser verdade.
    Eu levo para a cama os sobrinhos, os sobrinhos netos, as preocupações da família.
    Defeito meu.
    Beijinho

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