"Não me mates"

quinta-feira, novembro 10, 2016

Existem pessoas que vivem como se nunca fossem morrer. Existem, outras, que vivem cada dia como se fosse o último. Existem ainda as que (sobre)vivem. E as que vivem como se não estivessem vivas. Quem está vivo tem poucas opções. Ou vive, sem pensar na morte. Ou vive, a pensar nela. O que importa, é que entre uma coisa e outra, viva.

Quando, um dia, me disseram no hospital dos Capuchos que eu ia ser transferida para o de São José, eu não tive (bem) noção do que me estava a acontecer. [e em certa parte, até fico feliz por isso]. No mundo em que eu vivia antes do cancro, as pessoas que iam parar aos cuidados intensivos, iam porque estavam, (muito provavelmente), "às portas da morte". [e eu devo ter andado lá perto]. 

Lembro-me de tudo. Do trajecto. Da ambulância. Da cara da enfermeira e do médico. E da máquina da tensão a apertar-me o braço de segundo a segundo. Cheguei ao São José e fui "entregue" aos médicos de lá. A função deles era uma só: impedir que o meu corpo parasse. Aparece-me à frente uma médica, jovem, da minha terra. A vida é... [não irónica, não é essa a palavra] ... surpreendente. Uma pessoa, conhecida, com quem eu podia muito bem ter andado ao colo, estava ali, ao pé de mim, numa das alturas mais frágeis da minha vida.

"Não me mates que eu ainda quero ir para a Praia". Disse-lhe. [a praia, era a Praia da Vitória, a cidade a onde ambas pertencemos]. Ela riu-se. E entre o trabalho que dar impedir um corpo de não parar, teve tempo para ser pessoa, para ser amiga, para ser humana, além de ser médica. Estive 4 dias sem dormir. Eu não queria que os meus olhos se fechassem porque pensava que se eles se fechassem, então aí, o meu corpo também pararia.

Perdi a conta aos fios, às máquinas, aos barulhos todos que davam conta de que eu ainda estava neste mundo. De repente, um dia de manhã, depois de (mais) uma noite sem dormir, disseram-me que me iam levar de volta para os Capuchos. [eu não queria, nem conseguia acreditar]. Foi tão bom regressar à casa-mãe. Agarramo-nos tanto às pessoas que tomam conta de nós dia atrás de dia, que longe delas, achamos que nunca mais vamos conseguir cuidar de nós próprios, sozinhos.

Nós pedimos muitas coisas injustas aos médicos. [eu pedi]. Nem sempre sabemos comunicar da melhor forma os nossos problemas (de expressão). Nem sempre olhamos para eles de igual para igual. Nem sempre olhamos para eles como gente como a gente. Nem sempre encontramos as palavras que queremos para os momentos em que estamos... E isso, isso é das coisas em que mais pensamos quando estamos perto do fim da linha. Pensamos muito no que dissemos, como dissemos, a quem dissemos, e se dissemos o que era para ser dito, o que sentimos que devíamos dizer.

Desculpa B. a minha entrada "a matar". Não era um "não me mates" aquilo que eu te queria dizer. Era um "não me deixes morrer" o que eu te estava a dizer. [a pedir]. E, obrigada, dentro da tua condição humana, por teres dado o teu melhor. Sem vacilar. Sem hesitar. Tínhamos encontro marcado, antes de eu me vir embora. Espero que não fiques chateada, se o pudermos reagendar, agora que estou, (finalmente), na minha Praia.

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2 comments

  1. Cada post seu, CC, é uma lição que nos dá.
    Beijinho

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    1. Não sei se são lições ou não Maria, mas gosto de pensar que são boas estórias. Beijinhos

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