A visita

segunda-feira, outubro 17, 2016

Houve uma mulher que me quis visitar enquanto estive internada. Pediu permissão à minha mãe. Prometeu que se ia "portar bem". Que não ia chorar. [chorei eu quando soube que ela queria ver-me]. E que não se demorava. No dia em que eu entrei para começar o oitavo tratamento, morreu-lhe o marido, no corredor, ao lado do meu. Pensei, inicialmente, em escrever-vos sobre ele, mas, na verdade não tive tempo suficiente para conhecê-lo como outros "colegas" meus tiveram. É por isso que decidi escrever-vos sobre ela.

As despedidas anunciadas são difíceis. Louvo-lhe a coragem que não tive. Os médicos são muito claros quando dizem que não estamos no hospital para fazer amigos, estamos para ser tratados... Mas é impossível não ultrapassarmos os limites que nos deveríamos impor. Quando o marido dela entrou em isolamento, no internamento anterior a este, eu quis muito fazer-lhe chegar algumas palavras de apoio. Combinei com a auxiliar de limpeza, ela levar-lhe o bilhetinho que eu tinha escrito... Mas nunca chegou lá.  

A situação agravou-se e ele teve de ser transferido para outro hospital. A partir daí, e sinto que tenho de vos ser completamente honesta, pedi ao "meu" Deus que acabasse com o sofrimento alheio. Eu sei que isso não faz de mim a melhor pessoa do mundo, mas acredito que Ele, com quem (tanto) converso, percebeu o que lhe pedi e porque lhe pedi. [espero que vocês também].

Quando recebi a notícia da sua morte, a primeira coisa que fiz foi arrancar do caderno que me acompanha sempre, a folha que lhe tinha dedicada. Pedi à minha mãe que a entregasse a quem de direito. Não interessa saber o que lá estava escrito, mas uma das frases com as quais comecei foi com um "Força campeão!". Era-me importante que a mensagem chegasse ao destino. Era-me importante fazer saber que não é por as pessoas se verem "forçadas" a desistir que deixam de ser campeãs. Foram-no durante o tempo possível. Era-me, sobretudo, importante que as palavras chegassem lá, independentemente daquilo em que a realidade se tinha tornado.

Pode ter sido uma forma ingénua que encontrei de me colocar em paz... Mas, quando a vi, entrar no quarto, sentar-se ao meu lado, sem chorar ou sequer tremer, tive a certeza que havia mais alguém entre nós, substancialmente orgulhoso das duas. As pessoas de alma grande nunca se vão embora. Vivem através dos outros. Daqueles em quem tocaram. [pelo menos é aquilo em que acredito]. Se ainda ninguém lhe disse isto Sílvia, digo-lhe eu: saiba que está a "portar-se (muito) bem", como aliás, sempre se portou. 

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