O pijama

domingo, novembro 13, 2016

Quando eu descobri que estava doente, as coisas foram muito rápidas. Quem me fez a mala para levar para Lisboa foi a minha mãe porque saí do hospital para o avião [e do avião para o hospital]. Apesar de termos tido alguns casos de cancro na família, nunca o tínhamos vivido na primeira pessoa. A minha mala ia basicamente cheia de pijamas. Vários. De todos os tipos. Primavera-Verão. Outono-Inverno. Não os cheguei a usar.

No hospital, em Lisboa, optei por vestir os pijamas que me deram, iguais aos de todos os que partilhavam os mesmos dias amargos. Não eram bonitos. Não são bonitos. Vestiam-nos um peso muito grande, semelhante aos dos campos de concentração. [não encontro imagem mais infeliz]. Vestir igual era uma forma de dizer, sem dizer, estamos juntos. Eu tinha o mau hábito de não fechá-los. Havia sempre um botão ou outro que me escapava... E as calças não as fechava de propósito. Os pijamas do hospital, no meio de todo o resto, tornaram-se num detalhe importante para mim. Eu precisava de acordar [e adormecer], com a certeza de que se fosse preciso, eles [os médicos], conseguiam abrir-me a camisa e reanimar-me. É isso que a gente vê nos filmes. [e foi esse tipo de filmes que me levaram aos pijamas do hospital].

Fora do hospital, senti pouca vontade em vestir-me. Em "produzir-me". [o "mise en scène" faz parte das mulheres]. Andei quase sempre de pijama... ou com roupa muito parecida com pijamas. Obrigar-me a vestir-me agora é um desafio. Penso que o é para qualquer pessoa que tenha perdido confiança. E quando falo em confiança, leio aquilo que vocês, (que me lêem), suspeitam.... Refiro-me ao dia de amanhã e não ao corpo.

A peça que mais confusão me faz é sem dúvida o soutien. [estive meses sem usá-los]. Cada vez que os vistos, sinto-me a sufocar... Agora, percebo, o que tantas clientes que consultei me diziam quando experimentavam soutiens novos. "Aperta muito". Pois aperta. Muito provavelmente, esta ideia de emergência, não me sai da cabeça. Ou melhor, do corpo. Quanto à cabeça... A cabeça está boa. Sem cabelo. Mas boa. Nunca fiz questão de escondê-la, antes pelo contrário. Tenho [muito] orgulho nela. Percebo perfeitamente as pessoas que a escondem... ou protegem, (é legítimo), mas de coração, acho que as devíamos passear mais. Não para provocar o outro. Nem para o chocar. [embora choque sempre]. Mas para "liberalizar" uma sequela de luta tão válida quanto todas as outras. Como muita gente me disse, várias vezes, é só cabelo.

Olharem, p'ra nós, com medo, incomoda. Esteja a careca destapada ou não. Nós sabemos que o medo é vosso... mas acreditem, o medo, é apenas o primeiro adversário que cada um dos que passam por isto tem de derrotar. Já é difícil colocar os pijamas sem botões... e os soutiens sem extensores. Vestirmo-nos e pormos os pés no caminho... Meios a cambalear, meios incertos, meios e às vezes não inteiros, não combina com medo. Isto sim é uma questão de estilo. 

Deixe um comentário

4 comments

  1. Tão verdade isto: " Nós sabemos que o medo é vosso".
    CC, sempre me custou suportar o soutien.
    Quando era mais jovem, se pudesse não usava, sobretudo no verão.
    Hoje, mal entro em casa, tiro-o.
    Um beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. As coisas que a nossa cabeça vai buscar, alias o medo e todos nós mais ou menos vivemos de medos, mas de pijamas ou com a roupa mais elegante que uma mulher possa vestir és sempre linda, a tua beleza é da parábola ddo tesouro escondido que tu encontras-te com muita dor.Continua linda.

      Eliminar
    2. Obrigada Abel pelas suas palavras.
      Cada um com os seus medos, as suas perdas, as suas cruzes.
      Fico muito feliz por ter vindo deixar o seu comentário.
      Na vivência da dor, encontramos muita coisa boa.
      Um abraço

      Eliminar