Setembro

terça-feira, setembro 13, 2016

Os Setembros têm-me sido particularmente difíceis. Há dois anos atrás, (em 2014), regressava de umas férias de sonho para um trabalho penoso. As férias, que eu levei uma vida a planeá-las, foram férias, mas não foram o que eu esperava. Quando não se está inteiro, não se está bem em lado nenhum. A viagem de carro até ao aeroporto foi interrompida várias vezes à conta da minha falta de ar. Os problemas tinham ganho demasiado corpo para tão pouco oxigénio... Quando me sentei no avião, apertei o cinto, e descolámos de regresso a Lisboa só me apetecia chorar. Só me apetecia ter ficado em França, na Côte d'Azur, para todo o sempre.

A partir daí começou, efectivamente, o meu declínio. Eu já estava à beira do abismo, foi só uma questão de ir escorregando, aos poucos, até se desprenderem os últimos dedos que se mantinham agarrados a não sei bem o quê. Outubro, Novembro e Dezembro foram a evidência perfeita de que eu precisava de mudar a minha vida com urgência. Foi nessa altura que procurei ajuda psicológica e psiquiátrica para recuperar a coragem que me faltava. 

Setembro do ano passado, (2015), foi o mês em que me desfiz de tudo oficialmente. Dos bens. Materiais. Porque os males, emocionais, resistem bastante a novos (re)começos. Quando cheguei aos Açores 4 meses antes, o objectivo não era ficar, mas a matemática da vida obrigou-me a ser razoável... E acho, que acabei mesmo por gostar de lá estar. As nossas (verdadeiras) casas terão sempre um sabor a porto de abrigo. Dividir 3 anos por várias caixas de cartão foi uma tarefa mázinha... que ninguém podia fazer, senão eu. Acho que as arrumações servem para isso mesmo... Para nos fazer ter certeza das decisões que tomamos. Dar a volta a isto tudo ao mesmo tempo que combatia uma relação em estado terminal sobrecarregou-me. A alma.

Este Setembro, o de hoje, o de agora, está parecido à viagem de carro até ao aeroporto de que vos falei no inicio do texto. A ansiedade e o medo são magistrais porque têm que ser. Estou à espera que o telefone toque para que possa ser internada. Será o oitavo ciclo de quimioterapia. Em teoria, aquele que se quer e que se deseja o último. Eu quero muito. Quero tanto. Quero mesmo. E simultaneamente, por pequenez, aquela que é própria das pessoas de carne e osso, espero que o telefone não toque... porque se tocar, eu sei que vou ter medo. Eu já tenho.

Lembrei-me de vos falar dos Setembros porque li algures um texto da Isabel Stilwell onde ela dizia que p'ra ela os anos começavam sempre em Setembro. Desde Fevereiro que pouco me importam quando é que os anos começam. Nalguns casos, começam quando a gente quer. Noutros, quando Deus permite. O que eu sei é que este ano ainda não acabou para mim, mesmo que esteja a começar para muitos de vocês. E não ter acabado, é desesperadamente, bom sinal. 

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2 comments

  1. Será um bom final de setembro e do ciclo de quimio.
    Nossa Senhora dos Milagres está a olhar por si.
    Todas nós torcemos por si.
    Um abraço.

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