The special one

sexta-feira, setembro 16, 2016

Acontece, várias vezes ao longo da vida, pessoas que têm dias maus, cruzarem-se, ocasionalmente, com pessoas que maus dias têm. O problema dos dias maus é apenas um: nem sempre dois maus juntos são suficientes para se anularem um ao outro... E quando, por uma questão físico-química, o que é mau não fica sanado, os pontos de ebulição interiores começam a dar sinais de efervescência. De muita efervescência.

Quando eu era balconista, lá na barraca dos soutiens e das cuecas, levei com muita gente em dias maus. Clientes, maioritariamente, mas não só. No entanto, a lei do comércio é soberana: o cliente tem sempre razão. E no fundo, vida de balconista é muito isto: ouvir os desaforos dos outros, sorrir e servir cafés (e se possível facturar). É limitado, é. E é giro, apenas e só em determinados dias. A combustão ideal para um bom dia de trabalho acontece quando a cliente está num dia mau... e surpresa: nós também! 

Existiram estórias que começaram mal e acabaram bem e existiram estórias que começaram mal e acabaram mal. E existiram ainda, outras estórias, que pareciam ter começado bem, e acabaram, extremamente mal. Ser balconista foi um dos maiores desafios da minha vida... e da minha, tão temida, personalidade. Virou-me do avesso. E ainda bem. O meu poder de libertar gases extravasa todo e qualquer reduto mercantilista. Eu não sou um furacão. Eu sou um vulcão. É ligeiramente diferente. Mas nunca, em caso algum, deixei que a minha lava enfurecida calcificasse alguma cliente pelo caminho, embora me tenha apetecido, várias vezes. Ninguém é de ferro, nem mesmo os "specials ones" desta vida. 

Tenho-vos poupado muito nestes últimos 7 meses. Tenho-vos contado o que acho que é importante contar e tenho arrumado, debaixo do tapete, aquilo que acho que vocês não precisam saber. Vocês não precisam saber que eu estou a ter um dia mau. Prefiro que seja assim. E na maioria das vezes, esse esconde-esconde também é um acto de respeito camuflado pela intenção de proteger as pessoas que mais sabem sobre nós: os enfermeiros e os auxiliares.

Ao fim de 7 meses, o vulcão já está a ponto de explodir, por conta própria... mas eu gostava muito de continuar a acreditar que a saúde, ou melhor, que o SNS não se está a tornar numa loja de esquina qualquer. É que nas lojas de esquina a gente muitas vezes passa por cima da(s) vontade(s) do(s) cliente(s) para ceder às pressões dos patrões... Para um tipo de patrões é mais cueca menos cueca, para outro tipo de patrões é mais veia menos veia, assim, só para vos dar uma ideia da coisa.

Estou com muita vontade de rescindir este contrato, como vocês devem calcular. E não é porque têm que me continuar a picar e a fazer sofrer, é essencialmente, porque a determinada altura do processo, as pessoas esquecem-se que estão a lidar com pessoas. Não são as agulhas que doem, são as palavras. Os argumentos. Os comprimidos que nos querem pôr debaixo da língua porque estamos muito alterados. O trato acriançado porque eu choro com medo. A anedota do blogue que parece que não passa de moda. É o desrespeito pelas nossas vontades que nos faz desrespeitar as vontades dos outros. É a falta de reconhecimento, verbal, que nos faz virar costas. É a falta de apoio, nos momentos chave, que nos leva a deitar fora pessoas sem olhar para trás.

Fora as ironias e os recursos estilísticos, que são a minha área de especialidade e que já me salvaram de muitos dias maus, continuo a dizer o que sempre disse sobre os médicos do Hospital de Santo António dos Capuchos: são excelentes profissionais. Sou mulherzinha para dizer o mesmo dos meus ex-patrões sem me engasgar: são muito bons naquilo que fazem. Mas que ambos fiquem bem cientes de uma coisa: eu também dei, e estou a dar o meu melhor. Respeito. É a única resposta que exijo se não forem capazes de mais nada.

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