Senhora dos Milagres

sábado, setembro 10, 2016

Eu tenho vários amigos e amigas que não acreditam em Deus. Já vos disse isso mais do que uma vez. Eu, ao contrário deles, acredito. Ainda assim, as diferenças de crenças que nos separam nunca nos impediram de alimentar a amizade que nos une. Quando penso nisto lembro-me sempre de uma pessoa em particular. De uma amiga que conheci na rádio há uns anos atrás.

Ela não acredita em Deus, mas casou-se pela igreja por causa do namorado, hoje marido. Marido este que roubou ao seminário, vejam só... Casou de vestido vermelho, careca (por causa de uma anemia severa), de ténis, e de relógio no pulso, apesar de ter chegado à cerimónia uma hora atrasada. E, como se isso, por si só, já não fosse o suficiente contra todas as regras da igreja, a noiva foi até lá, de mota. Não foi, de todo, um casamento convencional. Mas, o amor, pode ser tudo, menos convencional, por favor. 

Ela não gosta de ler, mas diz que eu, e o meu blogue, a levámos a ler. E desde que "o bicho me pegou" que nos voltámos a aproximar, como se os votos que ela trocou, "na alegria e na tristeza, na saúde e na doença", fossem tão válidos para o amor como para a amizade. Para além de a ter levado a ler, (o que me deixei p'ra lá de orgulhosa), também a levei ao ginásio. Deu-se conta de que precisava de melhorar a sua vida, antes de entrar nos 40. Ela, que não gostava de correr, diz que corre por mim. Não há dia em que não me mande, religiosamente, uma foto dos quilómetros percorridos em cima da passadeira. Ela, que não acredita em Deus, acredita no esforço humano. E eu acredito nela.

Curiosamente, neste fim de semana, na Terceira, realiza-se a peregrinação anual da Nossa Senhora dos Milagres à qual acude a ilha inteira. Quando era canalha, (e o "canalha" em bom terceirense refere-se a jovens [sem cabeça]), ia com as minhas amigas, não porque tínhamos promessa, mas sim porque era divertido. Era aonde toda a gente estava, incluindo os rapazes que nos interessavam. Uma amiga que eu tenho por lá, que acredita plenamente em Deus, que é catequista desde que a conheço, este ano vai e vai por mim. Comoveu-me o seu gesto, como me comovem as fotos dos quilómetros da Patrícia. 

De onde ela parte, a bom ritmo, são mais ou menos 6 horas a andar, 7 se ela descansar pelo meio. O mais engraçado de tudo é que ela me revelou, numa mensagem que me enviou, que até hoje nunca tinha tido uma razão forte pr'a o fazer, (e ela já o fez inúmeras vezes), e que só tinha percebido isso comigo e com a minha estória recente. Espero, de coração, minha querida Maria, que o caminho se faça curto. E a fé maior ainda.

É curioso, não é? Como podemos ser todos tão diferentes e querer a mesma coisa.
Estou-vos muito grata. Pela amizade resiliente. Pelo amor infinito. E pela(s) caminhada(s).

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