#projectos com alma

Calendário Solidário da Dreambooks

quarta-feira, novembro 30, 2016


Se repararem na barra lateral esquerda do blogue, logo no inicio, há uma "ilha" dedicada aos projectos com alma e é sobre isso que vos escrevo hoje. Nesta rubrica, tenho por principio, destacar ideias que valham a pena, quer pela sua originalidade, quer pela sua utilidade... Ou pelo simples facto de me tocarem o coração. Apesar dos clichés que o Natal reúne, [e contra os quais eu me debato], continuo a acreditar que a época para a qual caminhamos não deixa de ser um óptimo turn on para praticar o bem (e para darmos um pouco de nós aos outros). Se através das vossas compras puderem dar algum sentido ao consumismo, esta iniciativa, (que vos apresento), é uma óptima oportunidade e é única e exclusivamente por isso que a partilho com todos vocês.

Posto isto, vamos ao que interessa! O grupo “Saber Compreender” e o movimento “Uma Vida Como a Arte”, irão receber 1€ por cada venda feita no site da Dreambooks, ou seja, de cada vez que esta empresa vender, por exemplo, um álbum, ou uma tela decorativa, no âmbito da campanha “Calendário Solidário”, está a contribuir para estas duas entidades de apoio a pessoas sem-abrigo. No final da campanha, que arranca amanhã e termina no dia 31 de Dezembro, o valor angariado será repartido pelos dois movimentos.

A campanha, a quinta com carácter solidário promovida pela Dreambooks, proporciona ainda descontos até 50% aos clientes num conjunto de produtos seleccionados diariamente e que fazem parte do “Calendário Solidário”. Recordo-vos ainda que a Dreambooks está a levar a cabo uma iniciativa, no âmbito do projecto “Portugal, o Melhor Destino”, na qual convidou 12 pessoas sem-abrigo a fotografar a cidade do Porto. A empresa em questão pretende um olhar diferente sobre a cidade e, no início do próximo ano, as fotografias seleccionadas irão integrar uma exposição no Centro Português de Fotografia (que eu espero poder ver!).

Sou bastante suspeita ao sugerir fotos como presente de Natal simplesmente porque adoro tirá-las, recebê-las e oferecê-las. As fotografias são sempre boas memórias e por vezes dizem aquilo que nós não conseguimos verbalizar. Uma imagem vale mais do que 1000 palavras. Sim. É cliché. Outra vez. Mas também é verdade. Se decidirem eternizar boas estórias através da Dreambooks, saibam que estarão a ajudar quem ajuda os que vivem nas ruas. 

#vamos matar o bicho

Zero

quarta-feira, novembro 23, 2016

Eu adoro escrever. [por isso não se preocupem. isto não é definitivo]. É apenas uma pausa. [as pausas, ao contrário do que possam parecer, são mais necessárias, (e mais saudáveis), do que aquilo que se julga]. Quando nos acontecem muitas coisas ao mesmo tempo... o melhor é parar. Respirar fundo. E recomeçar quando entendermos que estamos prontos para o fazer (outra vez). Ao longo dos últimos meses, senti que tinha a pequena obrigação de partilhar convosco a amalgama de sentimentos que me invadia o peito... mas, agora, apetece-me viver livre de obrigações. Pelo menos daquelas das que (ainda) posso fugir.

Foram meses muito duros, em que fizeram com o meu corpo o que quiseram e bem entenderam sem que eu pudesse dizer "não". Estou cansada. [como é natural]. Continuo com os tratamentos de manutenção. Não tem sido difícil. [não me estou a queixar]. Mas também não tem sido fácil. Há dias em que tomo 13 comprimidos por dia. Há dias em que levo 3 injecções diferentes. E há dias em que não consigo levantar-me da cama por causa dos efeitos secundários. Portanto, não posso fugir disto, por mais que quisesse. Mas posso fugir de outras coisas. É por isso que vou reservar-me uns dias de rebeldia. [espero que os compreendam, de coração]. Não me apetece escrever sobre cancro, mas também não sei sobre o que é que me apetece escrever. A escrita, como sempre vos disse é um prolongamento meu e, agora, neste exacto momento, se calhar não sei muito bem quem sou. Vou pensar nisso. E depois conto-vos, é claro.

Pela primeira vez, em muito tempo, quero escrever só para mim. Quero também libertar-me de muitos sentimentos que me agoniam... e a verdade é que a escrita não estava lá a ajudar muito.  Estava a sentir-me presa... e convenhamos, sentir-se preso não é fixe. Tenho a sensação de que estou muito cheia. Que não há espaço suficiente em mim para mim... Mas não sei explicar-vos bem porquê. Acho que nesta fase não posso, nem devo, exigir-me demasiado. [manias. antigas. que nem a porra de um cancro leva pr'a longe da porta]. E uma vez que guardei muitas coisas que não deveria ter guardado, espero que os próximos dias sejam bons dias para deitar fora o que não consigo carregar (mais) em cima dos ombros. Tenho muita fome e muita sede de sentir. Coisas novas. Coisas boas. Coisas que não sejam aquilo que já conheço. Estou confiante neste "desligar" temporário. Os lutos são necessários e mesmo que doam, temos que os fazer para seguir em frente. Como eu não posso, [ou não consigo], fazer um grande funeral ao meu cancro, vou pelo menos matá-lo aqui no blogue... com choques eléctricos [para ele ver o que é bom para a tosse!].

E quando regressar, que seja para contar estórias bonitas. [que é isso que eu sempre quis fazer]. Não se preocupem que eu não estou deitada de cama, a lamentar-me da vida que tenho. [só faço isso nos dias em que a ressaca é maior]. Considerem esta pausa como uma longa paragem diante do espelho. Vem aí muita coisa nova e muita coisa boa... Mas antes disso, é tempo de arrumar a casa. Até já.

#uma açoriana em lisboa

IX

segunda-feira, novembro 21, 2016

Para lerem o artigo com melhor resolução, podem aceder ao site do Açoriano Oriental, clicando aqui.

#vamos matar o bicho

Ponto... (e Vírgula)

sábado, novembro 19, 2016

Como vocês devem calcular, durante os últimos meses, não quis aproximar-me de ninguém intencionalmente. A vida tem várias direcções e nós... Nós, às vezes, teimamos, (e muito), em andar em contra-mão. Acho, que esta intenção, (dolorosa e injusta para alguns), não foi mais do uma consequência natural do que me apareceu pela frente: um ponto final. Os pontos finais ameaçam os impulsos naturais. Foi uma consequência. E foi um erro. Um erro relativamente caro para quem passa a ver os dias corridos a vírgulas... e a reticências.

Eu não quis aproximar-me de ninguém intencionalmente porque achei, do fundo do coração, que não tinha nada para lhes dar nem nada para lhes dizer. Não foi por outra razão senão essa. No inicio, eu pensava que deviam ser os outros a dizerem-me coisas. Que era a derradeira oportunidade para colocarem os pontos finais nas frases inacabadas antes que eu não conseguisse acrescentar mais uma vírgula. Pensar assim também foi um erro. Aquilo que se quer ouvir, de algumas pessoas, quando se entra nestas rotundas inesperadas, já foi dito antes. Nos dias em não existiam outros recursos pontuais forçados. Por isso, por experiência própria, não vale a pena esperar o que já veio [e o que nunca virá].

Eu não quis aproximar-me de ninguém porque sentia que não ia ser capaz de salvar ninguém. Eu não quis aproximar-me de ninguém porque eu não sabia se me ia salvar a mim... Como é que eu podia prometer isso? Como é que eu podia ajudar a recolher os cacos de alguém quando eu própria não sabia por onde andavam os meus? Parecia-me impossível. Inexequível. Demasiado arriscado. E ainda assim, houve duas ou três criaturas que não arredaram pé. Que assistiram à minha descida aos infernos com a coragem que lhes foi possível... E que nunca exigiram nada em troca. E a quem os meus silêncios cheios nunca incomodaram. Como me apetecia dizer-lhes que ia correr tudo bem... mas era tão mais fácil escorraçá-los do quarto do hospital, com as lágrimas nos olhos, e continuar impune à dor que lhes causava. Odiei-me, várias vezes, por isso. 

Houve uma chata, em particular, que nunca me deixou [mesmo quando lho pedi... e olhem que pedi muito]. Manteve-se estóica em quantas partas dividida. E sem eu lhe dar nada troca, dizia-me o muito que eu lhe dava. Estas vírgulas que a vida vai acrescentado a pouco e pouco na(s) nossa(s) estória(s) ensinam-nos muito a olhar para o lado. Especialmente para o outro. E em última instância, para nós próprios... De uma forma como nunca antes tivemos oportunidade de o fazer. Curiosamente, esta mulher que só quis ser minha amiga, e não minha médica, e com quem partilho o nome, (vejam-me só isto!), já tinha cá estado na Terceira, há uns anos atrás, sozinha. Entre outras coisas, contou-me de um beijo perdido numa esquina que ficou por dar... E de ter subido os degraus da Sé, [de Angra], para enterrar a amalgama de sentimentos que lhe corroíam o peito em jeito de confissão.

Como esta terra encerra tanta vida. É incrível, não é? Entre os que vão e os que vem, e ainda que continue a ter que escrever com vírgulas e reticências pelo meio, eu diria que o nosso encontro já estava marcado. Aconteceu quando tinha que acontecer. Não posso devolver-te os beijos que perdeste. Não posso salvar-te dos cacos em que vives. Não posso reconstruir-te. Agora não. Não posso ser nada mais do que aquilo que sou. Agora. Mas posso assegurar-te que o que levaste daqui te acompanhará sempre. E te fará sempre forte no meio da dor. Quem se perdoa a si, não merece castigo. 

#uma açoriana em lisboa

VIII

sexta-feira, novembro 18, 2016


Para lerem o artigo com melhor resolução, podem aceder ao site do Açoriano Oriental, clicando aqui.

#vamos matar o bicho

Nos Corredores

quinta-feira, novembro 17, 2016

Como vocês têm lido por aqui, ultimamente eu não tenho saído muito casa... e não, não é por causa da careca [eu até gosto de passeá-la]. E a careca... A careca às vezes funciona como um escudo porque nem toda a gente se atreve a chegar perto. Apesar de vos ter dito logo no inicio, quando a bomba caiu, que tinha esta ideia de um cancro nunca ser (só) nosso, acho que há um momento em que ele tem de nos pertencer mais a nós do que aos outros. Esse momento pode dar-se, efectivamente, ao inicio ou ao longo do processo, (dependo de cada pessoa), mas parece-me que é especialmente mais sentido quando a possibilidade da dor física começa a aligeirar-se. 

É essa possibilidade a razão de todos os medos (e de todos os receios). E é por causa dela que evitamos perguntas [quando as conseguimos evitar]. Ontem, isso não aconteceu. Não consegui fugir à casualidade inevitável. Fui a uma loja [tenho fugido das grandes superfícies para evitar as gripes, vírus e viroses]. Uma das funcionárias, com carinha para vinte anos, deve ter reparado no meu andar perdido pelo meio dos corredores, e começou a "perseguir-me" sem noção da distância de segurança que eu [tanto] aprecio e que considero de bom tom. [se as aproximações antes já eram difíceis, agora são ainda mais estranhas da forma como ocorrem]. Como estava frio, (a temperatura desceu um pouco aqui nos Açores), levei um lenço na cabeça... Caso contrário, tinha passeado a careca como sempre a passeei até aqui. Interrompi a marcha. E ela parou também. Virei-me. Ficámos frente a frente. "É cancro?" Perguntou, sem aviso e sem cerimónias paliativas, como quem tira um penso de raspão.

Sinceramente não soube o que lhe havia de responder. É. Foi. Não sei o que é. Não quero que seja. Não quero que volte a ser. Mas ela continuava a olhar-me com a coragem que poucos têm. "A minha teve há 13 anos na mama". "E então?". "Faleceu". Senti-me na obrigação de verbalizar o que se calhar nucna tinha verbalizado até então, de uma forma tão assumida: "É leucemia". "Ah, o meu avô também já teve". "E então?" "Também já faleceu... e tenho um tio que também teve cancro do pulmão". Não sei, na realidade, quem é que não teve, (em atenção), as cerimónias paliativas que pertencem ao protocolo nestas situações... Eu não sabia responder-lhe. Como responder. Nem tão pouco perguntar-lhe mais do que um "então?". Vi uma criança olhar-me nos olhos, com os olhos de quem já viu muito mais do que eu.

"Mas a senhora está com boa cara". Sorri-lhe. Em compaixão. "Ah isso foi porque pus um bocadinho de maquilhagem, e se calhar exagerei porque já não estou habituada". "Não, não é disso. São os seus olhos. Eu vejo nos seus olhos". Não deixam de ser curiosos estes encontros inesperados.. e a forma, indecifrável, como as pessoas entrem e saem das nossas vidas. Oxalá que não te enganes, minha menina... Oxalá que não te enganes.

#vamos matar o bicho

Admirável Mundo Novo

quarta-feira, novembro 16, 2016


Para algumas pessoas a quimio tem um cheiro específico. Para mim nunca teve. E (ainda) não tem, se bem que acho que ao longo deste processo todo fui perdendo os sentidos. [não acho, tenho a certeza]. Perder o cabelo nunca me fez confusão. O bom dos hospitais é que não têm muitos espelhos (a não ser os que estão ao nosso lado). As mãos e as unhas despidas de cor, essas sim, causaram-me estranheza. Olhava muito para elas. Sonhava com o dia em que as iria poder pintar. É através delas que (re)começo a cheirar o mundo... E sabe, extraordinariamente, bem.

O cheiro das mandarinas azedas nas mãos. Que saudades. Que surpresa. Os restos de chocolate negro derretidos nos dedos. O cheiro a verniz, incolor, e sem formaldeído. Não cheira muito, mas cheira o suficiente para trazer boas recordações. O cheiro da alcatra a fumegar, em cima da mesa, e da massa sovada ensopada no molho. Sem comparação. O cheiro da erva, depois do orvalho [é impressionante como a terra cheira a vida depois de molhada, não é?]. O cheiro do café. Sempre foi um dos meus preferidos. O cheiro das manhãs friorentas e da lama esbatida no alcatrão da canada. O cheiro da comida que não se podia comer durante este tempo todo. São tantas as coisas e as sensações de que estive privada que não as consigo enumerar todas... 

É estranha não é, a rapidez com que desvalorizamos os sentidos. A imponência com que nos obrigamos a não sentir. E de repente, um dia, damos por nós a não querer lavar as mãos só para poder despertar o corpo em que habitamos com o cheiro de mandarinas azedas... Ainda bem que os (re)começos nos trazem coisas antigas com cheiros novos. Ainda bem que os (re)começos nos fazem ser crianças outra vez. Ainda bem que os (re)começos nos fazem sentir coisas, mesmo que a gente tenha medo de as sentir. Ainda bem que os (re)começos depuram o que não era sensato nem tão pouco importante. Ainda bem que os (re)começos nos aproximam da possibilidade de nos podermos apaixonar de novo. Ainda bem que os (re)começos, mesmo os momentâneos, existem e valem a pena.

Acho que estas paragens forçadas a que a vida nos obriga a fazer, de tempos a tempos, servem também para nos aproximarmos de nós próprios. Da nossa essência. Retiram-nos o peso das capas com que nos fomos escondendo ao longo do tempo. Dão-nos a possibilidade [e a coragem] de arrancarmos do zero, conhecendo o que (já) conhecemos. E isso... isso é espantoso quando acontece. Quando os médicos me disseram "já podes comer de tudo", a primeira coisa de que eu tinha mais saudades era de dar uma dentada numa maçã. Sentir a casca estalar. Peguei na maçã duas ou três e não fui capaz. [na verdade ainda não sou]. É difícil ir abandonando os costumes forçados a que estive submetida... Por outro lado, gosto deste namoro demorado. No dia em que eu lhe der uma dentada vai ser uma festa. Vêem como é fácil arranjar, todos os dias, (bons) motivos para comemorar a vida? Só precisamos, efectivamente, de sentir mais... e de não nos esquecermos que (por enquanto) estamos vivos.

#vamos matar o bicho

Manutenção

segunda-feira, novembro 14, 2016

"Está ansiosa. [pausa] É por ser um sítio diferente?". Perguntou o enfermeiro. Voltar a entrar numa sala de quimioterapia arrepia. Deixa qualquer um perdido [ainda que se saiba exactamente o trajecto a seguir]. Sentei-me no cadeirão. Encostei-me. Comecei a suar das mãos. Olhei à minha volta. [do canto aonde estava conseguia ver a sala inteira]. Tremi por dentro e desconfiei que as lágrimas... Que as lágrimas me quisessem marejar os olhos. Senti uma súbita (e enorme) vontade de chorar. 

Fui salva pelas veias. [ou melhor, pela falta delas]. Apareceram ao pé de mim duas enfermeiras. Uma para cada braço. Ao fim de algum tempo, (e de uma botija de água quente nas mãos), encontrou-se o caminho. Será que isto vai demorar muito? Pensei eu para mim. Apesar de poder parecer estar habituada a estes rituais, nunca ninguém se habitua de verdade... Quanto mais cedo uma pessoa se vir livre do cadeirão, melhor.

As salas de quimioterapia, (ou hospitais de dia), são um reflexo da realidade [que graças a Deus muita gente não conhece]. O cancro, infelizmente, é a grande epidemia do século XXI... E é bastante destrutivo, não só a nível físico, mas sobretudo a nível psicológico. Eu vivo com medo [o que me parece completamente normal]. São estranhas as exigências que a vida nos vai fazendo, não é verdade? Em determinados momentos, quer que façamos das tripas coração e que nos atiremos, (driblando pelo meio os obstáculos que pensámos não ser possíveis de ultrapassar), àquilo que verdadeiramente desejamos (sem olhar para trás). Noutros, deixa-nos o caminho livre. E empurra-nos para ele. No momento exacto em que nós nos esquecemos da forma como se caminha. 

Bom, caminha-se como se pode. É um lema meu. Antigo. E cada vez mais verossímil. E foi dessa forma que caminhei porta fora assim que o tratamento terminou. Acabou por ser mais rápido do que aquilo que eu esperava. Acalmei-me. Tranquilizei-me. Disse para mim mesma: tu já fizeste isto. E auto-corrigi-me logo em seguida: tu já fizeste (bem) pior. Não que eu fizesse, de todo, questão. Como alguém, que leu o blogue, me escreveu um dia, a oportunidade de poder tentar, [leia-se lutar], é por si só uma dádiva (que não se pode nem se deve deitar fora). A quimioterapia fará parte da minha vida [pelo menos nos próximos anos]. É uma (grande) chatice. É. Era melhor se não fizesse... mas olhando p'ra coisa de outro ponto de vista, ainda bem que assim é. 

Não. Não é por ser um sítio diferente, Sr.º Enfermeiro. É por ser exactamente igual.

#vamos matar o bicho

O pijama

domingo, novembro 13, 2016

Quando eu descobri que estava doente, as coisas foram muito rápidas. Quem me fez a mala para levar para Lisboa foi a minha mãe porque saí do hospital para o avião [e do avião para o hospital]. Apesar de termos tido alguns casos de cancro na família, nunca o tínhamos vivido na primeira pessoa. A minha mala ia basicamente cheia de pijamas. Vários. De todos os tipos. Primavera-Verão. Outono-Inverno. Não os cheguei a usar.

No hospital, em Lisboa, optei por vestir os pijamas que me deram, iguais aos de todos os que partilhavam os mesmos dias amargos. Não eram bonitos. Não são bonitos. Vestiam-nos um peso muito grande, semelhante aos dos campos de concentração. [não encontro imagem mais infeliz]. Vestir igual era uma forma de dizer, sem dizer, estamos juntos. Eu tinha o mau hábito de não fechá-los. Havia sempre um botão ou outro que me escapava... E as calças não as fechava de propósito. Os pijamas do hospital, no meio de todo o resto, tornaram-se num detalhe importante para mim. Eu precisava de acordar [e adormecer], com a certeza de que se fosse preciso, eles [os médicos], conseguiam abrir-me a camisa e reanimar-me. É isso que a gente vê nos filmes. [e foi esse tipo de filmes que me levaram aos pijamas do hospital].

Fora do hospital, senti pouca vontade em vestir-me. Em "produzir-me". [o "mise en scène" faz parte das mulheres]. Andei quase sempre de pijama... ou com roupa muito parecida com pijamas. Obrigar-me a vestir-me agora é um desafio. Penso que o é para qualquer pessoa que tenha perdido confiança. E quando falo em confiança, leio aquilo que vocês, (que me lêem), suspeitam.... Refiro-me ao dia de amanhã e não ao corpo.

A peça que mais confusão me faz é sem dúvida o soutien. [estive meses sem usá-los]. Cada vez que os vistos, sinto-me a sufocar... Agora, percebo, o que tantas clientes que consultei me diziam quando experimentavam soutiens novos. "Aperta muito". Pois aperta. Muito provavelmente, esta ideia de emergência, não me sai da cabeça. Ou melhor, do corpo. Quanto à cabeça... A cabeça está boa. Sem cabelo. Mas boa. Nunca fiz questão de escondê-la, antes pelo contrário. Tenho [muito] orgulho nela. Percebo perfeitamente as pessoas que a escondem... ou protegem, (é legítimo), mas de coração, acho que as devíamos passear mais. Não para provocar o outro. Nem para o chocar. [embora choque sempre]. Mas para "liberalizar" uma sequela de luta tão válida quanto todas as outras. Como muita gente me disse, várias vezes, é só cabelo.

Olharem, p'ra nós, com medo, incomoda. Esteja a careca destapada ou não. Nós sabemos que o medo é vosso... mas acreditem, o medo, é apenas o primeiro adversário que cada um dos que passam por isto tem de derrotar. Já é difícil colocar os pijamas sem botões... e os soutiens sem extensores. Vestirmo-nos e pormos os pés no caminho... Meios a cambalear, meios incertos, meios e às vezes não inteiros, não combina com medo. Isto sim é uma questão de estilo. 

#vamos matar o bicho

"Não me mates"

quinta-feira, novembro 10, 2016

Existem pessoas que vivem como se nunca fossem morrer. Existem, outras, que vivem cada dia como se fosse o último. Existem ainda as que (sobre)vivem. E as que vivem como se não estivessem vivas. Quem está vivo tem poucas opções. Ou vive, sem pensar na morte. Ou vive, a pensar nela. O que importa, é que entre uma coisa e outra, viva.

Quando, um dia, me disseram no hospital dos Capuchos que eu ia ser transferida para o de São José, eu não tive (bem) noção do que me estava a acontecer. [e em certa parte, até fico feliz por isso]. No mundo em que eu vivia antes do cancro, as pessoas que iam parar aos cuidados intensivos, iam porque estavam, (muito provavelmente), "às portas da morte". [e eu devo ter andado lá perto]. 

Lembro-me de tudo. Do trajecto. Da ambulância. Da cara da enfermeira e do médico. E da máquina da tensão a apertar-me o braço de segundo a segundo. Cheguei ao São José e fui "entregue" aos médicos de lá. A função deles era uma só: impedir que o meu corpo parasse. Aparece-me à frente uma médica, jovem, da minha terra. A vida é... [não irónica, não é essa a palavra] ... surpreendente. Uma pessoa, conhecida, com quem eu podia muito bem ter andado ao colo, estava ali, ao pé de mim, numa das alturas mais frágeis da minha vida.

"Não me mates que eu ainda quero ir para a Praia". Disse-lhe. [a praia, era a Praia da Vitória, a cidade a onde ambas pertencemos]. Ela riu-se. E entre o trabalho que dar impedir um corpo de não parar, teve tempo para ser pessoa, para ser amiga, para ser humana, além de ser médica. Estive 4 dias sem dormir. Eu não queria que os meus olhos se fechassem porque pensava que se eles se fechassem, então aí, o meu corpo também pararia.

Perdi a conta aos fios, às máquinas, aos barulhos todos que davam conta de que eu ainda estava neste mundo. De repente, um dia de manhã, depois de (mais) uma noite sem dormir, disseram-me que me iam levar de volta para os Capuchos. [eu não queria, nem conseguia acreditar]. Foi tão bom regressar à casa-mãe. Agarramo-nos tanto às pessoas que tomam conta de nós dia atrás de dia, que longe delas, achamos que nunca mais vamos conseguir cuidar de nós próprios, sozinhos.

Nós pedimos muitas coisas injustas aos médicos. [eu pedi]. Nem sempre sabemos comunicar da melhor forma os nossos problemas (de expressão). Nem sempre olhamos para eles de igual para igual. Nem sempre olhamos para eles como gente como a gente. Nem sempre encontramos as palavras que queremos para os momentos em que estamos... E isso, isso é das coisas em que mais pensamos quando estamos perto do fim da linha. Pensamos muito no que dissemos, como dissemos, a quem dissemos, e se dissemos o que era para ser dito, o que sentimos que devíamos dizer.

Desculpa B. a minha entrada "a matar". Não era um "não me mates" aquilo que eu te queria dizer. Era um "não me deixes morrer" o que eu te estava a dizer. [a pedir]. E, obrigada, dentro da tua condição humana, por teres dado o teu melhor. Sem vacilar. Sem hesitar. Tínhamos encontro marcado, antes de eu me vir embora. Espero que não fiques chateada, se o pudermos reagendar, agora que estou, (finalmente), na minha Praia.

#vamos matar o bicho

A primeira noite

terça-feira, novembro 08, 2016

Entrei no quarto, sentei-me na cama, [em cima da colcha de retalhos que me fez a minha avó] e olhei para o roupeiro de portas abertas. Tentei reconhecer-me na roupa pendurada. Tentei imaginar-me antes de tudo isto. Quem eu era. E quem tinha acabado de chegar. Abri o "guarda-jóias", e fiquei uns minutos a olhar para os brincos compridos que agora não gosto de ver com o cabelo curto. [ou sem cabelo]. Tentei enfiar uns anéis nos dedos, ver os que ainda me serviam e os que já não. Remexi numas quantas gavetas não para me lembrar do que estava lá, mas para me lembrar, essencialmente, de mim.

A primeira noite em casa, [casa mesmo casa], não foi estranha... Embora pareça. Adormeci, normalmente, ainda que a cama me trouxesse recordações amargas (ainda não me esqueci dos dias que lá passei, sem me conseguir levantar, quando o meu corpo decidiu trocar-me as voltas). Não sonhei. Não consegui sonhar com nada. Sem despertadores, sem pressas, sem me dar conta das horas, acordei. E a primeira coisa que fiz foi ir até à janela da sala onde só se vê verde a perder de vista. Eram 6 da manhã. Ainda estava escuro. Tive o privilégio de ver o sol nascer entre várias nuvens negras. Fiquei uns minutos a apreciar o espectáculo, o que estava do lado de lá do vidro... e o que estava no vidro. A textura da minha respiração.

Tenho a sorte de já ter visto muitos nasceres do sol, mas este, foi sem dúvida, o mais importante da minha vida. Desde então, (ainda) não saí de casa, a não ser para ver o mar de dentro do carro. Fazer as pazes com a vida leva tempo. Leva sempre algum tempo depois de se ter sofrido muito. Viver com um cancro em nós é difícil. Viver com a sombra dele não é mais fácil. Não é como trocar o CD de um carro e começar a ouvir outra banda sonora. Acho que nós, [os que passamos por isto], guardamos sempre cá dentro um medo pequenino, mesmo que sejamos (corajosos e) grandes amantes da vida. Eu ainda não saí de casa não porque tenha medo das pessoas me verem. Eu ainda não saí de casa porque tenho medo que um dia elas não me vejam.

Depois da primeira noite, [e do "primeiro" nascer do sol], abri a minha mala de maquilhagem e limpei todos os pincéis que estavam lá dentro (antes do cancro, mal ou bem, maquilhava-me quase todos os dias). Não sei porque o fiz. Foi um impulso. Natural. Olho-me no espelho, hoje, e vejo alguns cabelos a nascerem, as sobrancelhas a comporem-se, e uma pestana aqui, outra ali. Acho que os pincéis são as minhas chaves de casa. E pode ser que um dia destes funcionem. Sem despertadores, sem pressas, sem me dar conta das horas.

#uma açoriana em lisboa

VII

segunda-feira, novembro 07, 2016

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#vamos matar o bicho

Mais força que medo

domingo, novembro 06, 2016

Perguntam-me muito como é que foi o regresso. [minha gente, eu acabei de aterrar... e o "voo" não foi fácil]. Embora, fisicamente, dê por mim no ponto de partida onde a última aventura começou, ainda não regressei por completo. Acredito (muito) na morosidade saudável dos regressos. Eles não acontecem. Vão acontecendo. [pelo menos têm sido assim todas as minhas tentativas de voltar a algo]. Começam com um desejo. Ganham força ao longo do tempo, [o tempo que for preciso], e um dia, se tivermos sorte, acontecem. Sim, sorte. Valente coração o meu, que nunca leu os regressos como um andar para trás... Antes pelo contrário, sempre os vi [e vivi] como a possibilidade de um (re)começo. Agora, mais do que nunca.

Perguntam-me muito se houve festa. Não, não houve. Nem recepções. Nem demonstrações públicas de não-sei-bem-o-quê. Nunca fui pessoa dessas coisas. De coisas que não-sabemos-bem-o-que-são. Também nunca fui de mostrar muito ao mundo aquilo que me vai dentro. Por mais que insistam em dizer-me o quão extraordinária fui, [e terei que ser], eu nunca vou aceitá-lo. Ninguém é extraordinário diante de um cancro. É o que é. O que pode e consegue ser. E não se devia sobrecarregar quem passa por isso com a responsabilidade de parecer um herói. O cancro é tão duro, tão duro, tão duro, que o simples facto de aceitá-lo já é por si só um acto de coragem. Para me sentir feliz, neste momento, basta-me saber o que sei à data de hoje. É o suficiente. [garanto-vos]. Há um certo egoísmo nesta balada de sentimentos, há. Bastante mais do que antes... Mas, perdoem-me a honestidade, este momento, é meu. E quero-o, (como nunca quis), só para mim.

Perguntam-me muitas coisas, mas não me apetece falar delas. Não é uma estratégia de fuga. Juro que não é. Nem é mau feitio. Às vezes, muitas vezes, pergunto-me porque é que decidi partilhar convosco tudo aquilo que partilhei. Acho que a partilha seria inevitável porque, mais tarde ou mais cedo, sentiria esta necessidade, [que sempre me acompanhou], de passar para o papel o que estava a sentir. Como é óbvio, passei o que pude... Mas nos momentos em que não pude, ficou muito por dizer. Passei-vos a imagem do cancro, dentro da minha perspectiva pessoal, mas fui muito poupada nos caracteres. A realidade, tal como ela é, é feia. Despida de adjectivos bonitos. 

Eu pretendia desmistificar o cancro. Esse era um dos meus principais objectivos, mas não o mais importante. [sinceramente, não sei se consegui]. Queria dizer às pessoas, em geral, que as pessoas com cancro continuam a ser isso mesmo, pessoas... E que o cancro é mais do que o diagnóstico fatalista que todos pensam que é. Mesmo nas fatalidades, nas possibilidades fechadas, nas opções-zero, na luta desigual contra o tempo que tanta gente enfrenta, há uma parte pessoa. Há, (e houveram), muitas pessoas. E muitas partes delas que ficaram em mim. E, orgulha-me muito, [sem modéstia], que mesmo sem saber o que me calharia, (ou calhará), na sorte, eu tenha tido mais força do que medo para olhar à minha volta. 

Perguntam-me como estou. Eu não sei. [as pessoas exigem-nos sempre muitas respostas depois de grandes desafios, não é?]. Estou de regresso. Mais uma vez. Seja o que for.

#vamos matar o bicho

32 e meio

sábado, novembro 05, 2016

Hoje, dia 28 de Outubro, faço 32 anos e meio. [sim, escrevi-vos este texto no dia 28, mas não tive coragem de o publicar]. Não costumo celebrar meios aniversários. E tal como vos escrevi há uns meses atrás, também não acredito que os anos comecem em Setembro. [e a partir de agora] Nem tão pouco em Dezembro. E não, não serei daquelas pessoas que passam a celebrar o aniversário a partir da data de remissão. Não tenho nada contra quem o faz, mas não sinto, (ainda), a vontade, quase obrigatória, de o fazer. 

Quando os meus amigos fazem anos, costumo desejar-lhes "feliz ano novo". Acho que os aniversários assinalam isso mesmo: anos novos. E tudo o que se quer nos anos novos são coisas boas. Metade dos meus 32 foi o que vocês todos leram aqui... e mais qualquer coisa que ficou por dizer. Uma metade dilatada em 9 meses. [o que não deixa de ser curioso porque são justamente 9 meses o tempo que leva um novo ser a nascer]. Nesta metade inevitável fui obrigada a abandonar muitas das minhas dúvidas (existenciais)... Da mesma forma que fui obrigada, a acreditar, em pessoas. [de todo o tipo]. Conhecidas. E desconhecidas. E em coisas boas, mesmo quando os dados apontavam todos para o pior.

Aprendi que por mais que a gente tente afastar determinadas pessoas das nossas vidas, por medo, por incapacidade de as amar, ou porque sozinhos, o fardo não sobrecarrega mais ninguém, as que querem ficar, ficam, efectivamente. Aprendi que estamos cá para nos entregarmos. [porque a vida a meio gás, é capaz de ser mais penosa]. Aprendi que há um tempo para tudo, inclusive para chorar e que isso não faz de nós fracos, faz de nós humanos. Aprendi que nas fases mais difíceis desta vida em que todos nós andamos, [e ainda bem que (ainda) cá andamos], não é ridículo sentir coisas boas. É provável. E é possível. Aprendi que de tempos a tempos, em jeito de edição, precisamos de rever conceitos e (re)ajustar valores. [os nossos]. E aprendi que um pouco de compaixão, por nós, e pelos outros, torna-nos, sem dúvida, melhores. 

Ficaria horas a enumerar tudo aquilo que aprendi. Tal como diz a minha querida Dra. Susana, (psicóloga), os cancros não têm de ser experiências transformadoras, mas se forem, que sejam, p'ra melhor. Hoje, aos 32 anos e meio, não sei se sou uma pessoa melhor, mas espero que sim. Hoje, aos 32 anos e meio, 9 meses depois, tive alta. Alta do Hospital de Santo António dos Capuchos em Lisboa. Posso, finalmente, regressar a casa. E como seria expectável, ainda não acredito nisso. Não sei quando é que vou acreditar... mas prometo dar o meu melhor a tentar. Hoje, aos 32 e meio, continuo viva, caraças. Que presentão.