Sete

segunda-feira, setembro 05, 2016

Ontem, enquanto esperava pelo sono, dei-me conta que passavam 7 meses desde que esta aventura começou. Estar longe de casa não me aflige... Vivi em Lisboa muitos anos, e quando decidi regressar aos Açores, estive lá pouco tempo (na verdade, nem deu para aquecer). A (minha) vida tem-me contrariado bastante. [sacaninha, hein?!] Tem-me feito ir quase sempre pelos caminhos mais longos, em vez de me dar hipótese de cortar pelos atalhos. Comprei algumas lutas desnecessárias, confesso, mas também estou muito segura disto: se a minha vida tivesse sido exactamente como eu a tinha planeado, não teria sido tão interessante, e tão rica, como tem sido até hoje.

Revivi o inicio. A médica sentada em frente a mim. Os gestos incontrolados que ela fazia enquanto comunicava o diagnóstico. "Oito meses e é se isto correr bem." Eu podia queixar-me. Podia, de facto, perguntar-me porque é que fui para casa, para regressar de novo a Lisboa. Podia perguntar-me porque é que descobri que tinha um cancro, na altura em que arranjei emprego, por sorte, naquilo que eu mais gosto e que escolhi fazer. Podia perguntar-me porque é que a notícia chegou no mesmo dia em que o meu tio, irmão da minha mãe, morreu. Podia queixar-me das dores. Dos sustos. Das noites mal dormidas. Dos imprevistos. Dos compassos de espera. Dos corações nas mãos... De tudo o que não estava planeado acontecer e aconteceu. 

Sempre disse que as coisas entre mim e Deus estavam bem resolvidas. E continuam assim. Eu podia queixar-me. E podia, efectivamente, entristecer-me, como é natural. Talvez, alguma parte de mim, antes do cancro, fosse bem capaz de ir por aí. Mas, ao contrário do expectável, senti-me inundada por um sentimento com boa raíz. Senti-me grata. E feliz. Por cada dia que passou nestes últimos 7 meses da minha vida. Transformei o sofrimento numa pequena vitória e nunca imaginei que conseguisse fazer isso com a facilidade com que fiz. Este cancro, (que é outro sacaninha também!), tem-me ensinado muito. 

Nesse dia, o dia do diagnóstico, eu disse à médica que estava preparada. Tenho esta mania de aceitar desafios, mesmo sem saber o tamanho deles. Sempre fui assim. Inconsequente (de uma forma responsável). Ela respondeu-me: "não estás, ninguém está". E de facto, tenho de lhe dar razão. Não estava. Nunca se está. As doenças, por mais infelizes que sejam, têm uma coisa boa: fazem-nos abrir mão das nossas certezas. Tornam-nos mais humildes. E mais humanos. Obrigam-nos a recalcular trajectos. E renovam-nos a alma que carregamos.

Hoje, eu sei o que é um dia verdadeiramente bom. E isso é tudo o que importa.

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