Ponto... (e Vírgula)

sábado, novembro 19, 2016

Como vocês devem calcular, durante os últimos meses, não quis aproximar-me de ninguém intencionalmente. A vida tem várias direcções e nós... Nós, às vezes, teimamos, (e muito), em andar em contra-mão. Acho, que esta intenção, (dolorosa e injusta para alguns), não foi mais do uma consequência natural do que me apareceu pela frente: um ponto final. Os pontos finais ameaçam os impulsos naturais. Foi uma consequência. E foi um erro. Um erro relativamente caro para quem passa a ver os dias corridos a vírgulas... e a reticências.

Eu não quis aproximar-me de ninguém intencionalmente porque achei, do fundo do coração, que não tinha nada para lhes dar nem nada para lhes dizer. Não foi por outra razão senão essa. No inicio, eu pensava que deviam ser os outros a dizerem-me coisas. Que era a derradeira oportunidade para colocarem os pontos finais nas frases inacabadas antes que eu não conseguisse acrescentar mais uma vírgula. Pensar assim também foi um erro. Aquilo que se quer ouvir, de algumas pessoas, quando se entra nestas rotundas inesperadas, já foi dito antes. Nos dias em não existiam outros recursos pontuais forçados. Por isso, por experiência própria, não vale a pena esperar o que já veio [e o que nunca virá].

Eu não quis aproximar-me de ninguém porque sentia que não ia ser capaz de salvar ninguém. Eu não quis aproximar-me de ninguém porque eu não sabia se me ia salvar a mim... Como é que eu podia prometer isso? Como é que eu podia ajudar a recolher os cacos de alguém quando eu própria não sabia por onde andavam os meus? Parecia-me impossível. Inexequível. Demasiado arriscado. E ainda assim, houve duas ou três criaturas que não arredaram pé. Que assistiram à minha descida aos infernos com a coragem que lhes foi possível... E que nunca exigiram nada em troca. E a quem os meus silêncios cheios nunca incomodaram. Como me apetecia dizer-lhes que ia correr tudo bem... mas era tão mais fácil escorraçá-los do quarto do hospital, com as lágrimas nos olhos, e continuar impune à dor que lhes causava. Odiei-me, várias vezes, por isso. 

Houve uma chata, em particular, que nunca me deixou [mesmo quando lho pedi... e olhem que pedi muito]. Manteve-se estóica em quantas partas dividida. E sem eu lhe dar nada troca, dizia-me o muito que eu lhe dava. Estas vírgulas que a vida vai acrescentado a pouco e pouco na(s) nossa(s) estória(s) ensinam-nos muito a olhar para o lado. Especialmente para o outro. E em última instância, para nós próprios... De uma forma como nunca antes tivemos oportunidade de o fazer. Curiosamente, esta mulher que só quis ser minha amiga, e não minha médica, e com quem partilho o nome, (vejam-me só isto!), já tinha cá estado na Terceira, há uns anos atrás, sozinha. Entre outras coisas, contou-me de um beijo perdido numa esquina que ficou por dar... E de ter subido os degraus da Sé, [de Angra], para enterrar a amalgama de sentimentos que lhe corroíam o peito em jeito de confissão.

Como esta terra encerra tanta vida. É incrível, não é? Entre os que vão e os que vem, e ainda que continue a ter que escrever com vírgulas e reticências pelo meio, eu diria que o nosso encontro já estava marcado. Aconteceu quando tinha que acontecer. Não posso devolver-te os beijos que perdeste. Não posso salvar-te dos cacos em que vives. Não posso reconstruir-te. Agora não. Não posso ser nada mais do que aquilo que sou. Agora. Mas posso assegurar-te que o que levaste daqui te acompanhará sempre. E te fará sempre forte no meio da dor. Quem se perdoa a si, não merece castigo. 

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2 comments

  1. Sabes uma coisa? Recentemente na minha vida, comecei por ver as coisas e principalmente as pessoas de outra maneira. Aprendo muito mais hoje com tudo e todos, do que fazia antigamente. Podem-lhe chamar maturidade, podem-lhe chamar crescimento emocional, podem-lhe chamar muita coisa, mas sinceramente, acho que é nada mais nada menos do que finalmente ver aquilo que os olhos não vêem: o essencial.
    Obrigada. Obrigada por não teres deixado a chata sair do teu lado; porque eu estive ao lado dela quando a mandavas embora. Sei o que lhe custava, sei o quanto lhe doía, mas louvava o facto de ela saber que esta caminhada contigo era essencial não só para ela como para ambas.
    Obrigada. E Obrigada.

    Com carinho,

    a Irmã da chata <3

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    1. Pequena sereia, é bem capaz de ser apenas isso: o essencial.
      Não tens de agradecer. Um beijinho grande :)

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