Até amanhã

segunda-feira, outubro 24, 2016

A escrita é um prolongamento meu. Nem sempre muito presente, mas ultimamente muito evidente. Sempre me foi mais fácil escrever do que falar. [quando falo, (dependendo da situação), tenho uma tendência muito peculiar em não escolher as palavras certas]. Nesse sentido, os espaços em branco são os meus organizadores de alma favoritos.

Quando descobri que estava doente houve alguma hesitação. Olhava para o ecrã do computador e não sabia o que escrever. A maioria do que escrevo vem do que sinto... e nos primeiros meses eu não sabia o que sentia. Mais do que não saber o que sentir, eu não queria de todo comprometer-me... Dizer-vos alguma coisa sobre a qual eu não tivesse a certeza... Sim, fui naífe. Nunca ninguém tem a certeza de nada. [apesar de eu conhecer uma pessoa que jura a pés juntos que tem a certeza de algumas coisas].

Agora que saí da fase dos tratamentos intensivos as palavras começam a faltar-me outra vez. Não é que eu não saiba o que sinto, o problema é que estou a sentir. Tudo. Demais. E tal como no inicio, o receio de comprometer-me reaparece cada vez que me sento em frente de uma folha em branco. Nós temos o hábito de usar as palavras de uma forma muito irresponsável... Não pensamos nelas, no que elas representam e no que elas implicam. E às vezes, (na maioria das vezes), por lhe atribuirmos valores diferentes, acabamos por falarmos mais connosco do que com os outros.

Se me perguntarem que palavra se tornou mais importante ao longo deste processo todo, eu digo-vos. Aliás não é uma palavra, são duas. Até amanhã. "Até amanhã" tornou-se efectivamente mais importante que força, que esperança, que fé, que todas as coisas que toda a gente dizia só para me aconchegar... De cada vez que eu me despedia de alguém com um "até amanhã" sentia-me, (e ainda me sinto), a pessoa mais sortuda do mundo, mesmo que as duas palavras que se tornaram mais importantes pudessem, eventualmente, nunca ganhar significado. Corpo. Vida.

Os "atés", confesso-vos que são um bocadinho difíceis e demorados, mas os "amanhãs", desde que sejam amanhãs, são quanto baste. Se nestes dias que passam eu não vos escrever muito, não se preocupem, nem se aflijam... Há um tempo para todas as coisas e este é sem dúvida o tempo de sentir. E de voltar, a comprometer-me, aos poucos... com as palavras todas que fizerem sentido [e que quiserem saltar do coração para a boca]. Até amanhã. 

Deixe um comentário

8 comments