Nos Corredores

quinta-feira, novembro 17, 2016

Como vocês têm lido por aqui, ultimamente eu não tenho saído muito casa... e não, não é por causa da careca [eu até gosto de passeá-la]. E a careca... A careca às vezes funciona como um escudo porque nem toda a gente se atreve a chegar perto. Apesar de vos ter dito logo no inicio, quando a bomba caiu, que tinha esta ideia de um cancro nunca ser (só) nosso, acho que há um momento em que ele tem de nos pertencer mais a nós do que aos outros. Esse momento pode dar-se, efectivamente, ao inicio ou ao longo do processo, (dependo de cada pessoa), mas parece-me que é especialmente mais sentido quando a possibilidade da dor física começa a aligeirar-se. 

É essa possibilidade a razão de todos os medos (e de todos os receios). E é por causa dela que evitamos perguntas [quando as conseguimos evitar]. Ontem, isso não aconteceu. Não consegui fugir à casualidade inevitável. Fui a uma loja [tenho fugido das grandes superfícies para evitar as gripes, vírus e viroses]. Uma das funcionárias, com carinha para vinte anos, deve ter reparado no meu andar perdido pelo meio dos corredores, e começou a "perseguir-me" sem noção da distância de segurança que eu [tanto] aprecio e que considero de bom tom. [se as aproximações antes já eram difíceis, agora são ainda mais estranhas da forma como ocorrem]. Como estava frio, (a temperatura desceu um pouco aqui nos Açores), levei um lenço na cabeça... Caso contrário, tinha passeado a careca como sempre a passeei até aqui. Interrompi a marcha. E ela parou também. Virei-me. Ficámos frente a frente. "É cancro?" Perguntou, sem aviso e sem cerimónias paliativas, como quem tira um penso de raspão.

Sinceramente não soube o que lhe havia de responder. É. Foi. Não sei o que é. Não quero que seja. Não quero que volte a ser. Mas ela continuava a olhar-me com a coragem que poucos têm. "A minha teve há 13 anos na mama". "E então?". "Faleceu". Senti-me na obrigação de verbalizar o que se calhar nucna tinha verbalizado até então, de uma forma tão assumida: "É leucemia". "Ah, o meu avô também já teve". "E então?" "Também já faleceu... e tenho um tio que também teve cancro do pulmão". Não sei, na realidade, quem é que não teve, (em atenção), as cerimónias paliativas que pertencem ao protocolo nestas situações... Eu não sabia responder-lhe. Como responder. Nem tão pouco perguntar-lhe mais do que um "então?". Vi uma criança olhar-me nos olhos, com os olhos de quem já viu muito mais do que eu.

"Mas a senhora está com boa cara". Sorri-lhe. Em compaixão. "Ah isso foi porque pus um bocadinho de maquilhagem, e se calhar exagerei porque já não estou habituada". "Não, não é disso. São os seus olhos. Eu vejo nos seus olhos". Não deixam de ser curiosos estes encontros inesperados.. e a forma, indecifrável, como as pessoas entrem e saem das nossas vidas. Oxalá que não te enganes, minha menina... Oxalá que não te enganes.

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