Admirável Mundo Novo

quarta-feira, novembro 16, 2016


Para algumas pessoas a quimio tem um cheiro específico. Para mim nunca teve. E (ainda) não tem, se bem que acho que ao longo deste processo todo fui perdendo os sentidos. [não acho, tenho a certeza]. Perder o cabelo nunca me fez confusão. O bom dos hospitais é que não têm muitos espelhos (a não ser os que estão ao nosso lado). As mãos e as unhas despidas de cor, essas sim, causaram-me estranheza. Olhava muito para elas. Sonhava com o dia em que as iria poder pintar. É através delas que (re)começo a cheirar o mundo... E sabe, extraordinariamente, bem.

O cheiro das mandarinas azedas nas mãos. Que saudades. Que surpresa. Os restos de chocolate negro derretidos nos dedos. O cheiro a verniz, incolor, e sem formaldeído. Não cheira muito, mas cheira o suficiente para trazer boas recordações. O cheiro da alcatra a fumegar, em cima da mesa, e da massa sovada ensopada no molho. Sem comparação. O cheiro da erva, depois do orvalho [é impressionante como a terra cheira a vida depois de molhada, não é?]. O cheiro do café. Sempre foi um dos meus preferidos. O cheiro das manhãs friorentas e da lama esbatida no alcatrão da canada. O cheiro da comida que não se podia comer durante este tempo todo. São tantas as coisas e as sensações de que estive privada que não as consigo enumerar todas... 

É estranha não é, a rapidez com que desvalorizamos os sentidos. A imponência com que nos obrigamos a não sentir. E de repente, um dia, damos por nós a não querer lavar as mãos só para poder despertar o corpo em que habitamos com o cheiro de mandarinas azedas... Ainda bem que os (re)começos nos trazem coisas antigas com cheiros novos. Ainda bem que os (re)começos nos fazem ser crianças outra vez. Ainda bem que os (re)começos nos fazem sentir coisas, mesmo que a gente tenha medo de as sentir. Ainda bem que os (re)começos depuram o que não era sensato nem tão pouco importante. Ainda bem que os (re)começos nos aproximam da possibilidade de nos podermos apaixonar de novo. Ainda bem que os (re)começos, mesmo os momentâneos, existem e valem a pena.

Acho que estas paragens forçadas a que a vida nos obriga a fazer, de tempos a tempos, servem também para nos aproximarmos de nós próprios. Da nossa essência. Retiram-nos o peso das capas com que nos fomos escondendo ao longo do tempo. Dão-nos a possibilidade [e a coragem] de arrancarmos do zero, conhecendo o que (já) conhecemos. E isso... isso é espantoso quando acontece. Quando os médicos me disseram "já podes comer de tudo", a primeira coisa de que eu tinha mais saudades era de dar uma dentada numa maçã. Sentir a casca estalar. Peguei na maçã duas ou três e não fui capaz. [na verdade ainda não sou]. É difícil ir abandonando os costumes forçados a que estive submetida... Por outro lado, gosto deste namoro demorado. No dia em que eu lhe der uma dentada vai ser uma festa. Vêem como é fácil arranjar, todos os dias, (bons) motivos para comemorar a vida? Só precisamos, efectivamente, de sentir mais... e de não nos esquecermos que (por enquanto) estamos vivos.

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