Mais força que medo

domingo, novembro 06, 2016

Perguntam-me muito como é que foi o regresso. [minha gente, eu acabei de aterrar... e o "voo" não foi fácil]. Embora, fisicamente, dê por mim no ponto de partida onde a última aventura começou, ainda não regressei por completo. Acredito (muito) na morosidade saudável dos regressos. Eles não acontecem. Vão acontecendo. [pelo menos têm sido assim todas as minhas tentativas de voltar a algo]. Começam com um desejo. Ganham força ao longo do tempo, [o tempo que for preciso], e um dia, se tivermos sorte, acontecem. Sim, sorte. Valente coração o meu, que nunca leu os regressos como um andar para trás... Antes pelo contrário, sempre os vi [e vivi] como a possibilidade de um (re)começo. Agora, mais do que nunca.

Perguntam-me muito se houve festa. Não, não houve. Nem recepções. Nem demonstrações públicas de não-sei-bem-o-quê. Nunca fui pessoa dessas coisas. De coisas que não-sabemos-bem-o-que-são. Também nunca fui de mostrar muito ao mundo aquilo que me vai dentro. Por mais que insistam em dizer-me o quão extraordinária fui, [e terei que ser], eu nunca vou aceitá-lo. Ninguém é extraordinário diante de um cancro. É o que é. O que pode e consegue ser. E não se devia sobrecarregar quem passa por isso com a responsabilidade de parecer um herói. O cancro é tão duro, tão duro, tão duro, que o simples facto de aceitá-lo já é por si só um acto de coragem. Para me sentir feliz, neste momento, basta-me saber o que sei à data de hoje. É o suficiente. [garanto-vos]. Há um certo egoísmo nesta balada de sentimentos, há. Bastante mais do que antes... Mas, perdoem-me a honestidade, este momento, é meu. E quero-o, (como nunca quis), só para mim.

Perguntam-me muitas coisas, mas não me apetece falar delas. Não é uma estratégia de fuga. Juro que não é. Nem é mau feitio. Às vezes, muitas vezes, pergunto-me porque é que decidi partilhar convosco tudo aquilo que partilhei. Acho que a partilha seria inevitável porque, mais tarde ou mais cedo, sentiria esta necessidade, [que sempre me acompanhou], de passar para o papel o que estava a sentir. Como é óbvio, passei o que pude... Mas nos momentos em que não pude, ficou muito por dizer. Passei-vos a imagem do cancro, dentro da minha perspectiva pessoal, mas fui muito poupada nos caracteres. A realidade, tal como ela é, é feia. Despida de adjectivos bonitos. 

Eu pretendia desmistificar o cancro. Esse era um dos meus principais objectivos, mas não o mais importante. [sinceramente, não sei se consegui]. Queria dizer às pessoas, em geral, que as pessoas com cancro continuam a ser isso mesmo, pessoas... E que o cancro é mais do que o diagnóstico fatalista que todos pensam que é. Mesmo nas fatalidades, nas possibilidades fechadas, nas opções-zero, na luta desigual contra o tempo que tanta gente enfrenta, há uma parte pessoa. Há, (e houveram), muitas pessoas. E muitas partes delas que ficaram em mim. E, orgulha-me muito, [sem modéstia], que mesmo sem saber o que me calharia, (ou calhará), na sorte, eu tenha tido mais força do que medo para olhar à minha volta. 

Perguntam-me como estou. Eu não sei. [as pessoas exigem-nos sempre muitas respostas depois de grandes desafios, não é?]. Estou de regresso. Mais uma vez. Seja o que for.

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8 comments

  1. "O cancro é tão duro, tão duro, tão duro, que o simples facto de aceitá-lo já é por si só um acto de coragem".

    Sem palavras.
    Aliás, bem-vinda a casa.

    Beijinho

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    1. Obrigada Maria... Ainda estou às apalpadelas!

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  2. Porque me quis armar em erudita e deixar aqui umas palavras bonitas, tropecei no poema do Miguel Torga....
    Que seja um recomeço doce! :)
    Parabéns pelos 32 1/2!



    Sísifo
    "Recomeça…
    Se puderes,
    Sem angústia e sem pressa.
    E os passos que deres,
    Nesse caminho duro
    Do futuro,
    Dá-os em liberdade.
    Enquanto não alcances
    Não descanses.
    De nenhum fruto queiras só metade.

    E, nunca saciado,
    Vai colhendo
    Ilusões sucessivas no pomar
    E vendo
    Acordado,
    O logro da aventura.
    És homem, não te esqueças!
    Só é tua a loucura
    Onde, com lucidez, te reconheças."
    Miguel Torga, Diário XIII

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    1. Como é que tropeçaste num dos meus poemas preferidos Tatiana?
      "Recomeça | Se puderes...| Sem angústia e sem pressa."
      Estou a tentar Tatiana, estou a tentar...
      Um beijo enorme!

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  3. E que feliz fiquei ao ler este post do teu regresso... Vieste para ficar, de certeza! E eu espero que agora aproveites ainda mais a vida e gozes o que ela tem de bom sempre e ainda com mais afinco!
    Não é fácil enfrentar o cancro, mas não é impossível e eu sabia/sentia que irias conseguir! :)

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    1. Oh, Vera, tão querida. Oxalá que sim, oxalá que tenha vindo para "ficar" e para mais uma ou duas coisinhas nesta vida... A adaptação ainda está a ser feita com pezinhos de lã, mas espero que aos poucos tudo vá ao seu lugar. Um beijo enorme e obrigada por todo o apoio!

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