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quinta-feira, outubro 20, 2016


O cancro mutila. Uns mais do que outros. Entre aquilo que nos rouba, obriga-nos a olhar para o espelho e a ver as coisas como elas são. Teimoso como ele é, (e neste caso, ainda bem que o é), obriga-nos também a gostar de cada centímetro de pele que compõe o corpo em que habitamos. Deixam-se as frescuras de lado. A máscara de pestanas. O blush. Até o verniz das unhas. O cabelo começa a cair e as formas mudam de geometria. As cicatrizes e as marcas multiplicam-se. E por mais espelhos que se evitem, eles estão lá. A exigir que nos reconheçamos dentro de um corpo que nunca conhecemos... E que pior de tudo: nos pregou uma (valente) rasteira.

É muito fácil falar de aceitação quando vivemos confortáveis. Quando temos ao nosso dispor as máscaras de sempre. E quando nunca precisámos dela para validar o que somos. Falo na 1ª pessoa. Sempre defendi o discurso da auto-estima feminina independentemente dos padrões... Mas, e sem querer cair nos clichés habituais, só agora é que percebi o que ela verdadeiramente é. É quando ela nos abandona, e nos deixa à mercê do nada, que sentimos a necessidade de (re)começar a construí-la. A pouco e pouco. Passo a passo. Numa disciplina dolorosa. E ainda assim, humana.

Oxalá todos os cancros fossem a oportunidade de recomeçar. Quantas de vocês, que me lêem, não cortam o cabelo porque têm medo? Porque, às páginas tantas, ele tornou-se num porto seguro do qual custa muito abdicar. Quem diz cabelo, diz estrias. Aquelas que ao trazerem os vossos filhos ao mundo ficaram gravadas nas vossas barrigas. Aquelas que vos custa tanto mostrar. Acredito, e desejo muito, que no futuro, as mulheres com cancro não tenham de passar por todos os efeitos secundários que a quimioterapia provoca, mas até lá, as que tiverem que passar, não se assustem, nem se desamem. Não é o conjunto dos vossos acessórios que faz o todo. Longe disso. Muito longe.

Independentemente das doenças, que já são más por si só, todos nós já nos cruzámos com alguém que se encarregou de nos tirar (o devido) valor... E de deixar (bem) claro o não sermos suficientes. Se isso vos acontecer, (ou voltar a acontecer), certifiquem-se apenas de uma coisa: certifiquem-se que essa pessoa não são vocês. Vocês precisam de vocês. Todos os dias. Quer se achem feias. Quer se achem bonitas. Quer se achem mais ou menos.

Esta sou eu. Eu. Alguém que estou a aprender a conhecer. E sobretudo a amar. Eu. Sem photoshop. Sem maquilhagem. Sem efeitos especiais. E apesar de tudo... Apesar do medo. Das incertezas. Dos estilhaços. Das noites em claro. E dos espelhos alheios... Nunca me senti tão eu como me sinto agora. É uma puta de uma viagem, mas ainda bem que nos vai devolvendo aos poucos, não àquilo que éramos, mas sim ao que sempre fomos e não sabíamos.

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2 comments

  1. "ao que sempre fomos e não sabíamos".
    Este blog dá-nos tantas lições de vida, de luta, de uma realidade que não enxergamos.
    Um abraço, CC.

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    1. Se este blog faz isso tudo, sinto-me muito lisonjeada Maria!
      Beijinhos :)

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