Manutenção

segunda-feira, novembro 14, 2016

"Está ansiosa. [pausa] É por ser um sítio diferente?". Perguntou o enfermeiro. Voltar a entrar numa sala de quimioterapia arrepia. Deixa qualquer um perdido [ainda que se saiba exactamente o trajecto a seguir]. Sentei-me no cadeirão. Encostei-me. Comecei a suar das mãos. Olhei à minha volta. [do canto aonde estava conseguia ver a sala inteira]. Tremi por dentro e desconfiei que as lágrimas... Que as lágrimas me quisessem marejar os olhos. Senti uma súbita (e enorme) vontade de chorar. 

Fui salva pelas veias. [ou melhor, pela falta delas]. Apareceram ao pé de mim duas enfermeiras. Uma para cada braço. Ao fim de algum tempo, (e de uma botija de água quente nas mãos), encontrou-se o caminho. Será que isto vai demorar muito? Pensei eu para mim. Apesar de poder parecer estar habituada a estes rituais, nunca ninguém se habitua de verdade... Quanto mais cedo uma pessoa se vir livre do cadeirão, melhor.

As salas de quimioterapia, (ou hospitais de dia), são um reflexo da realidade [que graças a Deus muita gente não conhece]. O cancro, infelizmente, é a grande epidemia do século XXI... E é bastante destrutivo, não só a nível físico, mas sobretudo a nível psicológico. Eu vivo com medo [o que me parece completamente normal]. São estranhas as exigências que a vida nos vai fazendo, não é verdade? Em determinados momentos, quer que façamos das tripas coração e que nos atiremos, (driblando pelo meio os obstáculos que pensámos não ser possíveis de ultrapassar), àquilo que verdadeiramente desejamos (sem olhar para trás). Noutros, deixa-nos o caminho livre. E empurra-nos para ele. No momento exacto em que nós nos esquecemos da forma como se caminha. 

Bom, caminha-se como se pode. É um lema meu. Antigo. E cada vez mais verossímil. E foi dessa forma que caminhei porta fora assim que o tratamento terminou. Acabou por ser mais rápido do que aquilo que eu esperava. Acalmei-me. Tranquilizei-me. Disse para mim mesma: tu já fizeste isto. E auto-corrigi-me logo em seguida: tu já fizeste (bem) pior. Não que eu fizesse, de todo, questão. Como alguém, que leu o blogue, me escreveu um dia, a oportunidade de poder tentar, [leia-se lutar], é por si só uma dádiva (que não se pode nem se deve deitar fora). A quimioterapia fará parte da minha vida [pelo menos nos próximos anos]. É uma (grande) chatice. É. Era melhor se não fizesse... mas olhando p'ra coisa de outro ponto de vista, ainda bem que assim é. 

Não. Não é por ser um sítio diferente, Sr.º Enfermeiro. É por ser exactamente igual.

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2 comments

  1. Esse espirito para cima, ok? dentro das tuas capacidades do momento, é tentar ao máximo pensar positivo.
    Imagina-te no porto de Pipas, ou a comer uma dona Amélia. :-)
    Tudo a correr bem!

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    1. Uma Dª Amélia era capaz de resultar :P
      Obrigada pela dica! Beijinho.

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