Oito

sábado, outubro 15, 2016


Deitada no quarto, ouço a chuva cair lá fora. Se dúvidas houvessem, as evidências confirmam-no: estamos, a pouco e pouco, a regressar ao Inverno, uma vez mais. O tempo passou depressa... mais depressa que as últimas (três) semanas. Eu pensava que ia ser mais fácil, mas não foi. O oitavo deu luta. [estranho seria se não tivesse dado].

Não foi de todo o ciclo mais complicado, nem o mais difícil, nem o mais imprevisto. Foi o mais sentido. Muito mais que todos os outros. Acabo, exactamente como comecei, com cabelos perdidos na almofada. [pela terceira vez]. E pergunto-me, como é que cheguei até aqui [e porque é que cheguei]? Não encontro respostas, mas tenho a certeza que não o consegui sozinha.

É difícil colocar em palavras tudo o que carrego dentro. Tal como no inicio, em que me distanciei da escrita porque não sabia que palavras escolher para traduzir tudo o que estava a acontecer, voltei a fazê-lo, novamente, por necessidade... e obviamente, por medo. Embora pareça, não é fácil falar destas coisas. 

Achei que estes dias eram dias para sentir, mais do que para escrever. Não me lembro de ter chorado tanto como chorei neste ciclo... nem mesmo no primeiro. Depois de três semanas a combater as contrariedades que foram aparecendo ao longo do tratamento, tive alta. Ingenuamente, pensei que era chegar, fazer o que era suposto fazer e andar... mas não. O corpo já está demasiado castigado para lhe exigir respostas rápidas. Foram dias difíceis, cheios de pontos de interrogação e de muitas lágrimas. 

Às vezes nem sei bem porque choro... Se é por estar contente, se é por estar triste, se é para libertar tudo o que se foi acumulando ao longo destes 8 meses. Consegui fazer muito pouco nestes dias. Faltavam-me as palavras. Para quase tudo. Antes de sair do quarto do hospital, olhei-me no espelho da casa da banho. Como é que conseguiste? Como é que conseguiste? Perguntei à pessoa que estava do lado de lá.

Custou-me imenso. Custou-me mais a sair do que a entrar. Não consegui despedir-me das minhas colegas de quarto. Não consegui dizer nada. Nada faria sentido. E ainda bem que saí num dia de greve de enfermeiros...Seria difícil olhar-vos nos olhos, não pela despedida em si, mas por tudo o que se passou entre nós, [um nós feito de muita gente], nestes oito meses.

Cheguei a temer que a porra deste oito não fosse aquilo que eu tinha dito que ia ser... o símbolo do infinito. Mas alguém resgatou-me a esperança e a fé. Não acaba aqui. O processo ainda é longo e a luta continua, mas deitei o oito abaixo. E tal como vos escrevi há uns tempos, sair viva de cada etapa em que tive de me pôr à prova, foi o melhor presente. Ontem, quando a enfermeira Paula me abriu a porta da enfermaria e rapidamente a fechou, o corredor encurtou-se. Passando o pórtico, estava na rua, no mundo, na vida, uma vez mais. 

E foi estranho. [eu que tenho sempre tendência para reduzir a actividade cósmica universal a um nada]. Nunca senti as pernas tão fortes nem os passos tão seguros. Costumava vacilar, mas não aconteceu. Fui bastante rápida a dar 20 passos. Deixando o pórtico para trás das costas, consegui, finalmente encher o peito de ar. Tinha um cheiro diferente. Com-ple-ta-men-te di-fe-ren-te. Nem tive que respirar fundo para que ele me inundasse o corpo inteiro. Era um ar que raras vezes encontrei em Lisboa... Conseguir respirar não é nada mau.

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19 comments

  1. Grande texto como sempre.

    Um abraço apertado com um cheirinho a maresia.

    Beijinhos pintados com hortênsias 😘

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  2. Tudo o que sinto neste momento é para si.
    Nem sei o que dizer.
    Força. CC.
    Beijinho

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  3. O que é que se pode dizer depois de ler o que escreves? Depois de nos encheres a alma o peito e os olhos de lágrimas? Nada, rigorosamente nada além de que és uma miúda incrível e que mereces tudo o que esta vida tem de bom para oferecer. Estaremos sempre aqui para ti, tu sabes... Um beijo e um xi coração apertadinho minha linda.

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    1. Que palavras tão boas.
      Obrigada Patrícia :) De coração.

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  4. muita força e coragem. que só venham coisas boas daqui para a frente. beijinhos

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    1. Espero que sim Fátima :)
      Beijinhos e obrigada!

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  5. Você é uma grande e sábia lutadora Cátia. Todo o mundo está torcendo por si.Beijinhos

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    1. Oh, eu sei tão pouco Marília :) Obrigada, de coração!

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  6. Faço minhas as palavras da Marília.
    Beijinho

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