#uma açoriana em lisboa

VI

quarta-feira, outubro 26, 2016

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#vamos matar o bicho

Até amanhã

segunda-feira, outubro 24, 2016

A escrita é um prolongamento meu. Nem sempre muito presente, mas ultimamente muito evidente. Sempre me foi mais fácil escrever do que falar. [quando falo, (dependendo da situação), tenho uma tendência muito peculiar em não escolher as palavras certas]. Nesse sentido, os espaços em branco são os meus organizadores de alma favoritos.

Quando descobri que estava doente houve alguma hesitação. Olhava para o ecrã do computador e não sabia o que escrever. A maioria do que escrevo vem do que sinto... e nos primeiros meses eu não sabia o que sentia. Mais do que não saber o que sentir, eu não queria de todo comprometer-me... Dizer-vos alguma coisa sobre a qual eu não tivesse a certeza... Sim, fui naífe. Nunca ninguém tem a certeza de nada. [apesar de eu conhecer uma pessoa que jura a pés juntos que tem a certeza de algumas coisas].

Agora que saí da fase dos tratamentos intensivos as palavras começam a faltar-me outra vez. Não é que eu não saiba o que sinto, o problema é que estou a sentir. Tudo. Demais. E tal como no inicio, o receio de comprometer-me reaparece cada vez que me sento em frente de uma folha em branco. Nós temos o hábito de usar as palavras de uma forma muito irresponsável... Não pensamos nelas, no que elas representam e no que elas implicam. E às vezes, (na maioria das vezes), por lhe atribuirmos valores diferentes, acabamos por falarmos mais connosco do que com os outros.

Se me perguntarem que palavra se tornou mais importante ao longo deste processo todo, eu digo-vos. Aliás não é uma palavra, são duas. Até amanhã. "Até amanhã" tornou-se efectivamente mais importante que força, que esperança, que fé, que todas as coisas que toda a gente dizia só para me aconchegar... De cada vez que eu me despedia de alguém com um "até amanhã" sentia-me, (e ainda me sinto), a pessoa mais sortuda do mundo, mesmo que as duas palavras que se tornaram mais importantes pudessem, eventualmente, nunca ganhar significado. Corpo. Vida.

Os "atés", confesso-vos que são um bocadinho difíceis e demorados, mas os "amanhãs", desde que sejam amanhãs, são quanto baste. Se nestes dias que passam eu não vos escrever muito, não se preocupem, nem se aflijam... Há um tempo para todas as coisas e este é sem dúvida o tempo de sentir. E de voltar, a comprometer-me, aos poucos... com as palavras todas que fizerem sentido [e que quiserem saltar do coração para a boca]. Até amanhã. 

#vamos matar o bicho

Auto

quinta-feira, outubro 20, 2016


O cancro mutila. Uns mais do que outros. Entre aquilo que nos rouba, obriga-nos a olhar para o espelho e a ver as coisas como elas são. Teimoso como ele é, (e neste caso, ainda bem que o é), obriga-nos também a gostar de cada centímetro de pele que compõe o corpo em que habitamos. Deixam-se as frescuras de lado. A máscara de pestanas. O blush. Até o verniz das unhas. O cabelo começa a cair e as formas mudam de geometria. As cicatrizes e as marcas multiplicam-se. E por mais espelhos que se evitem, eles estão lá. A exigir que nos reconheçamos dentro de um corpo que nunca conhecemos... E que pior de tudo: nos pregou uma (valente) rasteira.

É muito fácil falar de aceitação quando vivemos confortáveis. Quando temos ao nosso dispor as máscaras de sempre. E quando nunca precisámos dela para validar o que somos. Falo na 1ª pessoa. Sempre defendi o discurso da auto-estima feminina independentemente dos padrões... Mas, e sem querer cair nos clichés habituais, só agora é que percebi o que ela verdadeiramente é. É quando ela nos abandona, e nos deixa à mercê do nada, que sentimos a necessidade de (re)começar a construí-la. A pouco e pouco. Passo a passo. Numa disciplina dolorosa. E ainda assim, humana.

Oxalá todos os cancros fossem a oportunidade de recomeçar. Quantas de vocês, que me lêem, não cortam o cabelo porque têm medo? Porque, às páginas tantas, ele tornou-se num porto seguro do qual custa muito abdicar. Quem diz cabelo, diz estrias. Aquelas que ao trazerem os vossos filhos ao mundo ficaram gravadas nas vossas barrigas. Aquelas que vos custa tanto mostrar. Acredito, e desejo muito, que no futuro, as mulheres com cancro não tenham de passar por todos os efeitos secundários que a quimioterapia provoca, mas até lá, as que tiverem que passar, não se assustem, nem se desamem. Não é o conjunto dos vossos acessórios que faz o todo. Longe disso. Muito longe.

Independentemente das doenças, que já são más por si só, todos nós já nos cruzámos com alguém que se encarregou de nos tirar (o devido) valor... E de deixar (bem) claro o não sermos suficientes. Se isso vos acontecer, (ou voltar a acontecer), certifiquem-se apenas de uma coisa: certifiquem-se que essa pessoa não são vocês. Vocês precisam de vocês. Todos os dias. Quer se achem feias. Quer se achem bonitas. Quer se achem mais ou menos.

Esta sou eu. Eu. Alguém que estou a aprender a conhecer. E sobretudo a amar. Eu. Sem photoshop. Sem maquilhagem. Sem efeitos especiais. E apesar de tudo... Apesar do medo. Das incertezas. Dos estilhaços. Das noites em claro. E dos espelhos alheios... Nunca me senti tão eu como me sinto agora. É uma puta de uma viagem, mas ainda bem que nos vai devolvendo aos poucos, não àquilo que éramos, mas sim ao que sempre fomos e não sabíamos.

#uma açoriana em lisboa

V

terça-feira, outubro 18, 2016

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#vamos matar o bicho

A visita

segunda-feira, outubro 17, 2016

Houve uma mulher que me quis visitar enquanto estive internada. Pediu permissão à minha mãe. Prometeu que se ia "portar bem". Que não ia chorar. [chorei eu quando soube que ela queria ver-me]. E que não se demorava. No dia em que eu entrei para começar o oitavo tratamento, morreu-lhe o marido, no corredor, ao lado do meu. Pensei, inicialmente, em escrever-vos sobre ele, mas, na verdade não tive tempo suficiente para conhecê-lo como outros "colegas" meus tiveram. É por isso que decidi escrever-vos sobre ela.

As despedidas anunciadas são difíceis. Louvo-lhe a coragem que não tive. Os médicos são muito claros quando dizem que não estamos no hospital para fazer amigos, estamos para ser tratados... Mas é impossível não ultrapassarmos os limites que nos deveríamos impor. Quando o marido dela entrou em isolamento, no internamento anterior a este, eu quis muito fazer-lhe chegar algumas palavras de apoio. Combinei com a auxiliar de limpeza, ela levar-lhe o bilhetinho que eu tinha escrito... Mas nunca chegou lá.  

A situação agravou-se e ele teve de ser transferido para outro hospital. A partir daí, e sinto que tenho de vos ser completamente honesta, pedi ao "meu" Deus que acabasse com o sofrimento alheio. Eu sei que isso não faz de mim a melhor pessoa do mundo, mas acredito que Ele, com quem (tanto) converso, percebeu o que lhe pedi e porque lhe pedi. [espero que vocês também].

Quando recebi a notícia da sua morte, a primeira coisa que fiz foi arrancar do caderno que me acompanha sempre, a folha que lhe tinha dedicada. Pedi à minha mãe que a entregasse a quem de direito. Não interessa saber o que lá estava escrito, mas uma das frases com as quais comecei foi com um "Força campeão!". Era-me importante que a mensagem chegasse ao destino. Era-me importante fazer saber que não é por as pessoas se verem "forçadas" a desistir que deixam de ser campeãs. Foram-no durante o tempo possível. Era-me, sobretudo, importante que as palavras chegassem lá, independentemente daquilo em que a realidade se tinha tornado.

Pode ter sido uma forma ingénua que encontrei de me colocar em paz... Mas, quando a vi, entrar no quarto, sentar-se ao meu lado, sem chorar ou sequer tremer, tive a certeza que havia mais alguém entre nós, substancialmente orgulhoso das duas. As pessoas de alma grande nunca se vão embora. Vivem através dos outros. Daqueles em quem tocaram. [pelo menos é aquilo em que acredito]. Se ainda ninguém lhe disse isto Sílvia, digo-lhe eu: saiba que está a "portar-se (muito) bem", como aliás, sempre se portou. 

#vamos matar o bicho

Oito

sábado, outubro 15, 2016


Deitada no quarto, ouço a chuva cair lá fora. Se dúvidas houvessem, as evidências confirmam-no: estamos, a pouco e pouco, a regressar ao Inverno, uma vez mais. O tempo passou depressa... mais depressa que as últimas (três) semanas. Eu pensava que ia ser mais fácil, mas não foi. O oitavo deu luta. [estranho seria se não tivesse dado].

Não foi de todo o ciclo mais complicado, nem o mais difícil, nem o mais imprevisto. Foi o mais sentido. Muito mais que todos os outros. Acabo, exactamente como comecei, com cabelos perdidos na almofada. [pela terceira vez]. E pergunto-me, como é que cheguei até aqui [e porque é que cheguei]? Não encontro respostas, mas tenho a certeza que não o consegui sozinha.

É difícil colocar em palavras tudo o que carrego dentro. Tal como no inicio, em que me distanciei da escrita porque não sabia que palavras escolher para traduzir tudo o que estava a acontecer, voltei a fazê-lo, novamente, por necessidade... e obviamente, por medo. Embora pareça, não é fácil falar destas coisas. 

Achei que estes dias eram dias para sentir, mais do que para escrever. Não me lembro de ter chorado tanto como chorei neste ciclo... nem mesmo no primeiro. Depois de três semanas a combater as contrariedades que foram aparecendo ao longo do tratamento, tive alta. Ingenuamente, pensei que era chegar, fazer o que era suposto fazer e andar... mas não. O corpo já está demasiado castigado para lhe exigir respostas rápidas. Foram dias difíceis, cheios de pontos de interrogação e de muitas lágrimas. 

Às vezes nem sei bem porque choro... Se é por estar contente, se é por estar triste, se é para libertar tudo o que se foi acumulando ao longo destes 8 meses. Consegui fazer muito pouco nestes dias. Faltavam-me as palavras. Para quase tudo. Antes de sair do quarto do hospital, olhei-me no espelho da casa da banho. Como é que conseguiste? Como é que conseguiste? Perguntei à pessoa que estava do lado de lá.

Custou-me imenso. Custou-me mais a sair do que a entrar. Não consegui despedir-me das minhas colegas de quarto. Não consegui dizer nada. Nada faria sentido. E ainda bem que saí num dia de greve de enfermeiros...Seria difícil olhar-vos nos olhos, não pela despedida em si, mas por tudo o que se passou entre nós, [um nós feito de muita gente], nestes oito meses.

Cheguei a temer que a porra deste oito não fosse aquilo que eu tinha dito que ia ser... o símbolo do infinito. Mas alguém resgatou-me a esperança e a fé. Não acaba aqui. O processo ainda é longo e a luta continua, mas deitei o oito abaixo. E tal como vos escrevi há uns tempos, sair viva de cada etapa em que tive de me pôr à prova, foi o melhor presente. Ontem, quando a enfermeira Paula me abriu a porta da enfermaria e rapidamente a fechou, o corredor encurtou-se. Passando o pórtico, estava na rua, no mundo, na vida, uma vez mais. 

E foi estranho. [eu que tenho sempre tendência para reduzir a actividade cósmica universal a um nada]. Nunca senti as pernas tão fortes nem os passos tão seguros. Costumava vacilar, mas não aconteceu. Fui bastante rápida a dar 20 passos. Deixando o pórtico para trás das costas, consegui, finalmente encher o peito de ar. Tinha um cheiro diferente. Com-ple-ta-men-te di-fe-ren-te. Nem tive que respirar fundo para que ele me inundasse o corpo inteiro. Era um ar que raras vezes encontrei em Lisboa... Conseguir respirar não é nada mau.