A primeira noite

terça-feira, novembro 08, 2016

Entrei no quarto, sentei-me na cama, [em cima da colcha de retalhos que me fez a minha avó] e olhei para o roupeiro de portas abertas. Tentei reconhecer-me na roupa pendurada. Tentei imaginar-me antes de tudo isto. Quem eu era. E quem tinha acabado de chegar. Abri o "guarda-jóias", e fiquei uns minutos a olhar para os brincos compridos que agora não gosto de ver com o cabelo curto. [ou sem cabelo]. Tentei enfiar uns anéis nos dedos, ver os que ainda me serviam e os que já não. Remexi numas quantas gavetas não para me lembrar do que estava lá, mas para me lembrar, essencialmente, de mim.

A primeira noite em casa, [casa mesmo casa], não foi estranha... Embora pareça. Adormeci, normalmente, ainda que a cama me trouxesse recordações amargas (ainda não me esqueci dos dias que lá passei, sem me conseguir levantar, quando o meu corpo decidiu trocar-me as voltas). Não sonhei. Não consegui sonhar com nada. Sem despertadores, sem pressas, sem me dar conta das horas, acordei. E a primeira coisa que fiz foi ir até à janela da sala onde só se vê verde a perder de vista. Eram 6 da manhã. Ainda estava escuro. Tive o privilégio de ver o sol nascer entre várias nuvens negras. Fiquei uns minutos a apreciar o espectáculo, o que estava do lado de lá do vidro... e o que estava no vidro. A textura da minha respiração.

Tenho a sorte de já ter visto muitos nasceres do sol, mas este, foi sem dúvida, o mais importante da minha vida. Desde então, (ainda) não saí de casa, a não ser para ver o mar de dentro do carro. Fazer as pazes com a vida leva tempo. Leva sempre algum tempo depois de se ter sofrido muito. Viver com um cancro em nós é difícil. Viver com a sombra dele não é mais fácil. Não é como trocar o CD de um carro e começar a ouvir outra banda sonora. Acho que nós, [os que passamos por isto], guardamos sempre cá dentro um medo pequenino, mesmo que sejamos (corajosos e) grandes amantes da vida. Eu ainda não saí de casa não porque tenha medo das pessoas me verem. Eu ainda não saí de casa porque tenho medo que um dia elas não me vejam.

Depois da primeira noite, [e do "primeiro" nascer do sol], abri a minha mala de maquilhagem e limpei todos os pincéis que estavam lá dentro (antes do cancro, mal ou bem, maquilhava-me quase todos os dias). Não sei porque o fiz. Foi um impulso. Natural. Olho-me no espelho, hoje, e vejo alguns cabelos a nascerem, as sobrancelhas a comporem-se, e uma pestana aqui, outra ali. Acho que os pincéis são as minhas chaves de casa. E pode ser que um dia destes funcionem. Sem despertadores, sem pressas, sem me dar conta das horas.

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6 comments

  1. A primeira de muitas :)
    Bjs e bom regresso!

    Lua

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  2. É o teu renascer... sente-o com todas as tuas forças e tenta viver intensamente agora mais que nunca!... :)

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    1. É verdade Vera, uma pessoa consegue ter a percepção exacta disso.
      Fui muito negligente com a vida, espero não o ser mais.
      Beijinho :)

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